terça-feira, 18 de agosto de 2015

Cha para os amigos

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No dia seguinte, o capitão encontrou o Sancho e tomou café com ele. Este perguntou-lhe se já resolvera o problema da habitação e como correra a mudança. O capitão registou o interesse e a quase preocupação do Sancho mas, sendo novo na zona e mostrando o seu sorriso de acrílico, contou os pormenores alto e bom som para quem quisesse ouvir, agradecendo sempre agradecendo entre sorrisos tresloucados. 
Os dias passaram. 
Sempre que o capitão entrava no café, era recebido com extrema curiosidade por todos e, talvez por consideração à dica que o Sancho lhe fornecera, pagava a este sempre o café. O capitão vinha de um corte com a sua realidade-passado, estava sem contactos com o mundo actual, sem ninguém com quem falar e dir-se-ia que o Sancho queria dizer presente, queria falar e perguntar a opinião do capitão sobre muitas coisas, importantíssimas, tais como se o capitão ia ao ginásio ou se fazia corrida no parque auto-convidando-se como companhia, dir-se-ia que o sondava e queria ser até próximo, até… até que se chegou à política. Sancho era da linha dura à direita, dizia que na prisão pelo menos teria direito a alimentação e cama, dizia que, se algumas pessoas ficassem totalmente sem apoio social, talvez fossem obrigadas a usar o colchão. Estas palavras calaram a princípio o capitão que se incomodou, porque lhe pareceu o Sancho pensar que o capitão tinha um colchão de dinheiro, «afinal apareces-me aqui sem trabalho que te identifique, apenas com um sorriso na cara e modos de quase palhaço e agora estás-me a perguntar onde se almoça de graça?!», foi o que o capitão pensou que o Sancho telepaticamente dizia. Mas só lhe respondeu já sem sorriso na cara e quase com dor: «O pior é daqueles que já não têm colchão…» A partir daqui, o capitão Mancha, Cha para os amigos, começou a preferir tomar café sozinho. 
O que Cha precisava era de trabalho e também resolver o problema da alimentação. A dona Zelda talvez, ao ver que a boa impressão sobre o seu novo hóspede se confirmava, deixou-o guardar no frigorífico os dois taparuéres que, por um preço quase simbólico, trazia diariamente para casa (a saber: um de sopa e outro com comida cozinhada além de pão ou bolos iogurtes ou fruta.) Deixou-o igualmente usar o microondas e permitiu que o Cha fizesse café usando o fogão. O problema era a distância que era necessário percorrer todos os dias para ir à associação de caridade. Durante mais de um mês, Cha caminhou sobre o sol de Agosto monte acima para lá chegar. Uma subida de certamente mais de três quilómetros de duração. Demorava uma hora. Chegava, dirigia-se à pia e lavava o suor. Arfava. Depois esperava a sua vez. A volta era fácil, era a descer mas sem isenção de riscos: às vezes, o taparuére de sopa virava-se dentro da mochila, as sapatilhas a meio do mês tinham um buraco na planta do pé. Cha disfarçava o desconforto do contacto da pele com o chão, usando papel de jornal a fazer de sola. Cha emagreceu quatro quilos num mês. Era urgente arranjar maneira de se alimentar em condições menos precárias. Tirar o passe de transporte público era assunto fora da balança. Por isso, tinha perguntado ao Sancho onde comer barato nas redondezas. Também foi falar com a assistente social da junta de freguesia. Esta, ao ouvir Cha dizer que era um esquizofrénico estabilizado e que precisava de ajuda alimentar perto e que nem se importava em pagar, teve algum receio mas primeiro, perguntou-lhe se as suas perturbações mentais eram devido a drogas. Depois, quando Cha admitiu em parte tal hipótese ser possível, acabou por lhe indicar um refeitório a cem metros, aberto a todos os que precisam de uma refeição completa pela manhã. É onde o capitão ainda hoje come. O trabalho chegou-lhe por indicação telefónica, tem de se apresentar, hoje às sete horas da tarde, como «à experiência» num restaurante. «Se correr bem, até passo a comer aqui, o salário é bom, só não gosto dos turnos mas, já sei, os horários de trabalho da restauração não deixam muito tempo disponível de lazer. É quase um casamento!?» riu-se Cha.
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Claudio Mur

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