sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Ainda dizem que temos de aturar os velhos!

Eu deixei de escrever sobre a dona A, a cega que habita no hotel onde trabalho, no início deste ano porque uma jornalista da televisão a descobriu na rua e lhe disse que a sua vida mudaria para melhor depois de o canal de televisão transmitir a entrevista que com ela fariam.

Eu pensei: será que os meus textos chegaram ao conhecimento da televisão ou será que a jornalista se emocionou quando viu uma cega mal vestida na rua a pedir e com ela chorou a história de vida? 

Tive então de matar a personagem dos meus textos e deixar que a televisão tomasse conta do assunto.

A dona A durante o mês de Janeiro andou toda contente, nem sabia com que canal de televisão ia falar mas disseram-lhe que ia ao programa da tarde contar a sua história, contou-me a mim nesses dias que iria dizer na tv, por exemplo, que uma vez a meteram num avião para ir ver o papa a Roma, mas sentiu-se mal durante o voo tendo sido assistida e tratada «no melhor hospital de itália» lol

Pois, a jornalista bem tentou que o hotel deixasse os repórteres de imagem filmar o seu quarto, o que nós não deixamos porque não se veria um quarto, veria-se um repositório de sacos com coisas e comida que lhe dão as pessoas que têm pena dela, comida quue ela não pode cozinhar e que apodrece dentro dos sacos deixando o quarto com um cheiro nauseabundo, filmar este quarto ajudaria as audiências do canal mas causaria má impressão do hotel. Pois, a jornalista tentou filmá-la a sair do hotel de manhã mas a dona A não quis porque não quis dar a entender para onde ia pedir.

Eu penso que o canal de tv queria lançar a bomba em cima das eleições e com a entrevista à cega prejudicar o partido do governo anterior denunciando a sua culpa por um erro médico ter cegado a dona A, como a dona A não colaborou no esquema porque é desconfiada de tudo e de todos, não foi possível largar a bomba e andaram Fevereiro a dizer-lhe: esteja atenta, é para a semana que passa. Mas veio a guerra da Ucrânia e a dona A deixou de ter importância mediática e afinal, já não era possível engavetar o Costa, ele tinha ganho por maioria absoluta, mas foram-lhe dizendo ao telefone: esteja atenta, é para a semana que passa. Uma vez, a dona A ameaçou a jornalista por telefone lançando-lhe uma praga de mal-olhado, sim a Dona A, que quando se descalça no quarto mete os pés em cima de dois sacos de sal para que os feitiços se descarreguem e sejam esconjurados, banidos para a terra.

Acabou por passar em Abril, relegada para o fim do jornal da tarde, ela nem ouviu, ela estava a dormir, mas houve pessoas que lhe disseram que passou na tv, enfim teve cinco minutos de fama e hoje continua a ser a mesma velha estúpida que acredita em bruxas como a maioria dos velhos semianalfabetos que ainda existem em portugal apesar de todos os domingos ouvir a missa na televisão. Hoje continua a mesma velha estúpida a quem o estado está a pagar o apoio judiciário para meter um processo em que exige receber o rendimento mínimo além da reforma, apesar de as más-línguas dizerem que a dona A tem uma casa nas Amoreiras em Lisboa, hoje continua a ser a mesma ignorante estúpida que pensa que contratou um criado para lhe aquecer as sopas da noite, lavar os taparueres, abrir-lhe a garrafa do vinho, regar-lhes os vasos da janela, contar-lhe o dinheiro para no dia seguinte ela pagar a sopa, por roupa na corda e apanhá-la da corda quando seca, acordá-la às seis da manhã, ir lá às oito e limpar-lhe o lixo do chão, às vezes apertar-lhe o soutien porque ela não dá com os botões e ainda levá-la à rua quando eu termino de manhã o meu turno e por isso perdendo muitas vezes o autocarro por causa dela... é!, ela pensa que contratou um criado mas o patrão do hotel ainda hoje lhe disse: eu só lhe aluguei um quarto e não um criado, veja lá se trata bem o meu funcionário. 

O patrão a mim hoje disse-me: ela não o respeita.

Pois é, eu só a respeito porque tenho um trabalho para cumprir e não quero criar má-impressão nos outros hóspedes, ou seja, contenho-me a minha ira perante a cega e tento tratá-la bem mas ela não percebe e ainda hoje de manhã me insultou mesmo perante o patrão e quando eu lhe dava a mão para sair do hotel descendo a escadaria de entrada, tive quase para a deixar cair na escada com os nervos que estava, mas apenas lhe berrei: Olhe O Degrau!

Mas talvez se ela batesse com os cornos no chão talvez aprendesse a respeitar quem lhe dá a mão para não cair, mas se isso acontecesse haveria de haver algum ótario/a da sociedade civil que iria verter umas lágrimas quando ela contasse o acontecido e quem se fodia era eu.

