quinta-feira, 3 de abril de 2025

Muito antes disso, às oito da manhã, a avó

 Tornei-me imediatamente parte da loucura diária. Evelyn deslocava-se diariamente com o carro à cidade, pois trabalhava como secretária numa companhia de seguros. À tarde, as gémeas voltavam do liceu em Fox Chapel e, por norma, com amigas da escola. Mas, muito antes disso, às oito da manhã, a avó começava a tentar acordar o Billy, que costumava tocar num bar até às três da manhã. De meia em meia hora, ela, com a bíblia na mão e citando-lhe passagens, batia repetidamente à porta trancada numa tentativa de o afastar do seu caminho pecaminoso. O cão, que tinha uma espécie de relação simbiótica e emocional com Billy, esperava pacientemente à porta. Só à tarde é que ele aparecia, espreguiçando-se com prazer, todo nu. A avó fugia e o Billy batia no peito enquanto, no tom do velho testamento, lamentava a sua vida de pecado. O Benjamim, ainda lá parado, ladrava em acompanhamento, mas, sabendo aquilo que o ritual pedia, levantava também o traseiro. Era nessa altura que o Billy mudava para uma qualquer língua canina imaginária e encaminhava o Benjamim pelas escadas abaixo, segurando-lhe nas duas patas traseiras, tal como o Christopher Robin faz ao Winnie the Pooh. Ele ia parando em cada degrau carpetado para continuar a lamentar, na língua canina, as suas aventuras pecaminosas. Lá em baixo, na sala, as gémeas e as amigas guinchantes fugia do jovem nu que agora iniciava a sua perseguição da avó já em fuga. Billy começava então a proclamar a sua jeremiada numa mistura de profeta do velho testamento e cocker spaniel.


página 143 - 144

Werner Herzog em «Cada um por si e Deus contra todos»

Tradução de Mário Prado Coelho

Edição Zigurate


domingo, 30 de março de 2025

There is comprehensive documentation of the massacres Hamas committed
But documenting the dead from Israel’s offensive in Gaza has been a much bigger challenge.

 https://apps.npr.org/gaza-building-israel-strike-casualties/

sábado, 29 de março de 2025

Em forma de carcará

"Jurema e Kauá são dados como mortos por seus parentes da aldeia, mesmo sem os corpos serem encontrados. Alguns boatos maldosos espalham que os dois fugiram juntos para a capital e vivem muito bem com a família, longe da aldeia e da miséria da zona rural. Há quem diga que os dois são selvagens que comem gente e que são protegidos pelos encantados do catimbó para quem eles servem e fazem trabalhos. Mas a maioria preza pela imagem do belo casal e conta que todas as quintas feiras de lua cheia ela vem às margens procurar a sua família e se encontra com ele em forma de carcará, para protegerem os povos das aldeias dos invasores que exploraram os recursos naturais das matas do litoral brasileiro. "

Página 65
Eva Potiguara em "Herdeiros de Jurema"
Edição Exclamação

Throbbing Gristle -- The Third Mind, Third Movement

7 minutos de cinema pela Mrs Misanthropy

sexta-feira, 28 de março de 2025

Tragédia e estatística

Ana Cristina Leonardo no jornal Público de hoje 6f:
"Hoje, um dos paradoxos -- para quem o quiser reconhecer -- é assistir à esquerda europeia indignada com a política panificadora dos Estados Unidos em relação à Ucrânia, após décadas e décadas de críticas ferozes à política belicista por esse mundo fora. Poucos anos passados sobre a morte de Alan Kurdi, o menino sírio de três anos que deu à costa, morto, num areal da Turquia, passou a achar-se justificado (pela luta anticolonialista?) o rapto e morte de bebés israelitas."

Ana Cristina Leonardo considera que os USA têm uma política pacificadora na Ucrânia: Falso, os USA querem os recursos minerais da Ucrânia sejam eles ucranianos ou extraídos das regiões ucranianas anexadas pelos russos para sempre. Trump é russo e quer a paz russa e os minerais ucranianos. ACL não se importa, ela que parece gostar da Rússia também parece gostar do Trump, afinal a Gronelândia não fica no Algarve. Também parece gostar dos planos de Trump para Gaza e talvez sinta curiosidade em no futuro ir lá passar um belo fim-de-semana ao Trump Gaza hotel. 
Quanto aos bebés israelitas raptados e mortos, permita-me dizer que na melhor tradição estalinista, isso é uma tragédia; no entanto, parece-me que para ACL, a morte de 50mil palestinianos é uma estatística. 

quinta-feira, 27 de março de 2025

A gente veio pedir sua bênção para o nosso casório Pajé Arandi

"O sol desperta o casal, os pássaros saem dos ninhos em busca de alimentos, a corrente do rio faz seu caminho em rumo à mata verdejante. Jurema e Kauá se olham num diálogo sereno com a natureza ao redor e se abraçam como uma promessa de um bom dia para os dois. Se levantam, pegam seus poucos pertences e seguem em direção à tapera do Pajé Arandi."

Eva Potiguara: página 31 de "Os herdeiros de Jurema" edição Exclamação





quarta-feira, 26 de março de 2025

domingo, 23 de março de 2025

Irabcdjol 14, um album musical por ZMB

 https://archive.org/details/irabcdjol14





IRABCDJOL 14

01: O açúcar é um doce veneno
02: As borboletas são
03: Regresso a 3110
04: Manuel de Castro na estação
05: Ameixa virgem do avesso
06: Sonho de flauta distante
07: Fica com a tua riqueza
08: Aleluia
09: Mãe Linda Remix
10: O meu Paris Texas
11: A reconhecer pelos notários
12: Mãe Linda
13: Radio Emergencia Nacional
14: Xano
15: O radical do meu medo
16: Café Central
17: Batida Cigana

«Aleluia» contains a sampler from Sheila Chandra: Weaving at my ancestors voices

«Radio Emergência Nacional» contains a sampler from Gunter Hampel: Music from Europe and another from a trumpet in a Xano song

«O radical do meu medo» contains a sampler from Rachmaninov

«Café Central» and «Batida Cigana» are field recordings with the Fregueses do Café Central.

Shivana is on «As borboletas são» and «Aleluia» 
and Júlio Allen Vidal is on «Fica com a tua riqueza»

ZMB reads two poems from Manuel de Castro 
on «Manuel de Castro na estação» and «A reconhecer pelos notários»


quinta-feira, 20 de março de 2025

Defender o penalti

-- Aquilo que o Trump precisava era de uma trampa pelas ventas abaixo!, diz a minha mãe. 
Eu viro-me para ela e digo a rir: -- E ele punha-te uma tarifa de 300%, mãe. Pai, sabes a ultima? Os ovos estão caros na América porque eles tiveram de matar as galinhas por causa da gripe das aves, andam a pedir ovos à Europa, vê lá, querem a Gronelândia à força e foram pedir ovos à Dinamarca, os europeus já disseram que não há ovos para ninguém...
-- E depois o Trump manda um míssil...
-- É pai, os americanos sempre foram isso,  xerifes e donos do dinheiro e do mundo, herdaram dos europeus a ideia, e os europeus inspiravam-se no amigo americano e na promessa do sonho americano e esqueciam o que os americanos fizeram em Cuba, no Vietname,  Hiroxima e Nagazaki, América do Sul, assassinato do Allende eleito, apoio a Pinochet e outras ditaduras fascistas, afinal tudo isso era longe, nem no quintal da Europa isso se passou, era lá longe na selva, os europeus encolhiam os ombros porque os americanos eram nossos amigos, davam-nos jazz e dinheiro para charutos e whiskey de centeio, dava-nos Sinatra e Marilyn.
O meu pai quase que adormece, a minha mãe pergunta a quanto fica a dúzia. Eu continuo:
-- Mas agora, o nosso amigo deixou de ser nosso amigo, era como eu pedir-te um ovo, tu não mo venderes e eu te bater, é  a lei do mais forte, os americanos costumavam ser assim com o Terceiro Mundo, agora são amigos de todo o segundo mundo, sao mais amigos da Rússia da Coreia do Norte do que da Europa,  só não são amigos do Irão fascista, preferem o fascista amigo israelita, é o que temos, olha o Diogo Costa defendeu um penalti...

