domingo, 14 de abril de 2019

Sara, a rainha cantando coisas bunitas

(Não diga a ninguém)
(Eu não digo a ninguém) Diz-me coisas bunitas Diz-me coisas bunitas Sussurradas ao ouvido com sabor Diz-me Que a minha carapinha te faz lembrar Uma coroa de rainha Diz-me ainda Que nunca viste Um sorriso igual ao meu, só meu Quero ouvir Tanta coisa que só podes falar baixinho Por isso fala comigo Diz-me coisas bunitas Diz-me coisas bunitas Sussurradas ao ouvido com sabor Chego mais perto, dá-me amor É o caminho mais certo Inspira-te, perde a vergonha Diz-me que queres casar comigo E então deixa-te de coisas Perde dessa mania De fingir que nada sentes Diz-me coisas bunitas Diz-me coisas bunitas Sussurradas ao ouvido com sabor Chego mais perto, dá-me amor É o caminho mais certo (Arco-íres, lua-cheia, paz) (Riso de bebê) Entra por baixo da pele Acende a luz no meu peito Embala-me o coração Encontra-me a pulsação Diz-me coisas bunitas Diz-me coisas bunitas Sussurradas ao ouvido com sabor Chego mais perto, dá-me amor É o caminho mais certo Diz-me coisas bunitas Diz-me coisas bunitas Coisas bunitas Diz-me coisas docinhas Coisas bunitas Diz-me coisas bunitas Coisas bunitas Diz-me coisas docinhas Coisas bunitas