Para aumentar a estupidez da grunha, convém dizer que já lhe ofereceram três bengalas e ela nunca usou nenhuma, prefere pedir aos desconhecidos que passam na rua para a levar pela mão, a ela e ao saco de merdas que ela traz sempre consigo para parecer pobre e lhe darem dinheiro na rua. Nunca a vi sem dinheiro e todos os meses alguém lhe paga a renda. Eu trabalho e não ganho para morar num hotel se precisar. Ela deve ter um biberão escondido sempre a dar leite.

Ainda dizem que temos de aturar os velhos! Se eu fosse dono do hotel já a tinha posto na rua.

 


quinta-feira, 11 de agosto de 2022

terça-feira, 9 de agosto de 2022

O trono de Deus

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Depois disto vi um rasgo aberto no horizonte e a voz que antes ouvira falar-me como uma trombeta, disse: «Olha para o Cubo e mostrar-te-ei o que deve acontecer depois disto». De repente elevei-me dentro do Cubo e vi um trono onde um Cifrão pairava.

O Cifrão que pairava era semelhante a uma pedra de jaspe e sardónio, e um arco-íris circundava o trono, com reflexos semelhantes à esmeralda. Ao redor do trono, havia outros cento e oitenta e nove tronos sobre os quais estavam sentados cento e oitenta e nove Chefes de Estado, de fato e gravata, com satélites sobre as cabeças. Do trono saíam relâmpagos, vozes, trovões, e, adiante dele, brilhavam noventa e sete lâmpadas ardentes, que são as noventa e sete grandes multinacionais.

Diante do trono havia ainda como um mar de vidro semelhante ao cristal. No meio do trono e à volta dele, havia cinco Animais, constelados de olhos por diante e por detrás. O primeiro Animal era semelhante a um economista, o segundo parecia um político. O terceiro era como um militar de carreira; o quarto tinha um rosto como de um homem; o quinto era semelhante a um jornalista em pleno voo.

Os cinco Animais tinham cada um seis caixas cobertas de antenas em toda a volta por fora e por dentro; e não cessam de repetir, dia e noite: «Grande, Grande, Grande, o Senhor Cifrão Omnipotente, O que era, O que é, O que há-de vir».

E cada vez que os Animais dão glória, honra e se submetem Àquele que paira sobre o trono e que vive eternamente, os cento e oitenta e nove Chefes de Estado (ditadores e eleitos) prostram-se diante d'Aquele que paira sobre o trono e adoram Aquele que vive eternamente e lançam os seus satélites diante do trono, dizendo:

«Tu és digno, Cifrão nosso Deus, de receber a glória, a honra e o poder, porque criaste todas as coisas e por Tua vontade elas existem e foram criadas.»

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página 15 - 16 de

''Apocalipse, uma distopia sobre o presente''

de Carlos César Pacheco, http://www.carloscesarpacheco.com/

edição Edições Mortas

sábado, 6 de agosto de 2022

Diga lá resiliente leitor, se não se sente como se tivesse levado com a torradeira nas trombas [sic], se não sente o sino da catedral a retinir dentro vossa massa cinzenta e as sinapses a caírem em saco roto

