sexta-feira, 7 de março de 2025

Esse zelo de ter e de manter traz-nos rugas

O quarto mobilado 

Quanto mais tralha tiver, 
mais pequeno ele há-de ser.
Será uma selva, um sudário
de quadros, mobiliário. 
Sofá, cama, cadeira, armário, a variedade 
estraga toda a sua simplicidade. 
Um quarto cheio de coisas a mais 
dá vontade de rir, como sabeis.
Jarrinhas, estatuetas, búzios ocos,
parece que cochicham uns cons os outros. 
Toalhas, franjas e tanta almofada 
parecem dizer que não têm nada 
a ver com uma ideia de presente.
Velharias de imitação, qualquer um sente 
que elas nos entram pelos dias; a sala fica
mais ampla, clara, sensata, rica, 
quando não acumulamos hora a hora 
sobre o seu rosto de outrora, 
outras camadas de ornatos preciosos 
ainda mais opíparos, sumptuosos. 
É o quarto que ao próprio quarto oferece 
qualidade bastante, o brilho que merece. 
E muita gente acaba por perder 
com o isco da fama muita arte e saber.
Seríamos bem melhores, por certo, 
se não quiséssemos ter sempre por perto 
tanta cangalhada,
para nada.
Esse zelo de ter e de manter
traz-nos rugas e faz-nos ver
o nosso esfriar e envelhecer. 
O quarto não existe para ficar 
tal como sempre foi, sem se alterar. 

Robert Walser
em
Estou só e fora do mundo 
Tradução de João Barrento
Edição Sr Teste

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