Quanto mais tralha tiver,
mais pequeno ele há-de ser.
Será uma selva, um sudário
de quadros, mobiliário.
Sofá, cama, cadeira, armário, a variedade
estraga toda a sua simplicidade.
Um quarto cheio de coisas a mais
dá vontade de rir, como sabeis.
Jarrinhas, estatuetas, búzios ocos,
parece que cochicham uns cons os outros.
Toalhas, franjas e tanta almofada
parecem dizer que não têm nada
a ver com uma ideia de presente.
Velharias de imitação, qualquer um sente
que elas nos entram pelos dias; a sala fica
mais ampla, clara, sensata, rica,
quando não acumulamos hora a hora
sobre o seu rosto de outrora,
outras camadas de ornatos preciosos
ainda mais opíparos, sumptuosos.
É o quarto que ao próprio quarto oferece
qualidade bastante, o brilho que merece.
E muita gente acaba por perder
com o isco da fama muita arte e saber.
Seríamos bem melhores, por certo,
se não quiséssemos ter sempre por perto
tanta cangalhada,
para nada.
Esse zelo de ter e de manter
traz-nos rugas e faz-nos ver
o nosso esfriar e envelhecer.
O quarto não existe para ficar
tal como sempre foi, sem se alterar.
Robert Walser
em
Estou só e fora do mundo
Tradução de João Barrento
Edição Sr Teste
Sem comentários:
Enviar um comentário