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— E foi esta parte do discurso que o Coelho não leu. So goodnight.
— Anda cá, meu amor!
— Ah sim, o monstro das bolachas! Olha, eu lembro-me do monstro das bolachas… fartei-me de bater punhetas a ver a rua sésamo. Não perdia um episódio. Deixei-te sem resposta. Comunica para a semana. Abraços à família.
Entretanto acordo e, na mudança da hora, sou informado que uma tigre saiu da jaula no Circo Claudio, atravessou mesmo rio. Consta que a lady foi capturada duas horas depois em Lamego por quarenta gnrs e bombeiros e já voltou ao circo. Não consta que tivesse fome. De qualquer modo, o problema do ponto de vista do estômago desta lady é estar domesticada, mas mesmo não sabendo caçar espuma-se como uma cadela com raiva ou cio, basta um alemão pastor para a pôr na ordem, ela limita-se tal como o grande empresário a fazer planos para um passaporte de embarque para as Ilhas Caimão. Os porquês de tais preparos nem a família os saberá, talvez crimes fiscais, talvez comunicações, talvez bater e insultar quem lhes paga a pedicure, a inevitável revista das partes íntimas. Entretanto mudou a hora, tomo café e leio o jenê.
Antes de sair da habitual boca de café compro o meu tabaco de cachimbo que uso para enrolar cigarros e pagar menos imposto. Ralo o tabaco, enrolo enquanto subo a rua pensando que um dia chegará em que a terei de fumar, quer dizer, filmar ela a fumar, ela gosta de fumar de graça os meus charros. Entretanto o mundo precisa de saber e um café, um jenê, um cigarrito e meia hora depois da hora, o sol mudou de passeio, sento-me num banco com sol derretendo o frio e registo esta observação no caderno porque tenho medo de quando chegar a casa a minha memória selectiva não a retenha. A verdade é que tenho medo de me esquecer, tenho medo de me tornar no novo presidente com alzheimer e sem dinheiro para pagar o repasto da Maria (a vítima), principalmente quando vejo nesta assumpção de doença um motor para desculpabilizar projectos e modelos de desenvolvimento passados e hoje tu maria pagas pelo que fizeste e o palhaço diz a ver se cola: portugueses, temos de voltar ao mar!
Se eu registo isto é para que no futuro o possa ler e ver de algum modo a nuance de quem fui, de quem fiz por viver com, as tuas birrinhas de putinha, os meus poucos irritantes ciúmes, sinal de que, se calhar, amei poucas vezes, ah e claro também uma reflexão psicogeográfica, aqui uma vez por outra, acerca das estrelas do sistema. Quem não chora não mama. Ou não será «quem não mama não chora»?
Por isso, fica ao piratinha prometido que quando eu for presidente da república das bananas lhe comprarei uma nave espacial mercedes para ele navegar de planeta em planeta. Chegarei a casa e comerei uma boa sopa. Para quem tem pouco às vezes chega, todo o pobre sabe que não pode comer bife mas não é preciso vir a Jonet cheia de graça e importância parlar o que todo o pobre tem vergonha de sentir — eu… escravo da misericórdia. Obrigadinho pelo cigarrinho. Para eliminar a indiferença e a ausência de comentários externos, secariam muitas terras onde se plantaram eucaliptos para serem transmutados em papel, o que me safa agora neste momento de piada interna, é ter à minha frente um pinheiro perfumado para desbastar.
Entretanto o chinês foi, pela raivosa voz do cão poeta, avisado que lhe está interdita e só a ele a utilização da torradeira. O chinês, em tom algo divertido de desafio, responde que serão precisas duas testemunhas para comprovar os factos. A solução literária do poeta é deslocalizar a torradeira para o seu quarto, o corredor até parece a rua central do bairro. No dia seguinte não testemunhei mas a moça de recados confidencia-me que falaria com o poeta. Ele consente e relocaliza novamente a torradeira para a cozinha em que «mi comida es mi comida and tu comida es mi comida», acção verdadeiramente admirável mas, no entanto e segunda a moça de recados, apenas temporária, o tempo suficiente de ela fazer os preparativos de aluguer dos dois camiões e relocalizar a sua torradeira industrial, que a mamã não usa, para a cozinha comunitária do nosso bairro. Bem haja.
<BR> sente necessidade de se reintegrar na sociedade, até porque a sua morada está registada em entidades oficiais. No entanto, sente a vontade de fazer a trouxa e ir embora porque, além de sua mulher não se querer relocalizar largando a familí, tem a moça de recados a, segundo ele, roubar-lhe as papas com pedaços de bifana e molho de francesinha.
Duas francesas vi eu há duas horas enquanto apanhava sol naquele banco e fumava o mais barato tabaco de cachimbo do mercado. Sustenho a técnica, ao que parece, pós-modernista de nomear marcas de produtos porque esta marca não precisa do meu patrocínio publicitário para que o seu valor de mercado aumente. A subida do imposto estatal sobre este produto se encarregará sozinho de reduzir o consumo do produto e em espiral, como o marido da Maria recita, reduzir a receita fiscal. Uma recessão em cima da ponte. É preciso dizer que quanto maior for o imposto mais o chinês fumará de espontânea vontade menos. Ele já se vê careca mas com pulmões limpos, ah e claro a Maria há-de sempre ter o seu bife de novilho.
Fazendo contas ao saldo da conta bancária, saio para comprar tabaco para <BR> no café habitual. Mas… e como já vos fiz resenha jornaleira, na animada reunião de sócios topo que um contacto menciona uma marca de verde de um reputado agricultor do burgo. Intão! Antes de satisfazer <BR> faço-me à estrada seguindo-me ao vento a vontade possível de me embriagar. <BR> preparará o jantar com marcação para as oito e meia. Mais minuto menos minuto farei por estar. E assim foi, caminhei pelas obras mas fiz o desvio, apenas explicável pelas obras lógico, e fui desembocar numa feira de discos, o paraíso voila. Desgracei-me! Comprei a um galego o segundo longa-duração dos Mutantes brasileiros.
— Eh pá! Se eu te oferecer a zine do Neu Zeit… tu não me farás um desconto?
— Não posso. Mas aceito a tua oferta e convido-te a escolher um cd destas caixas como troca.
— A sério? Fixe! Destas caixas aqui mesmo?
— Si!
O desvio devido a obras para turista japonês fotografar desviam-me, ou melhor, levam-me pelo caminho grande da desgraça e trazem-me de volta à realidade das obras mas, aqui vem a nuance, munido de um bom gnawa de Nass El Ghiwane em cd de edição árabe. Vou ouvi-lo ao bar das estrelas azuis de oito pontas. Hipnótico alaúde de garrafas e de broa abastecido e com o contacto da ruiva com quem, eu sei que nada acontecerá mas… passarei férias no próximo verão. 
Por sinal, volto a encontrá-la no bar, ela é uma cota de quase sessenta verões, durinha de carne e morena como convém. Falo-lhe agora do que escrevi hoje à tarde: às vezes ralo o tabaco para pagar menos imposto. Ela diz, quase dignamente suspira: porque és tu tão… e interrompe a frase que eu consigo quase adivinhar mas eu insisto que ela termine nem que seja só para jogar a minha vez.
— Porque és tu tão especial?
— Especial é o Mourinho, é o que dizem.
— Sim, é o que dizem.
— Talvez em Paris no próximo ano.
— Talvez em Montmartre, na zona dos pintores.
— Sim, eu mando-lhe mensagem quando chegar. Agora tenho de ir apanhar o metro. Amanhã é dia de bulir. Xau.

