Tenho um amigo que leva uma vida triste. A lady@ saberá certamente a quem me refiro. Não lhe quero dar nome porque vou contar pormenores da sua vida, logo também me poderão chamar de cusco. Eis um exemplo que se repete todos os dias:
Acorda e tens uns trocos no bolso, vai ao café comer uma nata, tomar café e a metadona. Começa a dizer que está doente, anda cansado, está com gripe, o que vale é o Cegripe que o amigo lhe pagou. Eu ouço tudo e sei que ele está doente porque não tem dinheiro para comprar tabaco mas sei também que ontem em dia de temporal se fez à chuva para ir a um bar ver se encontrava dadores de dinheiro, sei porque o vi regressar, todo molhado e com os livros molhados debaixo do braço. Não tem guarda-chuva e se o tivesse não duraria uma viagem, ele e o vento dariam cabo do chuço.
É natural que esteja doente, e é fácil saber as causas e ver no que elas dão, acusar e dizer: estás doente porque não te ajudas a ti próprio. O mais difícil é dizer: como te ajudar? Acabo a dizer: só uma beata a pensar na recompensa eterna, só um irmão que seja uma mistura de católico com um predador se presta a ajudar, os outros como eu, envergonhados por ver a miséria em que um amigo, um vizinho vive, dão o pouco que têm e dizem entre costas: estás a precisar de um novo pai ou de uma mulher mãe e enfermeira.
Pois é, o meu amigo é velhote e está decadente mas é o único que vale ainda assim alguma coisa. Ele ainda luta por muito errada que seja a sua ideia. Escreve versos mas vive uma vida de nabo explorado pelos outros que com ele moram, e que não são velhos, ainda teriam um futuro se dele não tivessem desistido, limitam-se a beber, fumar e dormir. Como a ganza aumentou insanamente de preço, chegam a dormir dezasseis horas por dia à custa das pastilhas com cerveja.
Há dias, o meu amigo arranjou uma casa que lhe forneceria o almoço grátis, com sopa e tudo. Veio a minha casa queixar-se que não tinha táparueres. Dei-lhe dois, e ele pensou: assim vou trazer comida para mim, para o M e para o T. E eu pensei: lá está ele a pensar mais nos outros que nele. De modo que durante uns dias foi buscar o almoço, mas como o antigo cozinheiro M dorme até às quatro da tarde e o meu amigo não sabe preparar um prato e aquecê-lo no microondas, ele prefere sempre esperar com fome que este acorde e, enquanto ele dorme, vai-lhe comprar a cerveja ao supermercado. M bebe mas não sai de casa para comprar cerveja, prefere mandar o criado, que ainda agradece: obrigado M, o M é meu amigo, até me tem emprestado dinheiro. E eu penso, o M que mora em tua casa e não paga renda e que, primeiro ainda te fazia a comida, agora é um sostra dum chulo.
Mas acontece que o meu amigo deixou de ir buscar o almoço, diz que o T não o quer acompanhar, e eu penso: tu que vais buscar a comida para eles e para ti, porque precisas de companhia para almoçar?, manda-os foder, se eles não querem te acompanhar vai tu e come tu, eles que façam alguma coisa.
Ás vezes, o meu amigo vem chorar para minha casa e dizer que o M e o T o gozam, e eu penso: a solidão de um velho é fodida, és chulado e gozado por quem abrigas em casa, se fosse eu... e sei lá como vai ser comigo daqui a uns anos...
Mas hoje, de manhã, depois do café, ele safou-se, deram-lhe dinheiro e mais uma vez fez a sua caridade otária com os vizinhos que o chulam, mais uma vez não teve companhia para ir buscar o almoço, mas já teve companhia para partilhar uma torrada paga por ele com o T, que já não achou seca aturar o velho porque assim comeu qualquer coisa, ele T, o mais novo de todos e que tem comida de graça precisando apenas de deslocar-se mas que prefere colar-se ao meu amigo e ao M para tudo. Do dinheiro que sobrou da torrada comprou ganza e deu-a ao M para ele fazer o charro, porque diz que não gosta de fumar à custa do M, e isto acontece todos os dias, a estupidez repete-se todos os dias: M empresta dinheiro ao meu amigo para o meu amigo comprar ganza para o M fumar e guardar o que resta, de modo a quando acordar da sorna, possa fumar o último charro do meu amigo que assim deu umas passas e ficou com a dívida.
Que me dizes, lady alfa, como se ajuda, como se educa uma pessoa assim, que podemos fazer por ele?
segunda-feira, 16 de dezembro de 2019
domingo, 15 de dezembro de 2019
quinta-feira, 12 de dezembro de 2019
quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
segunda-feira, 9 de dezembro de 2019
Good? :D
No Sábado à tarde, estava no quarto a pintar e como fundo sonoro ouvia a rádio Antena 2.