segunda-feira, 17 de março de 2025

Mais uma vitória da esquerda

 Mais uma vitória da esquerda

O meu pai hoje ao ouvir o Ventura na tv disse: -- Olha o comunista!
Eu ri-me e disse: -- Ora aí está, fico contente, tu primeiro sentias afinidade com ele porque não gostavas do Rui Rio e o Ventura tinha sido lançado pelo Passos Coelho, e agora chamas-lhe comunista, o que é falso mas revela que se para ti os comunistas são o diabo e se chamas o Ventura de comunista, logo o Ventura é o diabo também, e logo já não gostas dele! É uma vitória, ainda bem que percebeste que só vota no Ventura quem é gatuno!
-- Eu queria que a minha descendência votasse psd...
-- Pai, esquece-me porque eu não te vou dar netos, mas a tua neta vai votar psd ou il, por isso a tua descendência segue-te, eu sou só uma ovelha ranhosa.
-- Vota Montenegro!
-- Para isso, terias que abrir uma empresa para gerir a casa da aldeia, fazeres-me sócio e quando houvesse problema mudar tudo para meu nome eheheh
-- Tanto ódio aos ricos.
A minha mãe que nos ouvia divertida, disse: -- Eu lembro-me de quando entraste na minha secção para vender aquelas enciclopédias...
-- É, mas cheguei a vender alguma, mãe?
-- Sim, as minhas colegas gabaram o teu patuá.
Eu rio-me e viro-me para o meu pai: -- Vês, pai, eu também já fui capitalista, mas depois, meti-me na droga e...
-- Lá estás tu a brincar com coisas sérias! Não deves estar bem...
-- Pai, estou-me a rir de mim, é o que levamos desta vida, senão não duramos muito, um careca não se pode rir de uma anedota de carecas? E um alentejano vai dar um tiro a todos? Temos de nos rir. É o que nos salva.

It was after the end of the world

sexta-feira, 14 de março de 2025

Isso Macunaíma ficava que ficava um lião querendo. Ci também.

 ''

O herói vivia sossegado. Passava os dias marupiara na rede matando formigas taiocas, chupitando golinhos de pajuari e quando agarrava cantando acompanhado pelos sons gotejantes do cotcho, os matos reboavam com doçura adormecendo as cobras os carrapatos os mosquitos as formigas e os deuses ruins.

De-noite Ci chegava recendendo resina de pau, sangrando das brigas e trepava na rede que ela mesmo tecera com fios de cabelo. Os dois brincavam e depois ficavam rindo um pro outro.

Ficavam rindo longo tempo, bem juntos. Ci aromava tanto que Macunaíma tinha tonteiras de moleza.

-- Puxa! como você cheira, benzinho! que ele murmuriava gozado. E escancarava as narinas mais. Vinha uma tonteira tão macota que o sono principiava pingando das pálpebras dele. Porém a Mãe do Mato inda não estava satisfeita não e com um jeito de rede que enlaçava os dois convidava o companheiro pra mais brinquedo. Morto de soneira, infernizado, Macunaíma brincava para não desmentir a fama só, porém quando Ci queria rir com ele de satisfação:

-- Ai! que preguiça!... que o herói suspirava enfarado. E dando as costas para ela adormecia bem. Mas Ci queria brincar inda mais... Convidava covidava... O herói ferrado no sono. Então a Mãe do Mato pegava na txara e cotucava o companheiro. Macunaíma se acordava dando grandes gargalhadas estorcegando de cócegas.

-- Faz isso não, oferecida!

-- Faço!

-- Deixa a gente dormir, seu bem...

-- Vamos brincar.

-- Ai! que preguiça!...

E brincavam mais outra vez.

Porém nos dias de muito pajuari bebido, Ci encontrava o Imperador do Mato-Virgem largado por aí num porre mãe. Iam brincar e o herói esquecia no meio.

-- Então, herói!

-- Então o quê!

-- Você não continua?

-- Continua o quê!

-- Pois, meus pecados, a gente está brincando e vai você para no meio!

-- Ai! que preguiça...

Macunaíma mal esboçava de tão chumbado. E procurando um macio nos cabelos da companheira adormecia feliz.

Então pra animá-lo, Ci empregava o estratagema sublime. Buscava no mato a folhagem de fogo da urtiga e sapecava com ela uma coça coçadeira no chuí do herói e na nalachítchi dela. Isso Macunaíma ficava que ficava um lião querendo. Ci também. E os dois brincavam que mais brincavam num deboche de ardor prodigioso.

Mas era nas noites de insônia que o gozo inventava mais. Quando todas as estrelas incendiadas derramavam sobre a Terra um ólio calorento que ninguém não suportava de tão quente, corria pelo mato uma presença de incêndio. Nem a passarinhada aguentava no ninho. Mexia inquieta o pescoço, voava pro galho em frente e no milagre mais enorme deste mundo inventava de supetão uma alvorada preta, cantacantando que não tinha fim. A bulha era tremenda o cheiro poderoso e o calor inda mais.

Macunaíma dava um safanão na rede atirando Ci longe. Ela acordava feito fúria e crescia pra cima dele. Brincavam assim. E agora despertados inteiramente pelo gozo inventavam artes novas de brincar.

Nem bem seis meses passaram e a Mãe do Mato pariu um filho encarnado. Isso, vieram famosas mulatas da Bahia, do Recife, do Rio Grande do Norte e da Paraíba, e deram pra Mãe do Mato um laçarote rubro cor de mal, porque agora ela era mestra do cordão encarnado em todos os Pastoris de Natal. Depois foram-se embora com prazer e alegria, bailando que mais bailando, seguidas de futebóleres águias pequenos xodós serestreiros, toda essa rapaziada dorê. Macunaíma ficou de repouso o mês de preceito porém se recusou a jejuar. O pecurrucho tinha a cabeça chata e Macunaíma inda a achatava mais batendo nela todos os dias e falando pro guri:

-- Meu filho, cresce depressa pra você ir pra São Paulo ganhar muito dinheiro.

"

página 24 - 26 de 

Macunaíma o herói sem nenhum carácter

por Mário de Andrade

edição Darué, selo da editora urutau

Darué significa luta em yorubá


segunda-feira, 10 de março de 2025

Tuíte reescrito

E então ela rebolou como uma gata e ensinou ao rato como se fazia o serviço
Ele agradado por ela o ajudar a vencer a timidez sentiu-se amado e decidiu gravar o nome dela nas estrelas 
E hoje o seu nome é estrela. 

sexta-feira, 7 de março de 2025

Esse zelo de ter e de manter traz-nos rugas

O quarto mobilado 

Quanto mais tralha tiver, 
mais pequeno ele há-de ser.
Será uma selva, um sudário
de quadros, mobiliário. 
Sofá, cama, cadeira, armário, a variedade 
estraga toda a sua simplicidade. 
Um quarto cheio de coisas a mais 
dá vontade de rir, como sabeis.
Jarrinhas, estatuetas, búzios ocos,
parece que cochicham uns cons os outros. 
Toalhas, franjas e tanta almofada 
parecem dizer que não têm nada 
a ver com uma ideia de presente.
Velharias de imitação, qualquer um sente 
que elas nos entram pelos dias; a sala fica
mais ampla, clara, sensata, rica, 
quando não acumulamos hora a hora 
sobre o seu rosto de outrora, 
outras camadas de ornatos preciosos 
ainda mais opíparos, sumptuosos. 
É o quarto que ao próprio quarto oferece 
qualidade bastante, o brilho que merece. 
E muita gente acaba por perder 
com o isco da fama muita arte e saber.
Seríamos bem melhores, por certo, 
se não quiséssemos ter sempre por perto 
tanta cangalhada,
para nada.
Esse zelo de ter e de manter
traz-nos rugas e faz-nos ver
o nosso esfriar e envelhecer. 
O quarto não existe para ficar 
tal como sempre foi, sem se alterar. 