O meu refrigerador funciona babe. Eu até te convidava para uma garrafa de verde em minha casa. Mas eu sei que o meu estilo apenas agrada visualmente quando comemos broa ou tarde, às escuras quando o meu sorriso parece iluminar a tua vaidade. Com a luz da manhã veriam-se tantos sucedâneos dos guarda-chuvas do Satie e tanta sujidade e fumo dentro das gavetas que… olha era o mesmo que tu te produzisses muito bem para minha noiva em concurso, nós transássemos toda a noite e de manhã quando te levantasses para ir à geladeira eu te achasse feia. Imagina apenas… não é verdade? Não duraria nem nenhum de nós deseja ser um objecto so-xual de conveniência. De qualquer modo <BR> tem as papas à minha espera e 'tá com vontade de fumar. É pena que partas depois de amanhã. Tanto filho para beijar. Até à cidade das luzes.
— Ficamos a ver o rio, o mar. Lamentamo-nos de a vida não mudar…
— Os portugueses às vezes são estrangeiros. Têm de ir ser profetas lá fora. Agora até nos mandam emigrar… como você amiga O. …
— Sim, e que vão fazer a esta multidão de leitores que vi na queima?
— Bão prás obras!
— Vejo que falamos a mesma linguagem.
Despedimo-nos, beijamo-nos quatro vezes na face e eu venho rua acima a imaginar-me o melhor amante desta ruiva na cidade das luzes. Desvio até o olhar de outra ruiva que beija a sua amante de fato e gravata preta e garrafa de champanhe. Celebram à sua maneira alguma ocasião especial. As mães, um beijo para todas as minhas mães, que eu vá primeiro que elas, essas milfs, mães de ellen bêbada. Uau, meu refrigerador funciona babe. Vejo-te no verão ou no varão. Termino enviando mensagem: amiga O., amanhã vou bulir, no próximo verão, quem sabe, se tiver dinheiro para as férias. Beijo. Enviar.
Digamos assim que por razões de nobre cavalaria, romanesca como diria o mago Gérard ou segundo a moda mais trendy do momento para o tone chinês, após estas cavaleiras de sangue ruivo este conto deve terminar, aqui.
Et voila, há mortos que estão mais vivos que certos vivos que não sabem que estão mortos. No entanto, vários finais e outras tantas explicações neste luso faz-de-conta são possíveis. Por exemplo, convém não endeusar o mistério mas sim desvelar o mistério das iniciais. Não sei se o leitor, tendo resistido a adormecer com o livrinho no nariz ou mesmo tendo resistido a usar zine como papel de tuálete, terá reparado que a última, a verdadeira, a única cavaleira deste conto é a amiga O.?!
Diga lá resiliente leitor, se não se sente como se tivesse levado com a torradeira nas trombas [sic], se não sente o sino da catedral a retinir dentro vossa massa cinzenta e as sinapses a caírem em saco roto, ou como dizem os britiches:
— Does it ring a bell?
— Doesn't it?
— Oh god fuck my mind for ru...d,
ou como dizem os agentes do efbí: copy that roger,
se não sente nada disso é porque, se calhar, não aproveitou a oportunidade de gratuitamente ler os textos (ou o email foi descartado porque numa leitura diagonal a sua informação era irrelevante) onde aparece uma personagem masculina, a man for fuck sake?!, um tal de professor O., e agora aparece uma lady friend O.!
Estará o escrevedor a alucinar a hermenêutica reduzindo géneros Ovais, um O. antes macho, uma O. agora fêmea?
Wtf eheheh mas ainda assim se nenhum lóbi se interessa, também nada é verdadeiramente misterioso, eu nada invento e, apesar do O original nunca ter existido como nome, o nome da amiga O. começa por O.. Ponto.
Eis um facto de que a história se gera em nuances repetidas e transcritas em ficheiros word bb, é possível re-escrever, fazer acontecer o destino. Mesmo que a igreja diga que é proibido desistir e que a história é eterna e não se repete, eu digo que surgirão sempre novos profetas, únicos e prontos a darem a vida na cruz por qualquer pai ou mesmo sustento — «mas eu estou louca, Joaquín, por isso não acredite em mim», escreve Cristina Rivera Garza em «Nadie me verá llorar».
Este mistério de acontecer amanhã o que alguém ontem escreveu, este desespero de haver iludidos e desiludidos, crentes e descrentes, o «estou a supor», o «diz que disse», a tentativa de nos adquirirem, a ciumeira e a inveja resultante, enfim!, tantas maneiras de concluir o conto mas chega para mim dizer apenas que o O. original encontra R., trinta anos mais novo, e lhe conta que desfizera a santa custódia nas trombas da mestra da comunhão.
Menos ou mais passível de ter acontecido mas vinte anos depois, e apesar de por O. sentir ainda algum carinho, digo que lhe teria valido mais ter, de acordo com as perfilhações de Escohotado, adulterado com fungos a farinha da hóstia e talvez… talvez a mestra visse nele o futuro avô de seus netos.
Cogumelo my franga minha guarda-chuva de Bengali, em dias que não chove… podes estar on ou podes estar off mas, como do ponto de vista do chinês, não és suficientemente rápida para poder estar on e off ao mesmo tempo no momento em que o investigador recolhe a evidência fotográfica, convém dizer que é melhor o chinês estar ov e fazer o ninho debaixo da ponte e calmamente apontar a cana e, com setas, caçar uma gaivota com consciência crítica, uma franga que vá além do blowjob trocado pela despesa de domingo à tarde no chópingue e também além da conversa fantástica acerca do Anthony nas dunas de sal.
Velvet Sonic Prunes mámene óme! Agora vou fumar um moks de cabidela. Ámena!
Termina assim a novelização metafórica da paixão confessional do grande empresário pelo careca tone chinês que, com ou sem óculos com ou sem cavagnac, inspira tanto ódio e medo ao poeta, de profissão, Mauricelho da Sogra. Porque desde sempre os há, até ao próximo que ponha algo de pé para parecer grande coisa.
No final, o que conta mesmo é que Mauricelho da Sogra e o chinês podem voltar a fumar um charro juntos e concordar que o Artaud fez bem em dar uma bengalada ao Breton.
[texto escrito seguindo o gozo do acordo ortográfico]
Oub'lá mas essa história da manuelle biezon...
Que história?
Eh é mesmo verdade?
Que história? A história da mulher que tinha bigode e mamas?
Não!, a história daquela que não gostava de foder e não sabia a diferença entre uma puta e uma prostituta… a história das fadas… tu sabes, foi mesmo ela que a escreveu?
É que recebi uma mensagem de um palhaço dizendo-se new wave, não desampara a loja, diz: Imagina um homem que queira mudar de sexo e depois
já mulher escolhe ser lésbica. Ainda pergunta se gostei da mensagem!
Well mister… me and my monika we were ridding back from manitou…
Oub'lá tu pensas que me indrominas?! Tu num m'indrominas óbiste? Eu posso ter um olho fechado mas o outro está aberto, essa frase é dos Tédio Boys, estou meio a dormir mas estou-te a manjar!
Ok então... houve um dia que a manuelle chegou perto do claudio e lhe disse
claudinho vai buscar o minidisk e o microfone não te esqueças da faca da avó,
o claudinho foi e trouxe também a caneta e a broa.
[.!.]
É verdade :)´»!, eu estava lá,
quase que morria com uma úlcera de riso.
Brutal.
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Claudio Mur