Ao Sábado, gosto de ouvir o programa das 16h às 18h.
Este era sobre o Jorge Amado. Uma evocação a propósito de uma nova biografia do escritor escrita por Joselia Aguiar.
Passaram alguns registos sonoros do Jorge Amado a falar, o jornalista e a convidada a ler excerptos da biografia, a falar das diferentes fases da sua vida, dos livros, dos amores, e de como apesar de algumas infidelidades mútuas, Jorge Amado sempre esteve com a mulher: Zélia Gattai.
A certa altura, passam o registo sonoro de uma homenagem que lhe fizeram nos anos 90 em Lisboa, na Casa da América Latina (se recordo bem o nome que no Sábado ouvi na rádio) onde estiveram presentes várias personalidades da cultura e da política portuguesa e também um filho de Amado.
Umas das personalidades que recordo de ouvir falar foi a do Raul Solnado que resolveu evocar uma tarde em que Amado e Zélia passaram por Lagos no Algarve:
O Jorge Amado ia vestido com bermudas, talvez chinelo de dedo e uma camisa com cores e formas luxuriosas, ia com a mulher, e pareciam um casal de velhotes americanos. Passaram na feira e pararam numa banca de frutos e o Jorge decidiu comer um figo.
O comerciante pergunta-lhe: -- Good?
O Jorge Amado lá deixou passar o facto de parecer inglês e até deve ter ficado contente por não ser reconhecido, de modo que respondeu: -- Good!
Então, o comerciante, vendo que era entendido pelo cliente e certificando-se assim que ele era estrangeiro e não percebia a língua portuguesa, respondeu:
-- Good. Estás gordinho seu filho da puta!
Neste momento, eu parei de pintar e ri-me porque na rádio o Solnado fez rir toda a gente que o ouvia, seja naquele dia na Casa da América Latina seja eu hoje que ao escrever isto me estou a rir.
O Raul Solnado diz ao concluir a sua história do Jorge Amado em Lagos numa banca de figos:
-- Toda a gente se cagou a rir, o próprio Jorge também, e depois veio uma senhora que vendedora noutra banca se virou para o vendedor de figos e lhe disse: olha o que foste dizer... não vês que este senhor é o pai da Gabriela, o senhor que escreveu a telenovela?
Ao Sábado, gosto de ouvir o programa das 16h às 18h.
Este era sobre o Jorge Amado. Uma evocação a propósito de uma nova biografia do escritor escrita por Joselia Aguiar.
Passaram alguns registos sonoros do Jorge Amado a falar, o jornalista e a convidada a ler excerptos da biografia, a falar das diferentes fases da sua vida, dos livros, dos amores, e de como apesar de algumas infidelidades mútuas, Jorge Amado sempre esteve com a mulher: Zélia Gattai.
A certa altura, passam o registo sonoro de uma homenagem que lhe fizeram nos anos 90 em Lisboa, na Casa da América Latina (se recordo bem o nome que no Sábado ouvi na rádio) onde estiveram presentes várias personalidades da cultura e da política portuguesa e também um filho de Amado.
Umas das personalidades que recordo de ouvir falar foi a do Raul Solnado que resolveu evocar uma tarde em que Amado e Zélia passaram por Lagos no Algarve:
O Jorge Amado ia vestido com bermudas, talvez chinelo de dedo e uma camisa com cores e formas luxuriosas, ia com a mulher, e pareciam um casal de velhotes americanos. Passaram na feira e pararam numa banca de frutos e o Jorge decidiu comer um figo.
O comerciante pergunta-lhe: -- Good?
O Jorge Amado lá deixou passar o facto de parecer inglês e até deve ter ficado contente por não ser reconhecido, de modo que respondeu: -- Good!
Então, o comerciante, vendo que era entendido pelo cliente e certificando-se assim que ele era estrangeiro e não percebia a língua portuguesa, respondeu:
-- Good. Estás gordinho seu filho da puta!
Neste momento, eu parei de pintar e ri-me porque na rádio o Solnado fez rir toda a gente que o ouvia, seja naquele dia na Casa da América Latina seja eu hoje que ao escrever isto me estou a rir.