https://www.discogs.com/Sara-Tavares-Fitxadu/release/11508276

sábado, 6 de abril de 2019

Mixtape for a kiss

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(Madredeus no youtube)
-- Geralmente eu penso que falo muito mas não faço nada... mas eu já tenho a minha cruz...
(’’a barca da fantasia / o meu sonho acaba tarde / deixa a alma de vigia’’)
-- ... eu não quero cometer os mesmos erros...
(’’acordar é que eu não queria’’)
-- ... estou tentando ser diferente...
-- Vá, escolhe uma música.
-- Eu sou meia míope, eu sem óculos não enxergo!
-- Olha, esta também é fixe!
-- Num gosto.
-- Dá uma oportunidade!
-- Não simpatizei.
-- Ó...
-- Pá, quando gosto gosto, quando não gosto não sou obrigada a...
-- Escolhe aí uma música!
-- Ã... aquela música... a...
-- Amor Electro, a máquina, a nossa música?
-- Isso!
-- Ei já não ouço isto há muito tempo.
-- Quero essa música no meu telemóvel.
-- Tá bem.
(’’não ter o que fazer/ tudo a acontecer’’)
-- Já viste como eu sou uma mulher sortuda?
-- É! És muito prendada!
-- Ihiihihii... na verdade eu sou uma mulher sortuda, toda a gente gosta de mim...
-- Pois...
-- Bom, pelo menos a maior parte dos homens... eu acho que sim...
-- Sim, mas não só, as mulheres também, nem todas te querem foder, por exemplo a Vanda do bar... ela gosta de ti, ela compreende a tua natureza, ela gosta de pessoas como tu... vê-se que é uma pessoa fixe, que encara...
-- Não sei porquê, mas eu acho que tu estás interessado na menina...
-- A Vanda é muito bonita... é bonita, achei interessante, é um regalo para os olhos.
-- Estás interessado nela...
-- Não estou nada, é bonita, mas não vai acontecer nada, não vou fazer nada, não vou...
-- Mas estás interessado...
-- É bonita, é interessante, gostei muito dela hoje, do vestido, das tatuagens...
-- Anda lá, diz a verdade para mim!
-- Não estou nada interessado não... mas gostei.
-- Anda lá, somos amigos pô... quer dizer... eu posso falar das minhas merdas... e tu não falas das tuas porquê?
-- Não... é... é uma mulher e não uma menina, é uma mulher de vinte e cinco anos... deve ser a idade que ela deve ter... tava muito bem vestida... muito bem apresentada para uma empregada de bar... o corpo é fabuloso... as tatuagens são bonitas...
-- humhumm...
-- É atraente... mas agora... não me vou meter com ela, ela está a trabalhar, não vou estragar o trabalho dela... só por causa dum... fetiche... ela é bonita de ver, é fixe para toda a gente, enche o bar, ganha clientes...
-- Ela é carismática...
-- É, ela é um pouco como tu, ela atrai as pessoas aos bares, tal como tu só por estares num bar as pessoas acabam por entrar no bar... ela é igual...
-- Ã, eu fiz quem entrar no bar?
-- Tou a dizer... a tua presença, a tua cara é tão carismática... as pessoas sentem curiosidade...
-- Ah, estás falando do Araújo!
-- Qual Araújo?
-- O negro...
-- Ah aquele... tu disseste que o conhecias do...
-- Sim, mas ele estava ali acompanhado de muitas mulheres...
-- Mas ele quando veio falar contigo, ele estava sózinho...
-- Mas naquele dia que a gente foi lá à esplanada, ele estava com muitas mulheres...
-- Mas estás a falar de quem? Aquele que falou contigo agora neste bar?
-- Sim, o negro.
-- Quando é que eu o vi antes?
-- Eu vi ele quando nós fomos lá na primeira vez...
-- Ah, na Terça-Feira ele estava lá? Não reparei...
-- Eu fui contigo fumar um cigarro, ele olhou para mim, eu olhei, ele sorriu e eu fiz assim...
-- Ã... Não reparei, só reparei hoje pela primeira vez, não tinha reparado nele... olha tens o isqueiro?
-- Eu não, não tenho o teu isqueiro. Ou eu tenho? Deixa eu ver.
-- Ora vê.
-- Não, não tenho, tenho o meu, é... se quiser me revistar?
-- Não...
-- Ah, está aí no teu rabo, estavas sentado nele, olha... já ia levar por tabela!
-- Não... eu estava a perguntar porque assim ajudaste a encontrá-lo.
-- Eu sou tudo menos ladrona! Vê lá, presta atenção, já estás farto de me conhecer.
-- Claro, não estou a dizer nada disso, não entres em filmes, não estou a duvidar de ti, perguntei porque podias tê-lo visto, não é? Para ajudar a encontrar... E agora qual é que queres? Olha, esta é fixe!
-- Não quero, não sei quem é.
-- Pronto, esta agora é fixe!
-- Num gosto, não gosto dessa música!
(The Gift: ’’Talvez por eu não saber falar de cor/ Imaginei’’)
-- Ah gosto!
-- É, é bonita...
-- É, eu só não gosto do princípio da música...
-- Mas tens que dar uma oportunidade...
-- É mesmo uma voz do caralho...
(’’O teu virar de costas/ Um último adeus’’)
-- Sabes que ela é casada com um cantor de heavy-metal? É assim uma junção de mundos diferentes...
-- É mas cada um vive à... ele tem a ideia dele que é cantar o que gosta, aquilo em que acredita... e ela também...
-- Sim, e às vezes colaboram os dois, cantam juntos...
-- E?
-- É fixe, é bonito até.
-- Quer dizer que?
-- Gostam um do outro, gostam de fazer coisas em conjunto, isso é bom...
-- É vero!
-- Olha, esta tem o Rui Veloso, gosta desta?
(Perfume: ’’câmera lenta/ oito ou oitenta)
-- Veríssimo, é o meu amigo, já estive com ele pessoalmente, eu sou uma pobre mas sou uma pobre vip foodasse ihihih
-- Sim já me tinhas falado...
(’’o livro que não li, o filme que não vi’’)
-- Dá-me um beijinho...
-- Tu gosta muito de mim, não gosta?
-- Um bocadinho! Dá-me um beijinho...
-- Au au, olha que eu mordo! Bom, já dei!
-- Só mais um...
-- Never!
-- Jamais?
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anonim@s do século XXIII

