quinta-feira, 30 de janeiro de 2025
terça-feira, 28 de janeiro de 2025
Comigo também ganhou o grande irmão
Há duas horas que me estão a chegar frases ao cérebro e não é qualquer efeito do thc porque evoluo a passos largos para deixar de ser um fumador, até a nem sentir vontade ah heresia de Jah, estou farto de aturar a Hermínia e as irmãs e até os primos, frases que chegam e urgem comigo para que eu pegue na caneta e as escrevinhe, frases repetidas em eternas variações e permutações onde se não sabe onde começam nem onde terminam, frases refinadas cada vez mais perto da verdade de hoje, frases ditas hoje à minha mãe: «Mãe, um verdadeiro louco não tem consciência nem personalidade única, vagueia entre amigos eus no seu diálogo com o eu do seu pensamento, não compreende o que faz nem o que fez, flutua, é indiferente a qualquer conclusão de causa ou consequência. Mas eu não mãe, eu lembro-me de tudo embora não me lembre de todas as palavras ditas estes anos todos, mas eu tenho consciência»
A minha mãe pede para eu lhe tirar o café porque o meu pai está nervoso com as minhas palavras e por isso ausentou-se da cozinha onde comemos para a marquise, para que possa dizer que não ouviu nem nada se passou..
-- Sim, filho, diz a minha mãe, lembras-te que cuspiste na tua irmã?
-- Sim, e outras coisas mais.
-- O teu pai está nervoso por causa de uma coisa que tu disseste há dias...
-- O quê?, pergunto.
O meu pai, que afinal ouviu tudo, volta da marquise e diz: -- Tu disseste que eras doente porque nós somos doentes! Eu nunca acusei os meus pais de ser doente.
-- Ó pai, não me expliquei bem, deixa-me explicar...
-- Não, não quero ouvir.
O meu pai sai novamente da cozinha e volta para a marquise, eu continuo a falar para a minha mãe mas de modo a ele ouvir.
-- O pai percebeu mal, o que eu quis dizer é que sou um fruto da vossa árvore, do vosso trabalho, do vosso amor, sou partes de ti mãe e partes do pai, há coisas e hábitos que eu tenho porque aprendi convosco, por exemplo, tu mãe, olha... a história do Manco... eu fui enganado, é algo que aprendi contigo, desculpa, eu e tu nós somos um pouco lorpas, queremos fazer o bem, ajudar o próximo e depois é o que se vê, neste aspecto sou como tu. O pai pensa que eu o culpo de eu ser doente mas não é verdade, o que eu tenho é partes de ti e partes dele. Dele tenho, por exemplo, o exaltar-me quando me emociono num argumento, levanto a voz como o pai, é um hábito que eu ganhei com ele. Mas também tento ser rigoroso no trabalho, ser profissional, fazer bem as coisas, eu gosto de trabalhar e isso eu ganhei com ele. Portanto, nenhum ser humano é perfeito, temos todos coisas boas e coisas más, eu sou um fruto vosso, foram vocês que me educaram, que me deram de comer e me vestiram, puseram-me na escola, essas coisas todas não as aprendi com os vizinhos ou as más companhias como vocês lhes chamam. O pai pensa que eu estou a culpá-lo... eu próprio, às vezes, sinto-me culpado de coisas que nunca fiz, o pai é igual.
Vem tudo isto a propósito de frase da minha mãe ao almoço: «o relatório foi assinado por uma pediatra», uma frase que lhe saiu inocente e espontânea e que pôs o meu pai nervoso. Para o meu pai, certos temas são tabu e se forem abordados ele fica nervoso e quase doente. Ainda agora, antes de vir ao café escrever, deixei o meu pai deitado ao comprido no sofá da sala, de olhos fechados e de mãos entre as pernas, tal como eu em posição fetal quando me dizem palavras fortes. Perguntei-lhe se era a dor de cabeça de ontem e ele evadiu-se à pergunta, acabei por lhe dizer:
-- Pai, não queres falar não fales, deixa-me apenas voltar a dizer «eu já não te culpo de nada, já passou, eu gosto de ti, eu aprendi a gostar de ti, a respeitar ou a aceitar enfim aqueles pormenores dos quais não gosto em ti, já não quero guerra contigo, já não quero fazer-te a guerra que tu nunca quiseste fazer comigo. Uma vez, o Tintol disse que andou à porrada com o pai, não sei quem ganhou mas hoje em dia convidam-se um ao outro para irem almoçar os dois ao restaurante, ele paga ao pai o almoço, às vezes é o pai que paga. Mas nós somos diferentes. Tu nunca quiseste a minha guerra, e então eu tive que a inventar, e guerrear sozinho contra o moinho de vento que só existiu na minha imaginação, tenta imaginar o que as pás das turbinas eólicas fazem aos pássaros e o zunido que ensandece qualquer ser vivo. Mas há mais de dez anos que decidi parar com tudo isto. Foi no hospital quando estavas no hospital com a cervical em risco devido à tua queda na aldeia. foi aí que vi que gostavas de mim. Tu, ali em risco de ficares paralítico, com a cabeça imobilizada e balanceada com pesos para não se mexer, e ainda assim, tu a fazeres esforço para me falares e tentares dar conselhos. Tu talvez a pensares que seriam os últimos conselhos. Foi aí que eu voltei a começar a gostar de ti, tenho desde então tentado ser teu amigo, aos poucos. Nós somos dois galos mas eu não quero estar acima de ti. Aliás, eu sou um garnizé que é mau e dá bicadas no galo e tu és o galo, eu só quero estar num poleiro ao lado do teu a falar contigo, a ser teu amigo.
