sábado, 4 de julho de 2020

Merveilleuses paroles de Walser

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Levantou-se da cama, vestiu roupas melhores do que o costume e saiu para o pequeno varandim quadrado que tinha à sua disposição. Daqui podia ver as copas das árvores do pomar vizinho. Estava tudo tão tranquilo e cheio de sol que quase encandeava. Pauline, a criada, estava a pôr a mesa do pequeno-almoço ao ar livre. O ajudante já não podia resistir mais a esta visão, o café, o pão, a manteiga chamavam-no para baixo.
Mais tarde desceu para o escritório. Não havia muito que fazer mas, atraído por um hábito quase amoroso, sentou-se ainda assim à secretária, que mais parecia uma mesa de cozinha, e começou a escrever. Ah, mas hoje era só um flirt com a pena, nos outros dias sempre tão séria. As palavras «conversa por telefone» pareciam-lhe tão lavadas e domingueiras como o tempo e o mundo lá fora. A expressão «e permito-me» era azul como o lago aos pés da vivenda Tobler, e os «melhores cumprimentos» que fechavam a carta quase cheiravam a café, sol e compota de cereja.
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página 71

''O ajudante''

Robert Walser
tradução de Isabel Castro Silva
edição Relógio d'Água

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Comecei a conhecer Robert Walser, há dez anos talvez, através do antigo blog dos actuais editores do blog Bicho Ruim. Eles são entusiastas de Walser e transcreviam no blog passagens dos livros de Walser. Deste modo me tornei eu próprio um entusiasta de Walser quando comecei a conhecer pormenores da sua biografia, afinal Walser escrevera livros e vivera as últimas décadas da sua vida longe do mundo, sem mesmo querer saber dele, internado num sanatório. 
Mais tarde, Cristina Fernandes e Rui Manuel Amaral apresentaram uma sessão walseriana na livraria Gato Vadio (Porto) que encheu pelas costuras. Naquelas duas horas, Walser foi o presidente adorado de todos nós. 
Quem me dera ser ajudante de Walser. Eu que escrevo há anos, sem verdadeiramente me importar em enviar para editoras e ser publicado ou recusado sem resposta, eu que fui já também internado em psiquiatria, e que já me senti mais longe do mundo do que na realidade vou estando e que vou acalmando a revolta dizendo que ainda assim «ainda há gente que come» e eu sou gente, eu como e muitos não, eu olho para Walser como um mestre, em vida e obra, porque a sua obra imita a sua vida, e ele tem tanta fineza de espírito, é um génio de fazer conversação amável e com as melhores palavras com a frau Tobler sem deixar de ser o ajudante do marido, o secretário pessoal. 
Onde Walser é refinado eu sou bruto. Walser é desastrado como ajudante mas sabe compôr o ambiente e aceita o destino com naturalidade, o que o patrão desejar está bom. Eu que já fui estagiário e ajudante de armazém e tive os cargos mais básicos dessas empresas, pelo contrário, se fui despedido dos trabalhos não foi por falta de habilidade técnica como talvez Walser-Marti ajudante de Tobler o será quando eu chegar à página e ler o que ela nesse momento diz. Não, eu no meu caso fui mais um Wirsich, um gajo que se passou dos carretos e explodiu e tornou malcheiroso o ambiente da empresa, impossível continuar a trabalhar lá. Mas também a minha mãe ligou a pedir que me readmitissem mas claro... 
Tenho pena de Wirsich. Walser substitui-o e leio-lhe os pensamentos, o modo como ele antropomorfiza os objectos, o modo como ele dislexia as relações entre substantivos e adjectivos fazendo-me visualizar pumas esvoaçantes, o modo sinestésico como ele dá cor aos vocábulos, e eu divirto-me, sorrio ao ler, retiro mesmo um prazer sensorial comparado a uma boa conversa com uma amiga, dá uma vontade de não parar de ler, de descobrir o sorriso da moça nas páginas e quiçá aspirar a um amplexo no fim do livro, 
Walser é prazer, Walser é grande. Que me importa que eu nunca publique? Walser escreveu o suficiente para descrever a vida de tantos como eu, os meus livros são desnecessários e só ensinam pela negativa. Pelo contrário, os livros de Walser fazem-nos querer ser Walser. Os meus livros são ácidas memórias que corroem, os livros de Walser são flores que se oferecem às damas ou respostas aos nossos emails quando calha escrever a alguém que consideramos. 
Walser teve em Seelig um amigo de caminhadas. Eu não tenho ninguém que se interesse verdadeiramente por mim. Ainda vou tendo a minha amiga que me visita quando se lembra mas que não gosta de caminhar, não gosta de andar a pé, afinal tem um parafuso no pé que é fruto de ter caído de mota numa ribanceira, apostaram com ela e ela ganhou a aposta e, em troca, o cirurgião ofereceu-lhe um parafuso. Coitada, tem os pés pequeninos e chama-me Francstain quando a vou buscar ao metro com a careca no ar, mas eu gosto um pouco dela e ela gosta um pouco de mim, vamo-nos ajudando à distância, ela é quem tenho mais perto de me compreender e de botar por mim a mão no fogo.
Walser retirou do seu mundo as coisas belas sem deixar de dizer em metáfora as coisas más. Eu extirpo as coisas más do meu mundo e nunca consigo dar beleza às coisas boas que também vivi. E sim, tive pessoas belas comigo, boas mulheres, mas só em poucos momentos vi nos seus olhos a admiração, elas queriam um chefe, e eu sou um simples ajudante. 
Walser, eu Mur me ofereço para guardião da tua estátua.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Lendo os jornais