terça-feira, 2 de abril de 2019

Diz que não e dar-te-ei um dólar

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Melindrava-o a minha independência, aquilo a que chamava a minha indiferença. Se me via obrigado a pedir-lhe umas massas, ficava encantado, pois isso proporcionava-lhe ensejo para me pregar um sermão acerca da amizade: «Então também precisas de ter dinheiro?», perguntava, com um grande sorriso de satisfação a alastrar-lhe pela cara toda. «Então o poeta também tem de comer? Bem, bem... É uma sorte poderes recorreres a mim, Henry, meu rapaz, pois eu sou brando contigo, conheço-te, meu filho da mãe sem coração. De quanto precisas? Não tenho muito, mas reparto o que tenho contigo. É justo, não é? Ou achas, meu sacana, que te devo dar tudo quanto tenho e ir pedir emprestado a outro para mim? Suponho que te está a apetecer uma boa refeição, hem? Presunto com ovos não seria suficientemente bom, pois não? E se calhar também gostavas que te levasse de automóvel ao restaurante, hem? Olha, meu menino, levanta-te um bocadinho dessa cadeira, para te meter uma almofada debaixo do cu. Sim, senhor, estás falido! Jesus, falido está tu sempre. Não me lembro de te ter visto, nunca, com dinheiro na algibeira. Ouve cá, alguma vez sentes vergonha de ti mesmo? Falas desses vadios com quem ando... Pois fica sabendo que esses vadios nunca me vêm pedinchar dinheiro como tu. Têm mais orgulho do que tu, prefiririam roubá-lo a vir pedinchar-mo. Mas tu, merda, tu estás cheio de ideias bombásticas, tu queres modificar o mundo e toda essa conversa... não queres trabalhar por dinheiro, oh, não, isso não é para ti! Mas esperas que alguém to dê numa bandeja de prata. Felizmento há tipos como eu, que te compreendem. Precisas de te compreender a ti mesmo, Henry. Andas a sonhar. Toda a gente precisa de comer, ou não sabias? A maioria das pessoas está disposta a trabalhar para se sustentar, não fica na cama todo o dia como tu, que de repente enfias as calças e corres a pedir auxílio ao primeiro amigo que encontras. Supõe que não me encontravas. Que farias? Não respondas... sei o que vais dizer. Mas, escuta, não podes continuar toda a vida assim. Claro que falas bem e é um prazer ouvir-te. És o único tipo que conheço com quem gosto realmente de falar. Mas aonde te conduzirá isso? Um destes dias filam-te por vadiagem. Sabes que não passas de um vadio, não sabes? Nem sequer chegas aos calcanhares dos outros vadios contra os quais pregas. Onde estás quando eu estou em apuros? Ninguém te encontra. Não respondes às minhas cartas, não atendes os telefones e às vezes até te escondes quando te vou visitar. Escuta, eu sei... não precisas de me explicar. Sei que não estás interessado em ouvir as minhas histórias a toda a hora. Mas, merda, às vezes preciso realmente de falar contigo. Tu bem te importas, porém. Desde que estejas protegido da chuva e a meter outra refeição no papo, sentes-te feliz. Não pensas nos teus amigos, a não ser quando estás desesperado, isso não é maneira de um gajo proceder, pois não? Diz que não e dar-te-ei um dólar. Chiça, Henry, és o único verdadeiro amigo que tenho, mas também és um grandessíssimo interesseiro. És um filho da puta de um não-presta-para-nada nato. Preferes morrer de fome a deitar a mão a qualquer coisa de útil...»
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, páginas 255 - 256

'O Trópico de Capricórnio'
Henry Miller
Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues
Edição Livros do Brasil