Aqui, emocionei-me e não disse mais nada, fechei a porta e vim ao café. Ocorreu-me a seguinte ideia: é claro que ele lá no fundo gostaria de poder culpar os pais, só não o faz porque a sua moral não o permite libertar-se desse estigma, ele reprime-se, ele desculpou os pais dando-me a mesma educação que eles lhe deram. Mas que me interessa isso? Que me interessa que o meu pai tenha culpa de quem eu sou?
Para que se perceba do que estou a falar, temos de recuar uma vez mais à hora de almoço quando se falou do Rendeiro à mesa. O banqueiro. Eu disse: -- O Rendeiro foi-se queixar de que é cardíaco e o relatório foi passado por um psiquiatra!
A minha mãe disse: -- E em 2012.
-- O relatório é de 2012?
-- Sim. Olha... quando tu tiveste o problema foi preciso um relatório e quem o passou foi uma pediatra, disse a minha mãe.
-- Ah! Certo. Uma pediatra a quem vocês foram soprar com dinheiro e que nunca me viu. Foi uma ilegalidade! Só um psiquiatra podia internar-me e, afinal, foi com o papel de uma pediatra que me internaram, é mais uma prova de que fui enganado.
A minha mãe come, eu como, o meu pai come mas fica nervoso. Eu volto à carga: -- Olha mãe, mudou totalmente a minha vida e o meu futuro mas olha, foi há muito tempo, não adianta mais saber, vocês agiram preventivamente, não sabiam para mais, eu devia ter aceitado o convite naquela manhã de delírio, o convite do falecido sr Costa para ir ao café com ele, eu estava doente mas talvez não fosse doente, quem sabe se naquela manhã depois de não ter deixado dormir ninguém, de nem o sr Costa me acalmar, aquele dia mudou a minha vida para sempre, quem sabe se não me tivessem internado, se me deixassem ser vencido pelo sono e dormir, quem sabe?, olha, a minha vida mudou, o Rogério inocente morreu, deixou de ser, aprendeu a dureza de um sistema que me tratou contra a esquizofrenia que disseram que eu tinha e tenho, viveu na miséria existencial durante oito anos e quatro internamentos, e irónico que seja, foi o meu amor católico pela Sanea neurótica que fez com que eu me salvasse. E depois perdi-a porque ninguém quer namorar alguém que se comporta como um louco com consciência, perdi os amigos porque me tornei uma seca, perdi os empregos porque não conseguia pensar e ganhava o que o antigo médico de família chamou de gastrite nervosa, chegou a negar-me o p1 para uma endoscopia, comecei a ter medo de conduzir e vendi o supercinco ao fim de um ano e dez voltas com ele aos Coriscos, enfim... talvez hoje não precisasse de comprimidos, talvez nunca tivesse precisado deles e agora, estou dependente deles e se não os tomo pioro, descompenso mentalmente, porque o meu organismo se alterou e habituou ao comprimido, o comprimido é uma droga, a minha vida mudou, o Rogério que eu era transformou-se no Rogério que eu sou, vocês não souberam fazer de outro modo, mas talvez tenha sido tudo necessário, quem sabe também se eu não perderia tudo na mesma se não tivesse sido internado, casaria talvez, casa, carro, emprego, filhos, créditos para férias, quem sabe se não estaria hoje divorciado, sem emprego, a viver aqui em vossa casa de novo, longe dos filhos, dando uma pensão de alimentos à mãe deles, estaria mal na mesma. Aquele Rogério revoltado tinha de morrer. Hoje sinto-me bem, tenho uma vida melhor, ninguém depende de mim para subsistir, estou calmo, quero estar de bem com todos, com vocês, comigo também ganhou o grande irmão, só não fico colado a ver entretenimento na televisão. E depois, como diz o Paulino no lp Baiano e os Novos Caetanos, grande disco escrito no tempo da ditadura no Brasil: «A esperança não é a última a morrer, o último é o herói, o cabra que não teve tempo de correr.»
