terça-feira, 17 de maio de 2016

O capitão que não era capitão

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Quando se deu a sua saída voluntária do alojamento na torre de controlo rádio na rua do visconde, o capitão Mancha estava a menos de uma semana de voltar a ter aconselhamento psiquiátrico. O seu historial clínico que refere uma doença crónica sugere, prescreve, chegou mesmo a exigir por via de ordem judicial, o aconselhamento psiquiátrico no sistema nacional de saúde. Cha há seis meses que não era observado. A razão é simples: estava sem psiquiatra porque deixara o anterior, não porque fosse um mau profissional no seu entender, mas porque as consultas se faziam num centro de saúde muito longe do seu local efectivo de residência. Cha tinha finalmente mudado a sua residência no cartão do cidadão e decidiu mudar também de centro de saúde. Agora, da rua do visconde ao centro de saúde eram cinco minutos de caminho. Assim, entre os trâmites formais de mudanças e registos, entre ter a primeira consulta com a nova médica de família e ela enviar um fax com carácter de urgência para o hospital de referência de modo a lhe ser atribuído um novo psiquiatra e novo ciclo de consultas, todo este processo demorou quase seis meses. Quando lhe chegou por correio, a comunicação do hospital a indicar-lhe a data da consulta, Cha nem sequer hesitou. Dado que estava tudo terminado com a Sanea, não tinha muito mais a fazer ali, podia mudar-se, ficava só para depois receber a carta dos serviços de segurança social referente ao rendimento mínimo, mas Cha pensou: «Recebê-la-ei na nova morada ou darei o número de telefone ao senhorio para ele me entregar as cartas que possam chegar ainda aqui.»
Cha mudou-se e foi à primeira consulta. Serviu para fazer um relato biográfico da sua história clínica, as datas dos internamentos, a medicação prescrita, a situação social e profissional. A nova médica mandou-o fazer exames ao sangue, estava preocupada com uma possível sífilis, tirou algumas notas, não muitas, marcou-lhe consulta para daí a dois meses, e Cha saiu da consulta com o espírito livre e desimpedido. Tinha sido a sua melhor opção, ter saído daquela casa. Lembrou-se do que disse à médica: «Se eu não saísse de lá, ainda acontecia alguma desgraça.»
Na segunda consulta, Cha apresentou os resultados dos exames, estava tudo bem, Cha continuou a responder a perguntas da médica. Cha fazia notar algum stress, aquilo que ela definiu como miséria existencial, o stress de não ter emprego, de ter poucas relações sociais, de ter uma família não muito próxima. De qualquer modo, a psiquiatra disse que Cha estava a fazer um bom trabalho ao controlar os sintomas da sua doença. 
Marcou-lhe nova consulta para Outubro, duas semanas após o choque social que Cha tivera. Cha precisava mais do que nunca de desabafar com alguém, precisava de verbalizar por palavras cordatas, e as mais explícitas que fosse possível, a sua angústia, a sua miséria existencial.
– Então senhor Mancha, o que tem para nos contar hoje?
– Oh, tem havido dias que não saio de casa, não me apetece ver ninguém… 
– E porque é isso?
– Porque quando vou ao café sinto que toda a gente está a falar de mim…
A psiquiatra começa a tomar notas, a escrever no computador. Pergunta:
– Já lhe tinha ocorrido antes ou é a primeira vez que lhe acontece?
– Já há muitos anos, no autocarro, mas aí as pessoas eram ofensivas, falavam alto, e eu respondia-lhes à letra, elas não percebiam.
– Já pensou que essas pessoas não estivessem a falar de si? Que fossem conversas cruzadas. Sabe que isso é um sintoma da sua psicose?
Cha sabia que sim mas ficou calado. Não lhe estava a contar o início da história e o porquê de ter naufragado socialmente. A psiquiatra continuou:
– A sua prescrição é reduzida. Que me diz a revermos a medicação?
Cha recusou dizendo que, para ele, os comprimidos eram placebos. Insistiu nos factos: – As pessoas, parece que, dizem: «olha chegou o palhaço do capitão…»
– Mas quem é o capitão? – perguntou ela. Cha levantando a mão esquerda, mostrou-lhe uma pulseira verde em pele onde estava gravada a palavra «capitão».
– O capitão sou eu, o capitão Mancha! – disse ele confiante.
– Não, senhor Mancha, o senhor não é capitão, o senhor é uma pessoa com estudos académicos, que está actualmente desempregada e em situação de necessidade, uma pessoa com problemas de saúde…
– Sim, eu sei, foi porque os ouvi chamar-me capitão que passei a chamar-me eu próprio capitão e mandei fazer esta pulseira para substituir aquela que me foi oferecida pela viscondessa quando tive a fazer de visconde…
– Nunca mais teve notícias dela?
– Mandou-me uma mensagem a dizer que me tinha amado e que agora tinha pena de mim e eu… quase que me vinguei e respondi que fosse ter pena do seu próprio irmão que é deficiente … quase que me vinguei porque me apeteceu dizer que ao funeral dela não iria ninguém.
De repente, ocorreu a Cha dizer que nunca foi compreendido e que os psiquiatras sempre o diagnosticaram pelo discurso incompreensível mas também pela agitação motora. – Pela minha verborreia, pelo modo como o meu corpo se move na cadeira, pelas minhas caras e pela raiva na minha garganta… – Aqui, começa a mexer os braços agitadamente e de modo propositado, como se tivesse a emular os processos motores nos seus anteriores internamentos. Isto faz lembrar um pouco um filme chamado 'Opium – diary of a madwoman'. Neste filme, a louca vira-se para o psiquiatra e pede-lhe para ele lhe remover o cérebro, para lhe dar a liberdade do esquecimento, como se não ter consciência, ou ficar sem ela por ordem superior, fosse um meio de se não mais preocupar com a miséria no mundo. Assim, Cha emulava os requisitos dos seus internamentos anteriores numa tentativa desesperada de ver se o seu caso era assim tão grave que precisasse de um novo internamento. 
A doutora achou que não, aconselhou-o a procurar novos cafés, novas companhias e novos meios de ocupar o tempo. Marcou-lhe nova consulta e disse para Cha pensar em aceitar da próxima vez uma mudança de medicação. Disse-lhe: – Dê uma oportunidade à medicina!
Cha saiu do hospital, enrolou um cigarro a caminho da paragem do metro e pensou: «Ela viu sintomas psicóticos numa situação que foi mal explicada, ainda assim, mesmo que eu quase o pedisse, não me internou, confiou em mim, vou dar uma oportunidade real aos comprimidos, não preciso de aumentar a dose prescrita na receita, basta tomar os comprimidos todos os dias, algo que não tenho feito, ela confiou em mim, vou confiar nela e depois, vai correr tudo bem.»
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Claudio Mur

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