Robert Walser
em
Estou só e fora do mundo 
Tradução de João Barrento
Edição Sr Teste

quinta-feira, 6 de março de 2025

quarta-feira, 5 de março de 2025

Frau Anjo olhando uma aranha

 


«Frau Anjo olhando uma aranha»

óleo sobre papel tamanho A2

2025 ZMB

Protege-te

Cockaigne is dust for the whities on the moon

Work is dust for the blacks on doom

Love is dust for the bollocks and the wound

Protect yourself


«Protege-te»
óleo sobre papel tamanho A2
2025 ZMB



segunda-feira, 3 de março de 2025

U.S.S.A.

Aqui há uns anos já coom o Trump de volta. os Butthole Surfers diziam que eram tempos de voltar a gravar um disco. 
Não chegou a haver novo disco de originais
mas temos de admitir que eles foram proféticos:

USSR (Putin) + USA (Trump) = USSA

domingo, 2 de março de 2025

Tuíte cinematográfico

 Putin é o ladrão de terras e crianças

Trump faz de xerife e magnata

Zelensky é o índio

Eu sou pelos índios

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Notícias na rádio

 


The news on the radio, edit of Radio Emergência Nacional from the forthcoming album IRABCDJOL 14 by ZMB

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

O marido foi enganado pelo patrão português em França

 

Sete da manhã. Daí a meia-hora termina o turno e passa as contas à dona Mari.

Entretanto, do quarto ao lado da recepção sai para o trabalho a dona Ana. Clemente pede-lhe desculpa pelo barulho.

-- Sim... foi por volta das duas e meia, o que aconteceu?

Clemente explica. Dona Ana diz: -- O diálogo eu não ouvi, ouvi só o estrondo da porta, foi aí que acordei, depois não dormi mais.

Clemente volta a pedir desculpa, diz que o hóspede indesejável forçou a entrada. Dona Ana diz que está com pressa para não perder o autocarro e sai.

Dona Mari chega, verifica as contas com Clemente e este sai do turno e dirige-se para a paragem do autocarro fumando um charro. Na pastelaria escreve a mensagem aos pais que não envia logo, come o habitual queque e bebe o habitual galão morno e vê outra Ana entrar na pastelaria.

Ana vem sem casaco. Clemente repara nisso. Pensa: «Olha, a Ana já não está a morar com o filho, também ele a pôs na rua, agora está sem casaco e está a chover, e se eu lhe pagasse a despesa aqui e agora?»

Mas Clemente vê que Ana paga logo com uma nota de cinco euros a meia-de-leite que pediu. Clemente sossega um pouco mas está preocupado. Ana vive na rua desde que a puseram fora de casa, ela antes entregava a sua pensão de viuvez como caução numa casa onde cuidava de um senhora diabética e em cadeira de rodas. Nunca Clemente percebeu como Ana parecia pagar para trabalhar em troca de um sofá para dormir. Depois, essa senhora e os filhos puseram-na a morar na rua porque, ao que parece uma mentira, a Ana deixou queimar com água escaldada os dedos dos pés da idosa diabética. Os diabéticos perdem a sensibilidade cutânea nos dedos inferiores.

«Agora, até o filho se desfez da mãe, miséria!», pensa Clemente saindo da pastelaria e esboçando um sorriso para Ana que está junto à porta de saída, olha para ele e não lhe responde, faz mesmo cara feia.

«Porque será que ela faz sempre trombas para mim? Deixá-la! Lá terá as suas razões.»

Pelo caminho, vem a pensar que a dona Ana do hotel não ficará muitos mais dias no Tijuana, ela hoje de manhã também lhe fez cara feia, até já se queixou à patroa do barulho na recepção à noite.

Clemente chega a casa, verifica se os pais estão a dormir, vai ao wc e deixa a camisa, deixa na cozinha o pão fresco para os pais e desce para o anexo junto ao quintal, onde ele dorme e tem os seus discos e livros. Fuma mais um charro e pensa em escrever esta história «eu devia escrevê-la senão esquecer-me-ei dela, é uma boa história, tem o seu quê de irreal, de inverosímil... mas não estou aflito nem sinto necessidade em escrevê-la já por não conseguir dormir a pensar nela, até acho que no final me saí bem e como me saí bem não tenho insónia hoje, afinal dói-me o corpo todo, tenho os joelhos em ferida, vou masé dormir, depois... um dia destes logo vejo se escrevo.

Clemente adormece. À uma e meia acorda e vai almoçar. Os pais não dizem nada. Pergunta à mãe se o pai lhe contou o sucedido e acaba a explicar tudo.

A mãe diz que vai usar água oxigenada nas nódoas da camisa. Clemente desconfia do resultado final e pensa em comprar outra camisa branca. A mãe pergunta-lhe como se sente e ele diz:

-- Sinto o corpo partido, estou como se tivesse jogado futebol na praceta depois de uma temporada sem pegar numa bola, tu sabes mãe que eu sou sedentário e também não vou ao ginásio, eu ontem em quatro ou cinco minutos fiz o esforço que o Rónaldo faria se falhasse o pontapé de bicicleta por não ter feito a pré-época, ele cairia no chão e partir-se-ia todo, quero dizer, não se assustem, não tenho ossos partidos, estou como quando fui de bicicleta a Ermesinde vender uns fanzines e voltei e fiquei sem fôlego e sem músculo nas pernas e tive de parar antes do fim da subida ainda longe do Pingo Doce.

-- Devias ir fazer um raio x, diz-lhe o pai.

-- Não, não é necessário. Se tivesse alguma coisa partida estaria aqui a gemer e nem a morfina me aguentaria, teria de ir a um hospital de urgência. Ainda assim, logo tenho de ir trabalhar.

Clemente diz isso e a mãe aponta-lhe uma laranja para sobremesa. A mãe está sempre preocupada com o filho. Se o filho comer, metade dos problemas da mãe cessam. Ele às vezes protesta de ser alvo de tanta protecção de uma mãe-galinha, diz:

-- Tanta gente a passar fome no mundo e tu aqui preocupada com eu comer a sobremesa!, olha, mais preocupante foi ter visto a Ana na pastelaria num dia de chuva e ela sem casaco, o filho pô-la fora de casa, foi?

-- Olha não sei, a última coisa que soube foi que ela fugiu do hospital para onde a levaram para a abrigar, parece que ela tinha sarna.

-- Mãe, ela não é doente mental, não tem de ir para um hospital, têm é de lhe arranjar um quarto. Por exemplo, lá no Tijuana, temos agora um casal com uma senhora grávida, o marido foi enganado pelo patrão português em França, este não lhe pagou, chegou o dia de pagar a renda e não havia dinheiro, o senhorio pô-los na rua, o patrão deu-lhe cem euros que nem para um bilhete de autocarro de regresso a Portugal dá, e eles, sei lá como, embarcaram os dois num autocarro em Galieni e desembarcaram na praça da igreja, dirigiram-se à igreja e pediram ajuda, a igreja tem estado a pagar-lhes a estadia no Tijuana. É isso que têm de fazer com a Ana, arranjar-lhe um quarto!