'Lendo os jornais'

óleo sobre madeira, 

49cm por 71cm

2020 

ZMB



Neste trabalho, represento-me lendo a reportagem do jornal Público, onde Alexandra Prado Coelho aprecia a exposição 'Lusofolia' com obras do acervo da Treger Saint Silvestre art collection, no Centro de Arte Oliva, em São João da Madeira, até ao final de Julho de 2020.

Neste trabalho, interpreto livremente as obras apresentadas como fotos na reportagem do jornal e que são da autoria de Ana Carrondo, Jaime Fernandes, Marilena Pelosi e Manuel Carrondo.


terça-feira, 30 de junho de 2020

Walser, meu tolo amigo e camarada, estás cheio de razão!

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Aproveito um feriado miltar de vinte e quatro horas para partir, de madrugada, da fortaleza de Sargan, subir ao vale e apanhar o comboio para Herisau. Conversa com o médico-chefe, que me conta que Robert, ante a notícia da morte do seu irmão Karl, em Berna, a 28 de Setembro [de 1943], se limitou a responder secamente, «Ai sim?» Ele teima em representar o papel do realista sereno e não quer distinguir-se em nada dos outros hóspedes do sanatório. Evita a todo o custo qualquer exibição sentimental. De resto, esta atitude é frequente em muitos esquizofrénicos. Das duas uma: ou o equilíbrio emocional é perturbado por demonstrações mínimas de alegria ou sofrimento, ou o paciente tem ataques de emoção explosivos, que assumem por vezes dimensões catastróficas. Robert parece querer distanciar-se, marcadamente, do mundo em redor. Só quando lhe foi dito que a sua irmã Lisa tinha adoecido pareceu comover-se um pouco. A princípio, o médico esforçava-se por fazer chegar-lhe às mãos, como por acidente, artigos publicados sobre ele ou o seu irmão Karl. Mas Robert acabara por tornar-se hostil, a ponto de deixar de cumprimentar o médico. Quando este lhe falou sobre isso -- «Mas nós costumávamos entender-nos, Sr. Walser!» --, Robert enfureceu-se: «Porque me importuna com estes artigozecos? Não vê que me estou nas tintas? Deixe-me em paz! Tudo isso ficou para trás, bem longe.» (...)
Robert espera-me, já impaciente, diante da segunda ala, onde se encontra hospedado. Nos últimos seis meses, não reagiu a nenhuma das minhas cartas ou encomendas. Agora, porém, vem ao meu encontro de modo animado e espontâneo, até mesmo entusiasmado: «Como você cheira a exército! Óleo para espingarda, couro, palha, suor -- tudo isso me reconforta. Não é maravilhoso viver tão intimamente com o povo, corpo contra corpo, como se se estivesse entre irmãos?» Informa-se com interesse sobre tudo o que trago comiigo: da cobertura de tenda enrolada aos galões de oficial, passando pela lanterna de bolso pendurada à cintura e pelo boné novo. Digo-lhe que a vida simples do exército sempre me atraiu. Robert: «Esse é, de facto, um dos seus aspectos mais positivos. A abundância pode tornar-se um grande peso. É na pobreza e na simplicidade que a verdadeira beleza, a beleza de todos os dias, se revela de modo mais suave.» (...)
De manhã: ao passarmos, a bom ritmo, as casernas na parte antiga de Herisau, rumo a Sankt Gallen, falamos primeiro das notícias terríveis da guerra e depois do povo suíço. Eu digo: «A verdade é que o povo não quer, de todo, governar. Quer ser governado.» Robert concorda, vivamente: «É até bastante benevolente para com a tirania!» Mas apressa-se a acrescentar: «No entanto, não se lhe pode dizer isso. quem o fizer irritá-lo-á e será visto como um bruto. Mas, no fundo, o povo deseja muito menos liberdade do que se pensa.»
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, páginas 78 -até- 80