terça-feira, 2 de agosto de 2022

A paixão confessional do grande empresário pelo chinês

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A paixão confessional do grande empresário pelo chinês

(Escrito seguindo o estilo de Boris Nerval)


Na empresa, o comandante geral mente senta-se no lugar do morto, sendo hábil mente conduzido pelas mãos no volantinho de pau do secretário honorário. Como em todo o bom mistério, o qual se pretende manter por motivos tão absurdos como questões de segurança nacional, serei daqui em diante denominado de «o passageiro do banco de trás». Aliás este nominalismo é quebrado, às vezes e sempre, quando espero debaixo do candeeiro de luz pública chinesa para ser recolhido breves minutos depois pelo nosso honorável secretário honorário e me sentar no lugar do morto. Esta excepção à regra será daqui em diante arquivada num ficheiro com o título de «o geral comandante está em lua-de-pré-mel em Veneza». Vai dar no mesmo se esta ficção estórica classificar Veneza e gongoricamente diluí-la em sal. Tudo se resume em denominar substitutos e trocar gôndolas por moliceiros. No entanto, a lua de mel permite ao comandante geral depositar três milhões de zmbs na banca do mendigo mais próximo da catedral de Rijeka, sendo este nominalismo um pouco gongórico, um mero substituto e querendo na realidade definir o paraíso fiscal do Vaticano e o mendigo apenas alguém que apareceu enforcado na ponte com os bolsos rotos, santo para sempre. Quem se importa se ninguém perceber...

— Então paz!

— Então grande chefe! Está aprovado!

— E se calhar não lhe carregaste...