-- Tens razão, filho.

-- Bem, vou para baixo descansar.

Clemente desce para o anexo e pensa no bom que seria ficar hoje sem ir trabalhar. Amanhã de tarde tem consulta de psiquiatria e vai ser tudo a correr. Telefona ao patrão mas este diz-lhe que não pode ser.

Então, à noite, ao chegar ao hotel, a patroa diz-lhe:

-- Você quase que foi roubado ontem, eu hoje nos Correios deixei ficar lá o meu telemóvel e quem veio depois ficou com ele.

-- Peça para bloquear o número.

- Sim, já fiz, vou agora à loja pedir uma segunda via do cartão, Até amanhã, senhor Rogério.

-- Até amanhã, dona A.

 

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Uma bengala feita de fios de cobre torcidos

 

A troca de palavras com o pai ocorreu umas horas antes de Clemente sair novamente para o trabalho. Nesse dia, Clemente não tinha lá muita vontade de ir vergar a mola. Acordara às duas da tarde com o corpo dorido da noite de trabalho que tinha sido problemática. Almoçou com os pais, e pediu à mãe para lhe tentar lavar a camisa branca de serviço que tinha salpicos de sangue nos braços e no bolso. Ainda bem que ele tem uma camisa branca suplente. Tomou café e voltou para o seu quarto. Pensou em ligar ao patrão, ligou:

-- Sr. A, acordei agora, dói-me o corpo todo...

Ele adivinhando interrompe: -- Ó sr. Rogério, veja lá. faça um esforço.

--Sr. A, doem-me as costas, eu ontem na bulha bati com as costas no paralelo, tenho o joelho todo esfolado, tenho uma grande nódoa negra no braço... não me pode dar folga hoje à noite?

-- Sr. Rogério, veja lá, tome um Benuron, eu não tenho quem o substitua...

-- Não pode chamar a dona Fábia?

-- Não, porque ela amanhã vai fazer a folga da dona Estrela, vá lá, faça um esforço.

Clemente pensou: «Apesar de ter o corpo dorido, tenho a cabeça limpa, enfim... lá se foi a minha tentativa, que ninguém diga que não era justa...» e assegurou ao patrão que iria trabalhar. Ficou a pensar: «Ele chamou-me Rogério, ora isso significa que eu só sou clemente na minha imaginação, e esta ei?»

Então, de que se tratava afinal a situação? O que se passara com Clemente para ele, sempre tão cumpridor do seu dever, querer fazer gazeta? Cheiro enxofre mas não será perfume? Canal número 9 ou Luís Vitinho?

Bem, como ele escreveu numa mensagem por telemóvel ao pai logo às oito da manhã na padaria tomando o pequeno-almoço: «Tive uma bulha com um cliente indesejável esta noite. Tenho sangue na camisa. Pede à mãe se ela ma pode lavar. Eu estou bem. Vou dormir.»

Escreveu a mensagem na padaria mas só a enviou ao chegar a casa e depois de verificar que os pais estavam a dormir, para que eles não acordassem antes dele chegar a casa e ficassem alarmados ao ler a mensagem antes dele chegar. Foi à casa de banho, tirou a camisa e pôs no cesto da roupa suja. Saiu e desceu a escada para o anexo.

A coisa aconteceu deviam ser duas da manhã. Não estava a ter especial trabalho até aí. Tinha dois quartos livres que poderia alugar e estando tudo o mais feito e concluído igualmente o trabalho de secretaria, Clemente tinha-se posto a descansar. Às duas e pouco a campainha toca.

Era o Hélder, um cliente que já dera problemas. Clemente tinha ordens para não lhe alugar quarto.

Clemente disse: -- Estamos cheios.

-- Não acredito.

E forçou a entrada.

-- Estamos cheios.

-- Ora deixe-me ver a folha de serviço.

-- Estamos cheios, já lhe disse.

-- Sempre que eu venho aqui, você diz que estão cheios! Dê-me o livro de reclamações.

-- Já lhe disse que estamos cheios.

-- Quer que eu acorde toda a gente? Quer que eu o parta todo aqui?

-- Vou chamar a polícia.

Aqui, Clemente sai da porta de entrada e entra na sala da recepção onde está o telefone. Hélder vem atrás dele. Quando Clemente se aproxima do balcão onde está o telefone, Hélder que vinha atrás repara na mochila do Clemente ao lado do sofá de descanso e vê uma carteira lá dentro. Tira-a e sai a correr porta fora.

Clemente pousa o bocal do telefone e sai a correr atrás dele. Salta as escadas da entrada e acabam os dois no chão da rua, no meio da rua rebolam um em cima do outro.

Dez, vinte segundos depois está Clemente por baixo agarrando-se à camisola de Hélder para não o deixar fugir. Clemente está claramente derrotado mas firme. Puxa a camisola de Hélder e ameaçando: -- A minha carteira, a minha carteira?

-- Está ali. Diz o Hélder.

Clemente olha, situa a carteira no seu campo visual e quando a vê afrouxa as mãos, larga a camisola de Hélder, quer levantar-se e ir buscar a carteira. Aqu, Hélder é mais rápido e recupera a carteira e larga a correr. Clemente derrotado e desesperado grita para Hélder: -- A minha carteira, os meus documentos...

Aqui, Hélder ganha talvez consciência e pára no passeio, revista a carteira e não vendo dinheiro, devolve a carteira em mão a Clemente que entretanto tinha conseguido chegar perto dele. Clemente nada diz e volta para dentro do Tijuana.

Verifica que tem sangue na mão, apalpa o joelho, chupa o sangue da mão e deita-se no sofá a arfar, dói-lhe ao respirar. E adormece.

Às cinco e meia acorda, verifica a mão, vai lavá-la e a ferida mal cicatrizada começa a jorrar outra vez, é um pequeno arranhão, acaba a sujar de sangue o bolso da camisa onde guarda os cigarros. Fuma um cigarro coo se nada de anormal se tivesse passado mas no entanto pensa: «Se tivesse recebido ontem à noite como era para receber, teria sido roubado.»

Quando o patrão chega às seis e meia, Clemente conta tudo. Ele alarmado pergunta se ele já desinfectou a ferida e mostra-lhe o kit de primeiros-socorros, diz que a partir de hoje a porta de vidro vai estar sempre fechada para que Clemente possa controlar melhor quem chega, diz:

-- Ainda bem que você não teve medo...

-- Ó sr. A, eu tinha de ir atrás dele senão ele deitava a carteira num bueiro ou no lixo e depois eu iria ter de tirar novos documentos, era uma carga de trabalhos, fiz o que tinha a fazer. De qualquer modo, ele era vinte anos mais novo que eu, logo mais forte, se ele me quisesse bater ele tinha batido mas ele só queria dormir. Como eu lhe disse que desde a última vez em que foi necessário chamar a polícia para o tirar do quarto porque ele não tinha pago e se preparava para mais uma noite sem pagar: «desde essa noite que tenho ordens para não o deixar entrar», foi o que eu lhe disse, ele reagiu mal, quis-me roubar.

-- A droga... sabe, a droga faz destas coisas.

Eu não respondi mas não tinha nada a ver com droga ou álcool. Hélder estava perfeitamente sóbrio, foi mais aquele sentimento que eu próprio já tinha escrito como um desabafo: «às vezes, a gente rouba quem não aceita a nossa moeda.»

O patrão acaba por dizer antes de se ir embora: -- Olhe aqui esta bengala, é feita de fios de cobre torcidos.

Clemente olha e vê e mal pensa em usar aquilo para se defender.

Sete da manhã. Daí a meia-hora termina o turno e passa as contas à dona Mari.