O Raul Solnado diz ao concluir a sua história do Jorge Amado em Lagos numa banca de figos:
-- Toda a gente se cagou a rir, o próprio Jorge também, e depois veio uma senhora que vendedora noutra banca se virou para o vendedor de figos e lhe disse: olha o que foste dizer... não vês que este senhor é o pai da Gabriela, o senhor que escreveu a telenovela?
sábado, 7 de dezembro de 2019
Alberto Pimenta -- Indulgência Plenária
Requiem por e para
Gisberta
Gisberta
Nota apensa ao poema
de autor não identificado mas provavelmente do editor
'
Num dia de Março, talvez Abril de 2006, Alberto Pimenta sentou-se na esplanada de um restaurante voltado para o Coliseu de Lisboa, abriu a meio o jornal que acabara de comprar, e deu com a notícia da morte de Gisberta Salce Júnior, em Fevereiro, no Porto. Transtornado com a brutalidade do que viu descrito em meia dúzia de linhas, fechou o jornal e disse para si eu vou escrever um poema sobre isto. E escreveu o poema que acabam de ler.
Quanto ao crime, a autópsia indicaria afogamento como a causa da morte, mas o homicídio da antiga estrela transexual brasileira de 45 anos, seguiu-se a vários dias de tortura. Espancada até à inanição, ficou por um fio depois de ser apredejada e levar repetidamente com murros, pontapés e pauladas. Apanhou sobre o choro, enquanto suplicava. Os agressores eram adolescentes, menores de 16 anos, boa parte deles entregues às Oficinas de São José -- instituição católica que recebia dinheiro do Estado para acolher rapazes retirados às famílias --, vagueavam pelas ruas a cidade, em vertigem delinquente, e tinham dado com ela na cave de um prédio abandonado na Avenida Fernão de Magalhães, no Campo 24 de Agosto.
A certa altura, julgando-a morta, e temendo as consequências que adviriam quando o corpo fosse encontrado, resolveram livrar-se dele. Ainda pensaram deitar-lhe fogo, enterrá-lo, mas fosse pelo receio de que isso alertasse o vigilante do parque fosse por falta de ferramentas, três acabaram por arrastar o corpo uns cem metros, do colchão encardido onde agonizava há dias e onde aparentemente já nem respirava, até uma cratera na placa de betão que formava um poço, com a água a cerca de dez metros da superfície. Foi ali que Gisberta acabou por morrer.
Depois de uma aproximação benevolente, com um dos miúdos a reconhecê-la dos tempos em que tomara conta dele, oito anos antes, ele e outros passaram a visitá-la no intervalo do almoço. Chegaram a levar comida à barraca que ela improvisara num extremo da cave, a cozinhá-la, e a mulher que nascera com corpo de homem no interor de São Paulo falou-lhes da vida que levou, do sonho interrompido de ter um corpo que reflectisse quem era interiormente, e sentiu-se na obrigação de explicar também a sua degradação, os sinais físicos exteriores que denunciavam o tão débil estado de saúde. Imigrante ilegal, depois de passar por França antes de chegar ao Porto, de ter servido às mesas, alcançado fama com os espectáculos de transformismo em que deslumbrava a noite do Porto com a figura elegante, os modos delicados e os cabelos volumosos, louros, encarnando Marilyn Monroe e outras divas, começou a usar drogas e acabou por se virar para a prostituição. Apanhou sida e, mais tarde, foi-lhe diagnosticada tuberculose pulmonar, pneumonia e candidíase laríngea, uma combinação que, por si só, seria o suficiente para liquidar qualquer um, provocando-lhe astenia, anorexia, febre, anemia, dificuldades respiratórias e mialgia.
Quando se espalhou a notícia de que alguns dos rapazes tinham começado a dar-se com «um travesti» que até tinha mamas, fizera operações, pintava os lábios, os olhos, e que parecia «mesmo uma mulher», Gisberta voltou a abalar a modorra daquela cidade, e mais miúdos vieram ver. Depois, tudo o que foi preciso foi que um deles se lembrasse de lhe bater. Os outros seguiram-no.
Depois de se terem visto livres do corpo, alguns dos miúdos não conseguiram enterrá-lo na consciência e falaram. As autoridades foram alertadas e, na cave, além do corpo, encontraram «um colchão, dois cobertores, um casaco de ganga com forro amarelo, uma écharpe de malha, uma camisola de malha, várias peças de roupa emaranhada, diversos sacos de plástico. E um par de luvas, um pente, dois batons, um rímel, um eyeliner, uma gilete, uma pequena caixa com dois espelhos, seis preservativos».
Eis em substância pura e dura o resumo do acontecido, que AP, no desconhecimento da maioria dos pormenores aqui escancarados, pressentiu e recriou, dando ao seu discurso poético verdade elegíaca: expondo a fatal humilhação de toda a felicidade que se desobrigou dos cânones que a admitem.
Um «requiem para Gisberta» diz o autor quando fala com quem sabe o que é um requiem.
'
página 57-59
'Indulgência plenária'
Alberto Pimenta
3ª edição pela editora Língua Morta em 2018
terça-feira, 3 de dezembro de 2019
Subscrever:
Mensagens (Atom)