— De qualquer modo mesmo à minha maneira... está aprovado! E tu? Tudo careta?

— Faz-se por isso. Amanhã é dia de trabalho!

Assim sendo, o passageiro do banco de trás, que hoje se senta no lugar do morto porque o encarregado da obra não está e está a fazer os preparativos para ir curtir as vindimas num moliceiro em pleno são martinho, chega a casa em Derza e põe-se a ouvir a hammerklavier sonata vinte e nove opus cento e seis do Thöven B.

A chuva bate nas telhas e vejo na pequena clarabóia desta torre de controlo rádio a chuva a escorrer tijolo vidro abaixo. Ouço agora Ray Lema em sistema quadrifónico e este nominalismo quer na verdade dizer: eu estou a ouvir duas fontes sonoras em estéreo, Ray Lema e também Glenn Gould a interpretar uma sonata do Thöven B.. Há já algum tempo aludira a um enquadramento desta grandeza, deu até origem a um texto denominado «The blues», que foi incorporado no capítulo das bicicletas estacionadas em postes de candeeiros ainda não parcerias públicas chinesas mas com graffitis certificados com a marca de qualidade fdp dizendo: Procura-se. A este farto de procurar trabalho junta-se a minha devoção em part-time voluntário na associação Jesus Salva, onde a minha maior realização é disfarçar-me de gaja e seleccionar uma passagem escolhida do mais útil dos autores alemães e conseguir com este recurso estilístico roubar um beijo à fantástica devoção platónica tornada uma rocha rugosa, sendo aqui esta admiradora de cavaleiros de armadura assombrando a honra de donzelas denominada como «o busto da princesa rocha» tornada uma fotografia impressa num livro de arte egípcia, arrancada para fazer uma escultura em exposição na varanda do primeiro andar e depois o vento encarregando-se de o fazer desaparecer e entregar a um novo dono. Claro que neste ponto convém dizer: cada um tem a sua maneira de se fazer gente desde que cada um respeite o espaço do outro. No entanto, ainda hoje acabei de ler o texto Sylvie do Gérard e não deixo de pensar que se calhar a Adriana/Aurélia podia ser por mim transposta para a minha narrativa na personagem do busto da princesa. Vários pormenores nada aristocráticos me impedem assim de ficar na estória como inventor de uma ficção tão estropiada esta minha, lembro-me aliás das frases que escrevi como se alguém declamasse em gravação sonora: I have no right to my own copy riot! Sim!, não tenho, mas no entanto também acabaria por ter de haver uma sílvia e, claro que, em toda a literatura memética acaba por haver uma sílvia na vida de um tone, inspira aliás momentos zen no passageiro do banco de trás mas até esta nuance não é exactamente igual àquela história do Gérard. Eu não sou tão bom mas tal como ele, eu nada invento.

— Então, o empresário não veio?

— Ó!, nem me digas nada…

— Não deve ter vida social, não deve ter agenda livre.

— Nay, 'inda onte' teve no Pereira. Acho que vai dar em casório.

— Ei, era fixe, ficava garantido para toda a vida.

— Não sei, já nem sei que dizer… och och, olha, por falar nisso, fui contactado por um agricultor que quer distribuir o seu produto devidamente certificado pelo fdp. Estás nessa?

— Iá, até que 'tava com vontade de beber de um pouco desse verde, não seria possível fornecer um litro de amostra?

— É possível, terei que me informar junto do geral comandante… no entanto o lance mínimo são cem zmbs em paridade com a lira, tu sabes, o geral vai para Veneza…

— Sim compreendo, penso que não terei dificuldades em cumprir contratualmente. E para quando o grande jantar da empresa?

— Bem, segundo informação de último dia a vindima foi já efectivamente realizada, estando agora naquele estado entre o lagar e a pipa. Uma questão que pode demorar uma semana ou um mês.

— É claro que há todo um intervalo.

— Sim, a qualquer momento.

— Ok grande chefe. Amanhã é dia de trabalho.

— Sempre às ordens doutor.

É necessário expandir o ramo de actividade. Abrir horizontes, desbravar fentos e urtigas sem utilizar retroescavadoras, a maneira, aliás a seguir, denominada como a maneira do «careca chinês» que em breve deixará o amadorismo e com a rapidez de um cometa Tunguska se torna agora num verdadeiro palhaço profissional.

No entanto é assunto sério. É quase assunto de faca e alguidar, envolve a torradeira e toda a obra literária. O chinês acaba de ser informado, pela personagem daqui em diante denominada como «a moça de recados», que o poeta tem medo do chinês; pediu também à moça de recados que dissesse ao chinês para não usar a torradeira do poeta, aquela na qual o poeta quase torrou a obra dedicada à mulher dos seus futuros netos.