 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Report

 

A troca de palavras com o pai ocorreu umas horas antes de Clemente sair novamente para o trabalho. Nesse dia, Clemente não tinha lá muita vontade de ir vergar a mola. Acordara às duas da tarde com o corpo dorido da noite de trabalho que tinha sido problemática. Almoçou com os pais, e pediu à mãe para lhe tentar lavar a camisa branca de serviço que tinha salpicos de sangue nos braços e no bolso. Ainda bem que ele tem uma camisa branca suplente. Tomou café e voltou para o seu quarto. Pensou em ligar ao patrão, ligou:

-- Sr. A, acordei agora, dói-me o corpo todo...

Ele adivinhando interrompe: -- Ó sr. Rogério, veja lá. faça um esforço.

--Sr. A, doem-me as costas, eu ontem na bulha bati com as costas no paralelo, tenho o joelho todo esfolado, tenho uma grande nódoa negra no braço... não me pode dar folga hoje à noite?

-- Sr. Rogério, veja lá, tome um Benuron, eu não tenho quem o substitua...

-- Não pode chamar a dona Fábia?

-- Não, porque ela amanhã vai fazer a folga da dona Estrela, vá lá, faça um esforço.

Clemente pensou: «Apesar de ter o corpo dorido, tenho a cabeça limpa, enfim... lá se foi a minha tentativa, que ninguém diga que não era justa...» e assegurou ao patrão que iria trabalhar. Ficou a pensar: «Ele chamou-me Rogério, ora isso significa que eu só sou clemente na minha imaginação, e esta ei?»

Então, de que se tratava afinal a situação? O que se passara com Clemente para ele, sempre tão cumpridor do seu dever, querer fazer gazeta? Cheiro enxofre mas não será perfume? Canal número 9 ou Luís Vitinho?

Bem, como ele escreveu numa mensagem por telemóvel ao pai logo às oito da manhã na padaria tomando o pequeno-almoço: «Tive uma bulha com um cliente indesejável esta noite. Tenho sangue na camisa. Pede à mãe se ela ma pode lavar. Eu estou bem. Vou dormir.»

Escreveu a mensagem na padaria mas só a enviou ao chegar a casa e depois de verificar que os pais estavam a dormir, para que eles não acordassem antes dele chegar a casa e ficassem alarmados ao ler a mensagem antes dele chegar. Foi à casa de banho, tirou a camisa e pôs no cesto da roupa suja. Saiu e desceu a escada para o anexo.

A coisa aconteceu deviam ser duas da manhã.



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Im losing my mind

 

Rogério gosta de se mitificar e inventar personagens e desdobrar a sua identidade, falar de si na terceira pessoa. Rogério acaba de decretar que neste texto ele se chama Clemente, o mafioso don Clemente.

Clemente anda feliz da vida. Nunca soube porquê mas ele parece ser um barómetro da sociedade, um reflexo, mesmo uma balança: se anda deprimido o mundo entra em recessão económica e a pobreza abunda, o crime alastra, vêem-se lágrimas de aflição nas mães, as famílias são postas no olho da rua; se anda alegre a corrupção instala-se ao mais alto nível e toda a gente ganha o seu pedaço, cervejas e bombons são oferecidos e todas as amantes inauguram o apartamento, Clemente vê toda a gente rir da palhaçada.

Mas

isso mudou, Clemente continua feliz da vida desde que voltou como filho pródigo para Tintus Rius, mas a sua relação com a sociedade começou a desfasar e a entrar em contraciclo. Expliquemos Clemente.

Clemente mantém um emprego, fez a semana passada doze meses. Deixou de ter preocupações económicas pois não paga renda e a comida é-lhe oferecida pela arte da mãe ou mesmo do pai, pode mandar vir três e quatro discos através da net e pagar vinte euros de portes, ele não se importa, nem se importa de pagar dez euros aos ctt pelo serviço de apresentação do disco na alfândega nem o iva a 23% sobre o serviço de apresentação, serviço que é um eufemismo para quando os funcionários da alfândega escolhem a nossa encomenda para pagar no meio de tantas outras, não se importa, porque diz que o dinheiro é para se gastar. Por isso, é que digo que ele está em contraciclo, há quem fique sem-abrigo ou seja obrigado a ficar no sítio onde está, forçado e a contragosto porque não tem alternativa. Clemente está bem instalado em casa dos pais.

O pai está na cozinha a fazer uma sopa com batata vermelha, corgete, alho francês, nabo, chuchu, cenoura e feijão, uma sopa tão boa que equivale a duas pints num bar irlandês. O pai vira-se para o filho e diz:

-- Clemente, fui há bocado à garagem como me viste tu do anexo porque deixas a cortina aberta e não pude deixar de ouvir aquele barulho... Clemente, desculpa lá, mas aquilo não é música!

Clemente ri-se e responde: -- Pai, a música não é só cantada. Também há o que se chama de música instrumental.

-- Ninguém me convence, aquilo é ruído, é uns trum trum pp tinoni tinoni, aquilo dá cabo da cabeça!

Clemente ri-se e diz filial: -- E depois, dentro da música instrumental temos de ver os instrumentos: é uma guitarra é um piano, ora há outros instrumentos além de uma guitarra e de um piano.

-- Não sei porque compras tantos discos, é para dares connosco em maluco.

Clemente tem a resposta na ponta da língua:

-- Ó pai, ainda ontem estive a ouvir um disco com poesia para meninos de poetas portugueses, poemas ditos pelo Mário Viegas e por uma senhora, a Manuela de Freitas que parece que é a esposa do José Mário Branco, custou seis euros vê lá, e é assim: já me ouviste a ouvir fado também.

-- É discos é livros...

-- Eheh, agora, estou à espera de livros que vêm de Lisboa amanhã ou depois, pensa lá, eu tenho de dissipar algum dinheiro, não posso poupá-lo todo, então vê lá... depositando uma média de cinquenta euros por semana mais o dinheiro da reforma no qual não toco, imagina o que eu não poupo, imagina se alguém investiga, ainda virão a dizer que eu ando a vender droga...

-- Como se fosse crime trabalhar, diz o pai.

Ora, Clemente não vende droga e desde que voltou de Timbuktu nunca mais traficou tecno, comprou aliás duas cópias repetidas do tecno do Green Velvet onde este diz que está a perder a cabeça e a dizer à namorada que não havia rosas na florista e por isso tingiu com o seu próprio sangue as camélias que comprou em substituição na Conceição Florista para lhe oferecer, como é óbvio ele está a perder a cabeça porque a namorada não aceitou as camélias, e se Clemente está em risco de se tornar milionário não é porque transaccionou camelos na candonga, é porque, tirando os cinquenta euros que dá à mãe todos os meses, ele só gasta dinheiro em café, faustosos pequenos-almoços, tabaco, mortalhas e ganza. E acumulando a reforma com o salário semanal do seu trabalho, gasta-o nos seus luxos: livros e discos. Clemente encarna perfeitamente a ovelha personagem da frase Trabalha Compra Consome Morre que se torna paranóica quando diz: «imagina pai se investigam, há por aí cada invejoso.»

Pelo menos, Clemente lê metade dos livros que compra e não faz mais mal nenhum nem a uma mosca nem mesmo à abelha rainha que acaba de sobrevoar o interior do anexo neste momento e ciranda por aqui à volta das minhas orelhas enquanto conto a história do Rogério fazendo-se passar pelo don Clemente.

A troca de palavras com o pai ocorreu umas horas antes de Clemente sair para o trabalho. Nesse dia, Clemente não tinha lá muita vontade de ir vergar a mola. Acordara às duas da tarde com o corpo dorido da noite de trabalho que tinha sido problemática. Almoçou com os pais, e pediu à mãe para lhe tentar lavar a camisa branca de serviço que tinha salpicos de sangue nos braços e no bolso. Tomou café e voltou para o seu quarto.