''Caminhadas com Robert Walser''

Carl Seelig
tradução de Bernardo Ferro
edição de BCF editores 2019

domingo, 28 de junho de 2020

Lendo e Lembrando



''Lendo  e lembrando''
óleo sobre tela
50cm por 70cm
2020
ZMB

Neste trabalho, pinto um autoretrato
lendo na cama um livro de Henri Michaux


quinta-feira, 25 de junho de 2020

Exposição Anuário '19 na Fundação da Juventude no Porto

Está patente a exposição colectiva 'Anuário 2019' na Fundação da Juventude no Porto até 19 de Julho de 2019.
Gostei de um vídeo de Tiago Afonso (sobre uma personagem da contracultura tripeira) e de uma sala-instalação multimédia do colectivo Acca.
Também gostei e, em baixo, mostro algumas fotos da participação de Ruca Bourbon (aka Doutor Urânio) onde ele apresenta a visão de um Porto que se vai perdendo com a usura e o desleixo da gente que manda e pode.
Às vezes, penso que o meu trabalho como pintor é interior e imaginativo e sem contacto com a realidade. Mas depois vejo que, de vez em quando, também faço trabalhos com algum valor social e que esse trabalho é interessante para outras pessoas. 
Assim, para esta participação de Ruca Bourbon no Anuário 19, eu cedi a seu pedido um quadro em que pinto um dos locais onde alguma da 'velha guarda' se reunia 
-- o bar Ribeira Negra.












terça-feira, 23 de junho de 2020

Eta Vida


ai tão linda com os meus ólicos
mais
num era o que a gente queria
o que a gente queria era nos mandar

este ano não há martelinhos
bibó são joão

 

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Faroeste Caboclo: Legião Urbana



A Legião Urbana foi uma banda que não seguiu à risca aquela “ordem” do mercado e da mídia de estar quase toda semana nos programas de rádio ou de televisão. São poucas (outros até diziam raras) as apresentações da Legião na TV. Mas quando apareciam, era para valer. É o que podemos conferir nessa apresentação que o Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Renato Rocha e Marcelo Bonfá fizeram no programa “Globo de Ouro”, da TV Globo, em 1988, emplacando a música “Faroeste Caboclo” no primeiro lugar do programa. Diferente dos outros programas, grande parte das apresentações no Globo de Ouro era ao vivo, o que não foi diferente com a Legião Urbana. Nota-se o vigor da banda nesta apresentação. Ah, reparem que nos dois palavrões da música Renato troca por outra palavra (no “filha da p…” ele se enrola e dá risada). Mais uma apresentação histórica da banda.