sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Livraria Cassiber

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A Capítulo 0

Cassiber: Not me

 

Resolvo agora sair de casa para ir ao centro comercial. Ao fundo da avenida, viro à esquerda e chego finalmente ao semáforo. Atravesso no limite e, quando chego ao passeio, vejo um atleta a parar na passadeira à minha frente. Passo por ele e quase atropelo uma avozinha porque continuo a andar e a olhar para trás. O atleta treina boxe e, enquanto espera o verde no semáforo, simula ganchos com as mãos e movimenta os pés como se estivesse no ringue. A rua é larga e desce uns cem metros. Depois dos táxis, as lojas são à face da rua. Passo por um restaurante, uma papelaria, um escritório da rodoviária e uma florista. Chego ao largo de acesso em calcário, tem um lago com árvores de pedra e bancos de jardim. O centro divide-se em duas alas opostas e nas portas giratórias, às vezes, as crianças brincam dentro e fora. Estas portas abrem-se para agradáveis salões com ar condicionado. Caminho através das galerias espaçosas e o movimento é pendular, alguns vêm e eu vou no tubo de acesso ao parque de estacionamento. Imaginemos que este túnel se transforma numa casa de cão à beira dos pântanos de um rio. É onde ficam os estabelecimentos de renda mais barata deste centro comercial. São todos em forma de casota duplex e estão situadas nas traseiras junto aos salgueiros e perto da água.

É nesta zona tão pouco frequentada que existe a loja que hoje procuro, transacciona livros em segunda mão e tem espaço para as excentricidades mais variadas e outros objectos de antiquário. Não passa de um esboço, ao qual chamarei de inexistente no presente mas é certa esta imagem virtual, é uma vontade preanunciada e localizada na margem do rio, um plano para escrever o futuro, fazer-me à vida como futuro comerciante zeloso de pagar os meus impostos. No entanto, sempre que lhe leio a montra encontro preciosidades inestimáveis e livros dos bons, literatura maldita e rebelde mas também alguns livros de estudo e, sobretudo, muitos meios de conhecer outros povos, outras pontes, outros poemas. Na minha primeira visita, comprei uma pirâmide hieroglífica que se juntou a tantas outras montanhas e muros que me servem, hoje, de companhia nestes tempos de solidão, neste mau estar tratado com recurso a ergoterapia e pintoras de chiquebem.

Conheci a loja por acaso, fica mesmo ao lado da lavandaria que precisei um dia de encontrar para lavar os tapetes do quarto. A culpa foi da bezana do aniversário de uma sista no Gungunhana, uma festa com bolo e bons hambúrgueres, finos, bagaços, submarinos e ave-marias, Gauloises, Gitanes e vários SGs. Um eu que conheci na festa sugeriu irmos beber uma garrafa de uísque para o jardim em frente, sentámo-nos cada um em cada balouço, falámos das diferenças abissais entre Pink Floyd e Pixies dando tragos, balouçando e passando a garrafa até esta secar. Quando nos separámos por volta da meia-noite eu parecia o baloiço, a festa já tinha seguido o seu rumo para outro lado e o resto é a história sem interesse de como, sonolento e bêbado, fui varrendo as paredes até chegar à porta do prédio, acertei com a chave na fechadura e subi os três andares cantando eu não eu não, os meus filhos estavam doentes, estava muito ocupado, não pedi para nascer até vomitar no tapete. Era tal o fedor rescendente, tão enormes os bocados mal mastigados de hambúrguer que o meu colega de casa, que dormia habitualmente na outra cama, nessa noite dormiu no sofá da sala.

Hoje, esse eu do uísque trabalha nesta loja chamada Livraria Cassiber. Um dos meus sonhos por fim realizado, uma qualquer poligénese talvez literária, talvez psicocinética, talvez a mente gerando a matéria, e tão perigosa de se pensar talvez verdadeira. Mas talvez possa aprender com a sua experiência.

Paro na montra e reparo num machado, longo com a lâmina ligeiramente curvilínea. Uma antiguidade da época de Ana Bolena, segunda mulher de Henrique VIII, uma das que ficou sem cabeça, diz no letreiro.