segunda-feira, 27 de janeiro de 2025
Tuíte Os conselhos da Hermínia
Cheguei ao café e sentei-me com a intenção de escrever qualquer coisa com o título «vinte e quatro horas na vida de um louco». A Hermínia, esta noite, esteve zangada, nem com beijinhos lá fui, não me deixou dormir, chorou toda a noite e de manhã quando fui ao pão e ao tabaco apanhei tal molha que ao sentir os pés encharcados lembrei-me no fundo que a Hermínia continuava repetindo o mantra «tu precisas de umas botas novas». Mas não sei bem como começar. Começo assim: Faz-te à vida, moço, deixa de fumar e com o dinheiro já compras umas botas.
Há duas horas que me estão a chegar frases ao cérebro e não é qualquer efeito do thc porque evoluo a passos largos para deixar de ser um fumador, até a nem sentir vontade ah heresia de Jah, estou farto de aturar a Hermínia e as irmãs e até os primos, frases que chegam e urgem comigo para que eu pegue na caneta e as escrevinhe, frases repetidas em eternas variações e permutações onde se não sabe onde começam nem onde terminam, frases refinadas cada vez mais perto da verdade de hoje, frases ditas hoje à minha mãe: «Mãe, um verdadeiro louco não tem consciência nem personalidade única, vagueia entre amigos eus no seu diálogo com o eu do seu pensamento, não compreende o que faz nem o que fez, flutua, é indiferente a qualquer conclusão de causa ou consequência. Mas eu não mãe, eu lembro-me de tudo embora não me lembre de todas as palavras ditas estes anos todos, mas eu tenho consciência»
quinta-feira, 23 de janeiro de 2025
quarta-feira, 22 de janeiro de 2025
Baiano
terça-feira, 21 de janeiro de 2025
An old bong discovered
I was chilling out with an old bong in free california remembering the old days now gone when outside of my room I listened to what seemed to be an odd conversation lost in the translation.
The nightwatcher was delivering a speech to my old buddy Dimitri in the room next door. Dimitri actually has a cute italian girlfriend wandering with him here in Tijuana. So Roger was saying:
Listen, mr Dimitri, some nights ago I closed my eyes to the smell of pot coming from your room. I said to myself: he's doing nothing wrong but this is going to get me problems. That was some days ago, mr Dimitri. Now, since you noticed I noticed and did nothing, you became confident and now you're having pot parties with your mates on room 13! Try to understand... it is illegal to smoke here and no other place allows you to do that, that's why you returned to us. The fact is that there may be other guests that don't approve of your options and may complain, you can be expelled from here and I can also have problems on allowing you to do that. So, you must not again repeat, go smoke outside and take care.
Quit the bong?, I said. That´s what Roger is saying to Dimitri. Roger seems a nice guy. I wonder if he will grass to the management... his last words yesterday were funny though. He accused us of monopolizing the ashtrays eheheh but it seemed serious, and the other guests, what will they say? We must stop, Dimitri. Time became bad for us all. The world became dangerous. Dimitri, listen and shut up. We must leave and leave no trace.
Then Dimitri replies to Roger: it's cbd it's legal, that's the reason I came here, you can buy it near the pool café, and away from the river you find shops everywhere.
Roger didn't seem to concur, he said: does it contain thc?
No.
So, why do you smoke it if it doesn't get you high?
I have adhd.
What's that?
I become hiperactive if I don't smoke.
I'm just saying the smell is the same, and there are here guests that when they enter here they may get confused with the smell and they may talk, understand?
Shall I call my lawyer?
What for?
I've been having problems on other places here.
And the guys on room 13, are they on cbd also?
I can not say, I only know of myself.
I'll talk with them and repeat what I've just told you. But... wait, Mr Dimitri, can you talk with them and explain?
I'll do that and thanks for your advice, ended Roger and he returned to the hotel reception. Then Dimitri knocks on my door, I open and he says:
For Jah's sake: We've been discovered and Roger is right, tell the lads to stop the play.
Yeah, I heard it all, this place is friendly but we have to control ourselves.
Just one thing he got it wrong, come here, I show you on my cell.
And then he shows me a cctv video file of inside his room, a guy is seen inside the room alone touching things.