 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Folga na 6f

 --  Eu só vou poder ir aí sexta-feira porque vou ter uma folga

-- Vais ter folga na 6f? Que bom!

-- Si, eu ensinei dona A fazer higiene na mãe dela para ela me dar uma folga, ela faz mal mais faz

-- És a maior gata! Eheheh ensinaste a patroa a trabalhar

-- kkk

    Tem que ser

     Tive quase para puxar orelha dela, mas lembrei que ela é minha patroa e ela vira para mim e diz, tem calma Shivana

-- kkkkk

-- Depois na cozinha ela perguntou se eu ia mesmo puxar a orelha dela, acabámos a rir as duas



Anónim@s do século xxiii

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Não posso esperar que aceitem falar comigo

Escrever fez-me perder amigos. Tenho 4 livros escritos que ainda não foram oficialmente editados em papel por uma editora mas que circulam na net, há vários anos. Há leitores que gostam de ler coisas disruptivas mas que desgostam do escritor. A obra é boa, o autor é mau. São os chamados guilty pleasures. Cuidado com estes leitores. Podem dar-te um tiro. Ou fazer uma denúncia anónima.
Outra maneira de perder amigos é falar sobre elas, olha o Capote que ia buscar a sua inspiração à coscuvilhice das amigas e da sociedade. 
Depois,  quando misturas as tuas perspectivas de um evento fora do anormal em que participaste juntamente com factos que te contaram, quando inventas um eu e um outro em relação a factos distorcidos de modo a criar ficções literárias e uma literatura em que as pessoas se reconhecem ao ponto de dizerem És um mentiroso Isto não aconteceu assim, só podes perder amigos. 
Ninguém gosta de se ver mal no retrato pintado. Ninguém gosta sequer de ser retratado e o pintor ou o que pinta escrevendo às vezes não sabe mais, há nele às vezes apenas o desejo de fazer.
O problema é como fazer.
Numa discussão há quem tenha razão no argumento mas que perde a razão pelo modo como exprime essa razão, e nenhum amigo aceita que tu escrevas essas razões e esses modos e essas discussões. Ninguém gosta de ver público o que era privado. Terem passado anos a chatear-te com as suas razões e projectos mas basta um Cala-te Não me Chateies dito num safanão de um insulto que seja impossível de ignorar por ter ficado escrito na pedra do livro para que o escritor perca logo a razão e seja considerado irracional.
E um louco que escreve é  um perigo. É logo silenciosamente bloqueado ou apagado. 
Porque conversar com um louco é correr o perigo de ser contagiado, e o louco pode vir contar tudo mais tarde.
Acabamos todos sozinhos. Não posso esperar que essas pessoas voltem a falar comigo. 
Paciência e caldos de galinha e um cigarrinho para enganar o vício é o dia a dia.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Tuíte Europeu

 Crescemos a odiar o Estaline por ter morto milhões à fome e os ter deportado para a Sibéria.

E hoje, o farol da democracia quer deportar e recorrendo à força obrigar países terceiros a receber e a construir beautifull houses para dois milhões nelas morarem de modo a que Gaza livre de autóctones possa ver nascer hóteis e edifícios de escritórios com o melhor sol do Mediterrâneo para turistas.
Entre a ditadura de Trump e a ditadura de Putin, que vamos nós escolher? Vamos boicotar a América do mesmo modo que boicotamos a Rússia?
São perguntas de um europeu

domingo, 9 de fevereiro de 2025

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Toda a verdade

 Com o pleno funcionamento dos mecanismos da alternância de poder, a jovem democracia pluralista portuguesa dá provas de se achar firmemente consolidada. Os riscos de derrapagem são agora remotos. Edições Mortas acham que é chegada a altura de os portugueses se confrontarem com algumas das mais cruas e extremas realidades do seu recente passado totalitário. Os documentos que aqui publicamos são devastadores, pertencem a uma história das mais sombrias, do período mais negro das relações luso-estadounidenses. E todavia, são também testemunho da singeleza e do tocante desamparo de dois destinos famosos, face ao poder dessa louca e imoderada esperança que se chama, porque não dizê-lo, amor.

Estas cartas foram recentemente desclassificadas do arquivo "top AA" da CIA, o que nos permitiu, através de um agente infiltrado em "cunha", microfilmá-las e introduzi-las finalmente em Portugal. A história em si, porém, embora de acesso reservado, é há muito conhecida nos seus traços gerais entre sobreviventes do círculo mais íntimo de colaboradores do ditador, altas figuras do Estado e alguns historiadores. Esbarrou até aqui, é certo, na falta de suporte documental (presume-se que a PIDE destruiu toda esta documentação na madrugada do dia 25 de Abril de 1974) e, sobretudo, na sua injustifcável mas persistente aura de tabu nacional.

(...)

Sucede que, paralelamente a estes eventos políticos, e à própria actividade dos dois aparatos de espionagem, desenvolvia-se nos dois protagonistas epistolares o lento processo de amadurecimento de uma poderosa afinidade electiva. Salazar enternece-se profundamente pela feminilidade grácil e inocente da actriz, a ponto de esquecer perigosamente Angola e as Lajes. Marylin sonha com o abraço protector daquele homem severo e asceta.

(...)

À ironia perversa da História juntou-se pois, neste complexo episódio, a sempre imprevisível natureza humana, com a sua tocante fragilidade. E é por isso que estes documentos, pertencendo por direito próprio aos anais da espionagem e da política internacional do século XX, são simultaneamente uma obra maior da literatura amorosa, onde ombreia facilmente com Catulo, Shakespear ou as cartas de Mariana Alcoforado. Por estas razões, e só por elas, nos abalançamos a esta edição que sabemos sujeita a variados e perigosos equívocos. Do sensacionalismo malsão dos media ao voyeurismo doentio das massas, vários serão os chacais à espreita de semelhante presa. Quando toda a poeira assentar, porém, estamos convictos, restará um documento humano ímpar e, também, a obra literária de fino recorte e elevada valia que (seja-nos permitida a fraqueza) justamente nos orgulhará por a termos revelado em primeira mão.

Porto, 2 de Fevereiro de 1996


página 7-9 de «Correspondênica amorosa entre Salazar e Marilyn Monroe»

Copyright A. da Silva O.

Edição Edições Mortas


quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Comigo também ganhou o grande irmão

 

Há duas horas que me estão a chegar frases ao cérebro e não é qualquer efeito do thc porque evoluo a passos largos para deixar de ser um fumador, até a nem sentir vontade ah heresia de Jah, estou farto de aturar a Hermínia e as irmãs e até os primos, frases que chegam e urgem comigo para que eu pegue na caneta e as escrevinhe, frases repetidas em eternas variações e permutações onde se não sabe onde começam nem onde terminam, frases refinadas cada vez mais perto da verdade de hoje, frases ditas hoje à minha mãe: «Mãe, um verdadeiro louco não tem consciência nem personalidade única, vagueia entre amigos eus no seu diálogo com o eu do seu pensamento, não compreende o que faz nem o que fez, flutua, é indiferente a qualquer conclusão de causa ou consequência. Mas eu não mãe, eu lembro-me de tudo embora não me lembre de todas as palavras ditas estes anos todos, mas eu tenho consciência»

A minha mãe pede para eu lhe tirar o café porque o meu pai está nervoso com as minhas palavras e por isso ausentou-se da cozinha onde comemos para a marquise, para que possa dizer que não ouviu nem nada se passou..

-- Sim, filho, diz a minha mãe, lembras-te que cuspiste na tua irmã?

-- Sim, e outras coisas mais.

-- O teu pai está nervoso por causa de uma coisa que tu disseste há dias...

-- O quê?, pergunto.