Subitamente quando avanço para entrar na loja, tenho um flash luminoso e paro, penso que as luzes do centro comercial se apagaram e, ao ver faróis ao longe, soletro com a melhor dicção de guna para um minidisc que trago sempre comigo: carros-patrulha circulando descaracterizados no quarteirão das piscinas à procura de índios e ciganos? Na verdade, não tenho uma gamela de certeza. Aliás, posso ter descrito essa emoção e asseguro-te da sua veracidade, como tão certo estar hoje aqui e de a ter experimentado um dia mas não posso, no entanto, recordar o tempo exacto em que tudo isso aconteceu, porque aconteceu ou mesmo se aconteceu.

Alarmadas com estas frases reveladoras de carácter, as luzes voltam a acender-se e eu, que falo pondo os óculos escuros a filtrar a visão do real e apagando do momento as escutas visuais e os faróis, fico irreconhecível em caótica invisibilidade de fantasma. A voz sussurra irreal na névoa verde como se saindo de um livro, a voz diz: porque as verdades, que foram cortadas do papel e coladas no ecrã-tela da televisão com fita-cola e que, depois em frente dos bófias que os falecidos chamaram, foram jogadas no número vinte e sete da roleta, só porque três vezes nove vidas dá vinte e sete, essas verdades transformar-se-ão em mentiras, quando a leitura da matrícula real for transposta para a escrita usando os óculos escuros e a caneta. Aí, eu direi a frase exorcista: real não real, caríssimo não te amofines, eu hei-de aparecer à vista de todos, não hei-de ser um fantasma fumador e, ao mesmo tempo, chibo.

Largo o microfone e pego na caneta, escrevo no caderno preto de frases poema:

Colapso, título de um livro pensado há seis anos. Ah! Como será bom fumar já aqui uma ganza e experimentar o prazer consumista das belas novidades...

Entro finalmente na lojae, ao passar por um espelho, tiro os óculos e cumprimento-me porque sem óculos vejo alguém no espelho. Convido-me para fazer as honras da casa e entro para a sala de baixo da loja Cassiber. Apercebo-me do êxtase em ser reconhecido e volto a colocar os óculos de sol. De novo me torno fantasma, eis-me eu contra eu, voz dialogando com voz.

 

Então C?, tá tudo?

Tudo. Tás fixe, D?

Que te traz por cá?

Não tinha nada para fazer e resolvi passar por aqui para ver uns livros. Mas na montra reparei naquele machado, é mesmo ingalês?

Acendendo-se uma chama nos olhos, dirijo-me à montra e pergunto: Interessa-te?

De certo modo, em teoria...

Bem, é um machado respigado recentemente duma antiga casa senhorial há muito abandonada que foi demolida para permitir o prolongamento de uma rua.

Mas quanto vale?

Não está à venda. Rio e continuo: Ou melhor, custa um pedaço de dinheiro. Mas para que queres tu um machado?

Para nada. Só me fascinou ao primeiro olhar.

Levo a mão ao nariz, aperto-o, escondo um sorriso, rodo sobre mim próprio e digo:

Lembro-me de ver filmes sobre o rei Henrique de Inglaterra... é isso.

Esquece lá esse crápula, olha, tenho aqui algo melhor, livros que talvez te possam interessar. Queres ver?

Sim. Que andas a ler no momento?

Ando a ler este, As alucinações de um drogado do Burroughs.

Porquê?

Por causa do que as pessoas gostam de falar, tudo merda e mentiras!

Que andas a ouvir no momento?

Engraçado, serviram-me um café há dias no Gungunhana e perguntaram-me se poderia ser café de saco pois a máquina de cimbalinos estava avariada, azar.... são coisas que acontecem, no entanto apenas e só por causa disso, ando a ouvir o álbum que tem o Aum dos Mão Morta pois lá o narrador, ou autor ou leitor ou actor ou mesmo pessoa normal?, entra num café onde ainda servem café de saco.

E qual foi o melhor filme que viste nos últimos tempos?