— Sabe… desde aquela vez que o chinês me agrediu… que…

O chinês, agradado quase honrado por hoje ser palhaço profissional, ainda pensou no éden daquele chinês que comete um crime para salvar a sua amada americana que levava porrada do marido, mas este chinês não fuma ópio e sabe que a polícia prendeu esse tal chinês que fumava ópio por matar o marido que dava porrada na Lillian Gish blablabla, e hoje nesta nuance de filme o chinês, ou seja eu, pergunta:

— O poeta pediu resposta?

— Sim. Responde a moça de recados.

— Diz ao poeta que o chinês lhe mandou dizer que ele poeta terá de vir falar directamente com o chinês para resolver o assunto relacionado com a utilização da torradeira.

— Também foi o que pensei.

— Diga que se for necessário e se ele tiver tomates de me dizer: Chinês, não te permito que uses a torradeira!, eu deixarei de a usar. Mas ele deve ter medo.

— Sim. Ele disse: desde que ele me agrediu…

Convém igualmente aqui dizer que esta estória do poeta dizer «o chinês agrediu-me» não é exactamente assim, aliás como dizia o João Pinto: «prognósticos só no final do jogo». Como este jogo não mostra só o lado heróico daqueles poetas que, em alguma altura, tiveram alguém ao seu serviço que os ajudasse a montar o cavalo enquanto eles, armados de binóculos, fiscalizavam a obra feita mulher feita sustento do lar e de boas condições de trabalho para a arte do poeta, mulher daqui em diante denominada de «leite de soja». E se esta cavalgadura é a corda sobre o abismo do poeta, então também não é minha intenção defender a honra da leite de soja nem perante o poeta, esposo marital, nem perante o benévolo e curioso leitor. Sinto-me quase honrado por o poeta ter medo do chinês, eu que só me salta a tampa se nela alguém fizer pressão. Por isso quando saio para ir apanhar o metro, quando fecho a porta do quarto e vejo o poeta na cozinha, ignoro que ele poderá ter arranjado tomates para uma conversa civilizada, uma espécie de mano a mano. O problema é que o poeta pensou que o chinês teria que ser o seu mandarim, oficial e pombo chinês para todo o serviço táxi, daqui em diante denominado de «ganza ao domicílio» e sem pagamento de despesas adicionais daqui em diante denominadas de «sola de borracha das botas». Nessa altura a capoeira matou o tiozinho poeta. O mandarim chinês deslocalizou-se e tomou posse da torre de controlo rádio de Labutes Tower. O poeta diz então ao de longe enquanto o chinês o ignora descendo pela escada interior para a porta da rua:

— Era só para passar a mensagem de que não…

O leitor saberá certamente que o final da frase é '«[não] podes usar a torradeira.» No entanto, a mensagem não passa porque eu desço a escadaria inteira dizendo ainda mais alto que o poeta:

— Agora não, tenho que sair, mais logo.

Fecho a porta da rua pensando com os meus botões: Fica registada a intenção do poeta, no entanto e porque parece que o poeta tem medo do chinês, serão necessárias duas testemunhas para selar o pátio de ódio não-agressivo, não será necessário sangue algum, eu escolho para minha testemunha a moça de recados, tu naturalmente escolherás a leite de soja dado que é a tua mulher.

Mas tudo isto não acontece efectivamente, não passa de um pensamento que obtenho depois de entrar no metro, aliás não sei se validei a entrada. Quando volto do compromisso nada me é revelado e também, paciente e curioso leitor, posso eu revelar que efectivamente se avançou no assunto complexo da torradeira versus ganza ao domicílio versus obra queimada em filme versus leite de soja contra o chinês. Devido a tudo isto eu próprio, o chinês, me tornei palhaço profissional. Tenho em mãos uma espécie de processo: a contracultura ressacada contra um hobo chinês. O Pierre Boulez no meio de jornalistas disse que reservava a sua opinião sobre a qualidade do Frank, e eu só estou à espera de acabar esta estórinha para do poeta só passar a dizer quando interpelado exactamente isso, mas agora tenho de ir nanar. É aliás provável que escreva mais umas quantas frases até virar esta página no meio da noite. No entanto se tudo é retórica e classificação e todo o pensamento é válido escrever, então que essa fugaz subliminaridade seja inscrita em papel e se torne por fossilização passível de acontecer por nuances. Tantas vezes que já aconteceu. Boa noite.


No dia seguinte:

— Então doutor…

— Então grande chefe, como passa?

— Então estamos aprovados? O produto nacional?

— Sim completamente. Há que apoiar o mercado interno!

— Olha, eu na quarta tive de pedir reforço. Aqui na zona está a ser um sucesso!

— Está aprovado! Na próxima vindima encomendo mais.

- E tens bebido sozinho…

— Quase tudo. Claro que partilhei o copo com algum pessoal, gostaram e até dispensei uma garrafa. No entanto, cada garrafa só dá três copos.

— Olha, e logo não queres ir beber um copo?

— Não, hoje não. Estou cansado. Mas se quiseres daqui a uma hora… vens cá ter e a gente vai lá baixo e curtimos a esplanada.

— Ah não agora não. Estou com uma chapada. A noite é mais fixe!