O meu pai, que afinal ouviu tudo, volta da marquise e diz: -- Tu disseste que eras doente porque nós somos doentes! Eu nunca acusei os meus pais de ser doente.

-- Ó pai, não me expliquei bem, deixa-me explicar...

-- Não, não quero ouvir.

O meu pai sai novamente da cozinha e volta para a marquise, eu continuo a falar para a minha mãe mas de modo a ele ouvir.

-- O pai percebeu mal, o que eu quis dizer é que sou um fruto da vossa árvore, do vosso trabalho, do vosso amor, sou partes de ti mãe e partes do pai, há coisas e hábitos que eu tenho porque aprendi convosco, por exemplo, tu mãe, olha... a história do Manco... eu fui enganado, é algo que aprendi contigo, desculpa, eu e tu nós somos um pouco lorpas, queremos fazer o bem, ajudar o próximo e depois é o que se vê, neste aspecto sou como tu. O pai pensa que eu o culpo de eu ser doente mas não é verdade, o que eu tenho é partes de ti e partes dele. Dele tenho, por exemplo, o exaltar-me quando me emociono num argumento, levanto a voz como o pai, é um hábito que eu ganhei com ele. Mas também tento ser rigoroso no trabalho, ser profissional, fazer bem as coisas, eu gosto de trabalhar e isso eu ganhei com ele. Portanto, nenhum ser humano é perfeito, temos todos coisas boas e coisas más, eu sou um fruto vosso, foram vocês que me educaram, que me deram de comer e me vestiram, puseram-me na escola, essas coisas todas não as aprendi com os vizinhos ou as más companhias como vocês lhes chamam. O pai pensa que eu estou a culpá-lo... eu próprio, às vezes, sinto-me culpado de coisas que nunca fiz, o pai é igual.

Vem tudo isto a propósito de frase da minha mãe ao almoço: «o relatório foi assinado por uma pediatra», uma frase que lhe saiu inocente e espontânea e que pôs o meu pai nervoso. Para o meu pai, certos temas são tabu e se forem abordados ele fica nervoso e quase doente. Ainda agora, antes de vir ao café escrever, deixei o meu pai deitado ao comprido no sofá da sala, de olhos fechados e de mãos entre as pernas, tal como eu em posição fetal quando me dizem palavras fortes. Perguntei-lhe se era a dor de cabeça de ontem e ele evadiu-se à pergunta, acabei por lhe dizer:

-- Pai, não queres falar não fales, deixa-me apenas voltar a dizer «eu já não te culpo de nada, já passou, eu gosto de ti, eu aprendi a gostar de ti, a respeitar ou a aceitar enfim aqueles pormenores dos quais não gosto em ti, já não quero guerra contigo, já não quero fazer-te a guerra que tu nunca quiseste fazer comigo. Uma vez, o Tintol disse que andou à porrada com o pai, não sei quem ganhou mas hoje em dia convidam-se um ao outro para irem almoçar os dois ao restaurante, ele paga ao pai o almoço, às vezes é o pai que paga. Mas nós somos diferentes. Tu nunca quiseste a minha guerra, e então eu tive que a inventar, e guerrear sozinho contra o moinho de vento que só existiu na minha imaginação, tenta imaginar o que as pás das turbinas eólicas fazem aos pássaros e o zunido que ensandece qualquer ser vivo. Mas há mais de dez anos que decidi parar com tudo isto. Foi no hospital quando estavas no hospital com a cervical em risco devido à tua queda na aldeia. foi aí que vi que gostavas de mim. Tu, ali em risco de ficares paralítico, com a cabeça imobilizada e balanceada com pesos para não se mexer, e ainda assim, tu a fazeres esforço para me falares e tentares dar conselhos. Tu talvez a pensares que seriam os últimos conselhos. Foi aí que eu voltei a começar a gostar de ti, tenho desde então tentado ser teu amigo, aos poucos. Nós somos dois galos mas eu não quero estar acima de ti. Aliás, eu sou um garnizé que é mau e dá bicadas no galo e tu és o galo, eu só quero estar num poleiro ao lado do teu a falar contigo, a ser teu amigo.

Aqui, emocionei-me e não disse mais nada, fechei a porta e vim ao café. Ocorreu-me a seguinte ideia: é claro que ele lá no fundo gostaria de poder culpar os pais, só não o faz porque a sua moral não o permite libertar-se desse estigma, ele reprime-se, ele desculpou os pais dando-me a mesma educação que eles lhe deram. Mas que me interessa isso? Que me interessa que o meu pai tenha culpa de quem eu sou?

Para que se perceba do que estou a falar, temos de recuar uma vez mais à hora de almoço quando se falou do Rendeiro à mesa. O banqueiro. Eu disse: -- O Rendeiro foi-se queixar de que é cardíaco e o relatório foi passado por um psiquiatra!

A minha mãe disse: -- E em 2012.

-- O relatório é de 2012?

-- Sim. Olha... quando tu tiveste o problema foi preciso um relatório e quem o passou foi uma pediatra, disse a minha mãe.

-- Ah! Certo. Uma pediatra a quem vocês foram soprar com dinheiro e que nunca me viu. Foi uma ilegalidade! Só um psiquiatra podia internar-me e, afinal, foi com o papel de uma pediatra que me internaram, é mais uma prova de que fui enganado.

A minha mãe come, eu como, o meu pai come mas fica nervoso. Eu volto à carga: -- Olha mãe, mudou totalmente a minha vida e o meu futuro mas olha, foi há muito tempo, não adianta mais saber, vocês agiram preventivamente, não sabiam para mais, eu devia ter aceitado o convite naquela manhã de delírio, o convite do falecido sr Costa para ir ao café com ele, eu estava doente mas talvez não fosse doente, quem sabe se naquela manhã depois de não ter deixado dormir ninguém, de nem o sr Costa me acalmar, aquele dia mudou a minha vida para sempre, quem sabe se não me tivessem internado, se me deixassem ser vencido pelo sono e dormir, quem sabe?, olha, a minha vida mudou, o Rogério inocente morreu, deixou de ser, aprendeu a dureza de um sistema que me tratou contra a esquizofrenia que disseram que eu tinha e tenho, viveu na miséria existencial durante oito anos e quatro internamentos, e irónico que seja, foi o meu amor católico pela Sanea neurótica que fez com que eu me salvasse. E depois perdi-a porque ninguém quer namorar alguém que se comporta como um louco com consciência, perdi os amigos porque me tornei uma seca, perdi os empregos porque não conseguia pensar e ganhava o que o antigo médico de família chamou de gastrite nervosa, chegou a negar-me o p1 para uma endoscopia, comecei a ter medo de conduzir e vendi o supercinco ao fim de um ano e dez voltas com ele aos Coriscos, enfim... talvez hoje não precisasse de comprimidos, talvez nunca tivesse precisado deles e agora, estou dependente deles e se não os tomo pioro, descompenso mentalmente, porque o meu organismo se alterou e habituou ao comprimido, o comprimido é uma droga, a minha vida mudou, o Rogério que eu era transformou-se no Rogério que eu sou, vocês não souberam fazer de outro modo, mas talvez tenha sido tudo necessário, quem sabe também se eu não perderia tudo na mesma se não tivesse sido internado, casaria talvez, casa, carro, emprego, filhos, créditos para férias, quem sabe se não estaria hoje divorciado, sem emprego, a viver aqui em vossa casa de novo, longe dos filhos, dando uma pensão de alimentos à mãe deles, estaria mal na mesma. Aquele Rogério revoltado tinha de morrer. Hoje sinto-me bem, tenho uma vida melhor, ninguém depende de mim para subsistir, estou calmo, quero estar de bem com todos, com vocês, comigo também ganhou o grande irmão, só não fico colado a ver entretenimento na televisão. E depois, como diz o Paulino no lp Baiano e os Novos Caetanos, grande disco escrito no tempo da ditadura no Brasil: «A esperança não é a última a morrer, o último é o herói, o cabra que não teve tempo de correr.»