This is my old landlord.
Is he robbing?
Worst than that! Look, he's looking at my girlfriend's underwear and now he's jerking off with her socks. Fuck! That's why we have moved here again, landlords here are creeps!
You go to Roger and tell him your buddies were not all honest with you but tell him we'll keep it outside here. We don't want problems.
That's what I'll do.
John Moore
domingo, 19 de janeiro de 2025
terça-feira, 14 de janeiro de 2025
Café Central
O bom de voltar para casa dos meus pais é passar a comer bem. A minha mãe nunca me deixou ficar mal. Neste primeiro mês parecia que estava na engorda, carradas e carradas de boa comida, exemplo: dourada com batata cozida e hortaliça. Uma dourada para mim e uma dourada para eles, ou seja, cada um come metade e eu como a unidade. Já reclamei. Não faz sentido comer o dobro deles: «Vocês devem pensar que antes eu passava fome.» Mas eles talvez saibam ou desconfiem que eu poupava na comida para comprar livros e ganza, indo para isso comer à caridade da Ordem do Terço.
Na Quarta-feira à noite, na minha folga, comemos uns rissóis que a ex-mulher do Zezinho e actual sócia, a Joana cozinhou. Uma dúzia de rissóis por três euros e cinquenta, com direito a factura-recibo, que não serve para nada. Ficaram aprovados. Mandei mensagem ao Zé a dizer que estavam bons. Ele respondeu à laia de empresário dizendo «Sempre às ordens.»
O Zé, há dias ligou-me a perguntar se tínhamos quarto para ele no hotel, eu disse-lhe «é mais caro do que tu podes pagar, não temos.» O Zé, há dias pelo face mandou-me a proposta: «se precisares de alguma coisa do supermercado, eu posso fazer as compras por ti e levar-tas a casa.» O Zé, empresário na procura do biscate, cobraria iva, sacos para trazer as compras, combustível para a deslocação das botas até ao meu domicílio e apresentar-me-ia a factura-recibo. Respondi: «Ó Zé, eu não sou velhinho, não preciso de nada, obrigado na mesma.»
Hoje, a minha mãe grelhou iscas de porco e eu estive a contar-lhe que esta madrugada sequei uma saia à ceguinha da cave. Tinha sido culpa minha. Ela chamara-me durante a noite quando começou a chover e a sua única saia estava na corda ao ar livre a molhar-se. Ela chamou-me, chamou, chamou e eu a dormir. Logo, mãe, não tive outro remédio senão secar-lhe a saia usando o ferro a vapor. Nós não podemos secar roupa dos hóspedes na máquina de secar e embora eu já o tenha feito, desta vez não o fiz porque não ia pôr a trabalhar a máquina só por uma peça de roupa. Falei ao chefe sobre secar a saia da ceguinha e ele não disse mal. A minha mãe disse que ia oferecer uma saia à ceguinha, mas eu disse «não dá, eu não sei o número dela e tem de ser a medida certa, não dá para trazer uma saia dela como modelo para casa para a costureira fazer uma por medida, porque ela só tem aquela.»
Hoje, fui ao Central gravar os ciganos junior a jogar jogos online no telemóvel. Modernices.
21-10-21, 19h52
Acabei de jantar frango com arroz. Tomei café.
domingo, 12 de janeiro de 2025
sexta-feira, 10 de janeiro de 2025
Eu tenho dois cunhados e não sei de qual gosto mais
Eu tenho dois cunhados, um é Zé António e o outro Tó José.
O Zé tem um curso de economia tirado numa privada mas começou a sua vida profissional através do pai que, trabalhando num hospital, o informou de um concurso e o meteu a trabalhar com ele. Como o pai tnha também uma empresa que fornecia serviços a hospitais, o Zé continuou na empresa do pai e chegou a sócio, hoje é dono da empresa e facturou milhares desde a covid.
O Tó é mais self made man, não tem curso superior mas subiu a custo numa empresa tecnlógica, faz regularmente visitas ao estrangeiro para formação ou negócios da empresa. Desde a covid trabalha mais em teletrabalho indo uma vez por semana à sede da empresa para reuniões.
Disse o meu pai ontem ao almoço: A tua irmã disse que o Tó estava com dor de barriga e não foi trabalhar, ficou em teletrabalho.
Disse o meu pai hoje, a rir: A tua irmã diz que o Tó se sentiu melhor ontem mas que depois comeu uma fartura e ficou doente de novo.
Atão, não foi trabalhar hoje, outra vez?, perguntei eu.
A minha mãe, por seu lado, perguntou: Onde arranjou ele a fartura?