Eh... nem sei o nome, porque quando ele estava para começar deu-me uma diarreia tão grande que não deu para ver o título, os fumadores sabem que os vegetais dão soltura, não sabes? De qualquer modo, acho que era um filme do Raul Ruiz onde o Marcello Mastroianni fazia quatro papéis ao mesmo tempo, tinha portanto quatro casas espalhadas por ai...

Ah...! Já me lembro, é aquele filme onde existe uma personagem que caminha a falar durante uma data de segundos com um martelo enterrado na cabeça até que o sangue aparece e ele cai no chão... é esse, não é?

Sim. Olha este livro.

Recebo do meu eu o livro, observo a capa cinzenta, pergunto o tema, eu respondo:

É mais ou menos uma história construída a partir de pequenos acasos, pequenas coincidências. Uma história construída por uma data de pessoas que por aqui passaram, folhearam, compraram e vieram mais tarde entregar o livro com os seus próprios acréscimos manuscritos. É uma edição da casa, eu apenas transcrevi e paginei. São memórias para uns, escapes para outros então.

Ah!, isso agora tem um nome, chama-se bookcrossing aplicado.

Pergunto-me de novo o que ando a ler no momento:

De momento ando a ser iluminado pelo Stig Dagerman e A ilha dos Condenados.

Tenebroso...

Porquê? Já ouviste falar de Stig Dagerman?

Não.

Tenebroso, se calhar, mórbido, depressivo e tudo mais. Deixa-me tentar adivinhar o teu pensamento... se calhar, é só por causa do título?

O título faz-nos muitas vezes escolher um livro. Muitas vezes o motivo pelo qual se pega num determinado livro é uma crítica de alguém num jornal, uma opinião de alguém que já leu ou se interessou uma vez pelo seu autor.

Fazendo uma pausa.

É tudo muito subjectivo. Já li livros que nada têm a ver com o título. Por exemplo, O outono em Pequim do Boris Vian não fala nem de outonos nem de Tiananmen. Mas o Arranca corações bate toda concorrência, excelente registo de quem andou sempre a fazer uma data de coisas diferentes sem se comprometer com nenhuma delas... e, depois, sabe rir-se das vozes, de todas as personagens projecção, de todos os pseudónimos duplicação. Talvez, no fundo, seja apenas o prazer em fazer que move montanhas, as definições de estilo serão sempre para os estudiosos. No entanto é preciso fazer bem, já que se faz alguma coisa deve-se fazer bem, deve ser esse o objectivo.

E o que acontece quando se começa a ler um livro e se verifica que o seu conteúdo é uma grande merda?

Às vezes, frequentemente aliás... Pode ser que a tua percepção seja diferente da percepção da pessoa que te indicou o livro. Ou pode mesmo estar mal escrito, ser soporífero, também acontece. Mas... em teoria, nunca se pega num livro ao acaso, existem pequenos algos, responde-se sempre a um estímulo, uma sensibilidade, um meme.

Então que livro leverás devar?

Hum... talvez o livro cinzento.

Porquê o livro cinzento?

O conceito interessa.

Muito bem.

Bem, vou indo, tenho de passar no supermercado e comprar azeite.

Até à próxima.

Saio da loje e decido fazer a viagem mais longa até ao azeite, tudo porque quero passar no parque de lazer, às vezes encontram-se prendas no chão, berlindes e berlaites dos bons, e, além do mais, é sempre um regalo ver as raparigas a fazer crosse de óculos de sol e walkman colado ao ouvido.

Hoje nada a assinalar neste caminho extra e posso dizer que não vi a pantera cor-de-rosa.

Chego a casa, tiro os sapatos, bebo um pouco de água e sento-me, enrolo um cigarro e começo a folhear o livro. Reparo nos nomes estranhamente esquisitos dos capítulos, o índice faz aumentar a minha curiosidade. Será anormal ter interesse em palavras esquisitas, será depressivo, será decadente?

A página zero tem como epígrafe: se eu voltar durante a minha ausência, mantém-me aqui até eu regressar. Termina dizendo: para mim e dedicado a G.

Viro a página e continuo a ler: 

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Claudio Mur

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