segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Fisga

Quando terminamos a parte prática da aula, colocamos os trabalhos em linha no chão
e a professora diz-nos para sermos assertivos ao criticarmos o trabalho de cada um.
-- O que sente?
E eu começo a descrever o que vejo. Aí a professora interrompe:
-- Não é o que vê, é o que sente. feche os olhos, inspire, abra os os olhos
e diga o que sente.
Foi aqui que disse que isso de sentir, comigo não funciona.
Ela tenta de outro modo:
-- Fisgar pássaro?
E o clique dá-se no meu pensamento:
-- Eu tenho um primo que na altura tinha uma caçadeira, caçava pássaros...
-- Por prazer?, o que fazia com eles?
-- Comia-os.
-- Mas tinha fome?
-- Não. Acho que era mesmo por desporto. Eu tinha doze anos, o meu avô fazia arcos e flechas...
-- Alguma vez matou algum pássaro?
-- Não, nunca, era só uma brincadeira para passar o tempo.
-- Obrigada pelo sentimento. Viu? Não é dificil exprimir sentimentos. Amor e ódio são sentimentos. O que é mau é a ausência de sentimento: a indiferença.

(Eu pergunto-me se não será a indiferença preferível ao contacto com alguém
que apenas nos faz mal ou provoca em nós sentimentos de ódio:
ser indiferente também pode ser uma forma pragmática de esconder um sofrimento.)


'Fisga'
desenho a lápis e pastel sobre papel A3
2016
ZMB

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