O meu pai esclareceu: Ele ontem foi ao Mercadona, deve ter sido lá que a comprou.
Mas, pergunto eu, foi ao médico ao menos ver da dor de barriga, passou-lhe uma baixa, foi?
Não sei, disse o meu pai, ficou em teletrabalho.
É pai, que sorte ter um patrão como o dele!
Parece que estás com raiva do Tó.
Não, não estou contra ele, quem dera que todos os empregados tivessem patrões como o dele. Não estou contra ele por ele ter regalias, apenas estou contra ele e o Zé quando eles se põem a dizer que o pobre não quer trabalhar.
Há muitos pobres que não querem trabalhar, diz o meu pai.
Sim, há pobres que não aceitam ser escravos. A escravatura acabou há quase duzentos anos, oficialmente quero dizer. Mas hoje em dia, ela parece de volta. Só digo que nem todos têm um patrão como o Tó que nem precisou de atestado para não ir trabalhar. E quanto ao Zé, apanhei-o a falar ao telemóvel com o irmão e ele referia-se à empregada como escrava.
Como o meu pai não responde, eu continuo no mesmo tom: os meus cunhados falam de uma posição de privilégio e pensam que todos têm as mesmas condições que eles, e quem não tem essas condições é para eles um bandido que não quer trabalhar. Quantos pobres não são escravos? Para dar um exemplo concreto, pai: Eu, no Tijuana há quase três anos, quando fui assaltado na recepção do hotel e tive que sair atrás do hóspede que me roubara a carteira, atirei-me para cima dele na escadaria que dá para a rua, foi de madrugada e se viesse um carro atropelava-nos, fiquei cheio de nódoas nos braços e nos joelhos mas recuperei a carteira. No dia seguinte, pedi ao patrão para folgar e ele disse: Não, sr. Rogério, não pode ser, precisamos de si. E mostrou-me um taco de beisebol dizendo: da próxima vez com isto você abre a cabeça do bandido.
Ias ao médico, disse o meu pai.
Sim, pai, dizes isso porque confias muito nos médicos, não é? Mas tu quando precisas de um médico vais ao privado porque o centro de saúde não te atende. Infelizmente, tu também pensas como os meus cunhados. Vocês safam-se porque têm dinheiro. Ora, nem toda a gente tem o vosso dinheiro para se poder safar.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2025
domingo, 5 de janeiro de 2025
Jaromil, o poeta bufo
O quarto da cineasta está cheio de discursos e de fumo, através dos quais um dos homens (andará por volta dos trinta) olha atentamente para Jaromil desde há alguns momentos: «Tenho a impressão de já ter ouvido falar de si», disse-lhe por fim.
-- De mim? -- exclamou Jaromil cheio de satisfação.
O homem perguntou a Jaromil se não era ele o rapaz que desde miúdo frequentava a casa do pintor.
Jaromil sentia-se feliz por poder, graças a uma relação comum, ligar-se mais solidamente àquela sociedade de pessoas desconhecidas, e apressou-se a responder afirmativamente.
-- Mas não o vais ver há muito tempo -- disse o homem.
-- Sim, há muito tempo.
-- E porquê?
Jaromil não sabia que resposta dar, e encolheu os ombros.
-- Eu sei porque é, sim. Isso podia trazer problemas à tua carreira.
Jaromil esforçou-se por rir.
-- A minha carreira?
-- Publicas versos, recitas poemas nos comícios, a dona desta casa fez um filme sobre ti para garantir a sua reputação política. Ao passo que o pintor está proibido de fazer exposições. Sabes que a imprensa o retrata como um inimigo do povo?
Jaromil calava-se.
-- Sabes ou não sabes?
-- Sim, ouvi dizer isso.
-- Parece que os quadros dele são abjecções burguesas.
Jaromil calava-se.
-- E sabes o que é feito do pintor?
Jaromil encolheu os ombros.
-- Expulsaram-no do liceu, e ele trabalha como servente nas obras. Porque não quer renunciar às suas ideias. Só pode pintar à noite com luz artificial. Mas pinta belos quadros, enquanto tu escreves belas merdas!
página 361 - 362
Milan Kundera em «A vida não é aqui»
tradução de Miguel Serras Pereira
edição D. Quixote
quarta-feira, 1 de janeiro de 2025
Altar of flies
«Altar of flies»
óleo sobre tela
60cm por 45cm
2024
ZMB a partir de capa de disco da banda Altar of Flies,
um projecto de noise doom de Mattias Gustafson
https://www.discogs.com/release/6001846-Altar-Of-Flies-Altar-Of-Flies