 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Tuíte Os conselhos da Hermínia

Cheguei ao café e sentei-me com a intenção de escrever qualquer coisa com o título «vinte e quatro horas na vida de um louco». A Hermínia, esta noite, esteve zangada, nem com beijinhos lá fui, não me deixou dormir, chorou toda a noite e de manhã quando fui ao pão e ao tabaco apanhei tal molha que ao sentir os pés encharcados lembrei-me no fundo que a Hermínia continuava repetindo o mantra «tu precisas de umas botas novas». Mas não sei bem como começar. Começo assim: Faz-te à vida, moço, deixa de fumar e com o dinheiro já compras umas botas.

Há duas horas que me estão a chegar frases ao cérebro e não é qualquer efeito do thc porque evoluo a passos largos para deixar de ser um fumador, até a nem sentir vontade ah heresia de Jah, estou farto de aturar a Hermínia e as irmãs e até os primos, frases que chegam e urgem comigo para que eu pegue na caneta e as escrevinhe, frases repetidas em eternas variações e permutações onde se não sabe onde começam nem onde terminam, frases refinadas cada vez mais perto da verdade de hoje, frases ditas hoje à minha mãe: «Mãe, um verdadeiro louco não tem consciência nem personalidade única, vagueia entre amigos eus no seu diálogo com o eu do seu pensamento, não compreende o que faz nem o que fez, flutua, é indiferente a qualquer conclusão de causa ou consequência. Mas eu não mãe, eu lembro-me de tudo embora não me lembre de todas as palavras ditas estes anos todos, mas eu tenho consciência»


quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

Baiano

O urubu tá com raiva do boi
E eu já sei que ele tem razão 
É que o urubu tá querendo comer
Mas o boi não quer morrer
Não tem alimentação 

O mosquito é engolido pelo sapo
E o sapo a cobra lhe devora
Mas o urubu não pode devorar o boi
Todo o dia chora
Todo o dia chora

In Baiano e os novos caetanos

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

An old bong discovered

 I was chilling out with an old bong in free california remembering the old days now gone when outside of my room I listened to what seemed to be an odd conversation lost in the translation.

The nightwatcher was delivering a speech to my old buddy Dimitri in the room next door. Dimitri actually has a cute italian girlfriend wandering with him here in Tijuana. So Roger was saying:

Listen, mr Dimitri, some nights ago I closed my eyes to the smell of pot coming from your room. I said to myself: he's doing nothing wrong but this is going to get me problems. That was some days ago, mr Dimitri. Now, since you noticed I noticed and did nothing, you became confident and now you're having pot parties with your mates on room 13! Try to understand... it is illegal to smoke here and no other place allows you to do that, that's why you returned to us. The fact is that there may be other guests that don't approve of your options and may complain, you can be expelled from here and I can also have problems on allowing you to do that. So, you must not again repeat, go smoke outside and take care.

Quit the bong?, I said. That´s what Roger is saying to Dimitri. Roger seems a nice guy. I wonder if he will grass to the management... his last words yesterday were funny though. He accused us of monopolizing the ashtrays eheheh but it seemed serious, and the other guests, what will they say? We must stop, Dimitri. Time became bad for us all. The world became dangerous. Dimitri, listen and shut up. We must leave and leave no trace.

Then Dimitri replies to Roger: it's cbd  it's legal, that's the reason I came here, you can buy it near the pool café, and away from the river you find shops everywhere.

Roger didn't seem to concur, he said: does it contain thc?

No.

So, why do you smoke it if it doesn't get you high?

I have adhd.

What's that?

I become hiperactive if I don't smoke.

I'm just saying the smell is the same, and there are here guests that when they enter here they may get confused with the smell and they may talk, understand?

Shall I call my lawyer?

What for?

I've been having problems on other places here.

And the guys on room 13, are they on cbd also?

I can not say, I only know of myself.

I'll talk with them and repeat what I've just told you. But... wait, Mr Dimitri, can you talk with them and explain?

I'll do that and thanks for your advice, ended Roger and he returned to the hotel reception. Then Dimitri knocks on my door, I open and he says:

For Jah's sake: We've been discovered and Roger is right, tell the lads to stop the play.

Yeah, I heard it all, this place is friendly but we have to control ourselves.

Just one thing he got it wrong, come here, I show you on my cell.

And then he shows me a cctv video file of inside his room, a guy is seen inside the room alone touching things.

This is my old landlord.

Is he robbing?

Worst than that! Look, he's looking at my girlfriend's underwear and now he's jerking off with her socks. Fuck! That's why we have moved here again, landlords here are creeps!

You go to Roger and tell him your buddies were not all honest with you but tell him we'll keep it outside here. We don't want problems.

That's what I'll do.


John Moore

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Café Central

 O bom de voltar para casa dos meus pais é passar a comer bem. A minha mãe nunca me deixou ficar mal. Neste primeiro mês parecia que estava na engorda, carradas e carradas de boa comida, exemplo: dourada com batata cozida e hortaliça. Uma dourada para mim e uma dourada para eles, ou seja, cada um come metade e eu como a unidade. Já reclamei. Não faz sentido comer o dobro deles: «Vocês devem pensar que antes eu passava fome.» Mas eles talvez saibam ou desconfiem que eu poupava na comida para comprar livros e ganza, indo para isso comer à caridade da Ordem do Terço.

Na Quarta-feira à noite, na minha folga, comemos uns rissóis que a ex-mulher do Zezinho e actual sócia, a Joana cozinhou. Uma dúzia de rissóis por três euros e cinquenta, com direito a factura-recibo, que não serve para nada. Ficaram aprovados. Mandei mensagem ao Zé a dizer que estavam bons. Ele respondeu à laia de empresário dizendo «Sempre às ordens.»

O Zé, há dias ligou-me a perguntar se tínhamos quarto para ele no hotel, eu disse-lhe «é mais caro do que tu podes pagar, não temos.» O Zé, há dias pelo face mandou-me a proposta: «se precisares de alguma coisa do supermercado, eu posso fazer as compras por ti e levar-tas a casa.» O Zé, empresário na procura do biscate, cobraria iva, sacos para trazer as compras, combustível para a deslocação das botas até ao meu domicílio e apresentar-me-ia a factura-recibo. Respondi: «Ó Zé, eu não sou velhinho, não preciso de nada, obrigado na mesma.»

Hoje, a minha mãe grelhou iscas de porco e eu estive a contar-lhe que esta madrugada sequei uma saia à ceguinha da cave. Tinha sido culpa minha. Ela chamara-me durante a noite quando começou a chover e a sua única saia estava na corda ao ar livre a molhar-se. Ela chamou-me, chamou, chamou e eu a dormir. Logo, mãe, não tive outro remédio senão secar-lhe a saia usando o ferro a vapor. Nós não podemos secar roupa dos hóspedes na máquina de secar e embora eu já o tenha feito, desta vez não o fiz porque não ia pôr a trabalhar a máquina só por uma peça de roupa. Falei ao chefe sobre secar a saia da ceguinha e ele não disse mal. A minha mãe disse que ia oferecer uma saia à ceguinha, mas eu disse «não dá, eu não sei o número dela e tem de ser a medida certa, não dá para trazer uma saia dela como modelo para casa para a costureira fazer uma por medida, porque ela só tem aquela.»

Hoje, fui ao Central gravar os ciganos junior a jogar jogos online no telemóvel. Modernices.

 

21-10-21, 19h52

Acabei de jantar frango com arroz. Tomei café.