— Sim mas eu tenho de dormir.

— Ok, então ficamos conversados.

— Ok. Talvez no próximo fim de semana.


Dez minutos mais tarde, o suficiente para colocar os Mutantes s21 a spinar no gira-discos e começar a escrever este diálogo, o grande chefe volta a chamar:

— Então grande chefe, como passa?

— Sou eu outra vez… olha, aquilo lá em baixo abre a que horas?

— Cinco e meia, seis horas e abre. Queres ir lá?

— Iá, até que estava a pensar que era boa ideia.

— Sim, eu bebia um café. De qualquer modo e se não estiver aberto, há nas redondezas outros tascos.

— Ok, é isso!

— Que horas são? Ãahh… deixa ver, são quatro e dezassete. Vais com calma, relaxa, faz as cenas descansado e lá daqui a uma hora dás o toque e eu vou para a paragem.

— Ok, quando estiver na avenida dou o toque.

— Ok, grande chefe, até já!

E então enquanto uma longínqua canção árabe em Istambul às duas e quarenta e cinco da manhã… antes de receber o toque de convocatória envio mensagem ao grande chefe e levo o lixo para o ecoponto, sem guarda-chuva mas com a ajuda de Lá, de repente:

— Fazemos um cocteil no tasco, eu levo a broa e tu a garrafa.

Os dois turcos vão-se encontrar na twilight zone dentro de instantes e ajudarão a provar a peça de roupa a ser usada em Veneza pelo chefe da empresa, o empresário.

Derza, cais do muro. No sonho de mil e um fantasmas esperei que o grande chefe secretário me recolhesse no habitual poste de iluminação pública chinesa junto à igreja. Deu até para reparar na luz do fim de tarde deixando os taxistas permeáveis ao meu fumo em formato king moks. Táxi?

— Então paz! Qual o destino?

— Sempre em frente mai frango!

— Não estou habituado a esta luz. 'tou todo moca, almocei assado mas agora estou com fome. Tenho aqui uma garrafa.

— Não tens óculos de sol? Eu tenho aqui broa.

— Eu tenho, costumo usar durante o Verão.

— Iá mas ao fim da tarde é fixe. Às vezes, venho por aqui abaixo a pé… e a luz é da cona!

— Iá mas curto mais a noite.

— É outra onda. Cada qual com o seu modelo de negócio.

— E olha, a cona já está aberta?

— Talvez ainda não… mas temos alternativas.

— Eh pá, espera aí, tenho de mijar!

— Ei espera um bocado, mijas na casa de banho, não vais mijar aí como um cão. Há aqui muitos tascos, olha… vêem-se aqui muitas gajas fixes.

Ao fim da tarde não são minisaias a matar, estamos em pleno são martinho, são mais gorros fuscina e cachecóis azuis ciano.

— Eh pá, está fechado?!

— Vamos ali em frente, a segunda opção tu sabes…

— Iá!, até lá podíamos beber uma garrafa. Bem, desde a lei do tabaco é só wc, pelo que ao menos podes aliviar-te.

Fazemos horas e durante as horas vemos as turistas que passam e a luz findando no poente.

— Olha, parece que o empresário já não vai para Veneza… ihihih.

— Não me surpreende mas… vai ao menos para a ria de Aveiro?

— Eheheh nem isso! Parece que faz anos. Estivemos ok a beber uísque. 'tou com uma broa!

— Uma broa tenho eu aqui para o pessoal comer. É só fazer umas horas. Aguenta os cavalos.

— Vou mijar.

Antes de voltar a casa deu ainda para tentar enviar uma mensagem de parabéns ao empresário, que não pode vir por estar algures a celebrar eventualmente num boteco da estrada para Entre-os-Rios. No entanto, pedi-lhe por sms o número do inem, escrevi textualmente: o grande secretário não está em condições de ser conduzido de volta à zona. Foi pelo menos esta ideia que, depois da broa e da garrafa, tentei passar ao empresário de modo a tentar que ele viesse cá ter de mota para pagar a conta do jantar de aniversário e, claro, apoiar o produto, consumir nacional, apoiar o mercado interno, o tão pelos burocratas — solidário leitor — desprezado mercado interno. Que todos os agricultores escoem a sua produção!

Chego por fim à torre de controlo e volto a pôr Mão Morta e o lado 0 acaba de tocar. 'tou há vinte minutos a escrever o relato deste fim de tarde na já habitual reunião de empresa para balanço e acerto de contas. Vou agora levantar a caneta do caderno para ir pôr o lado 1 dos Mutantes s21 e beber mais meia garrafa de modo a me dar a fome e ir comer a sopa, talvez um bocado de massa. Haja saúde e eu serei o filho mais feliz do mundo.

Terminando o último gole da garrafa e completada com o groove de electrostática mutante s21 girando em sistema estéreo, em nada comparável ao sistema quintifónico se contarmos com o subwoofer potente que o grande secretário comprou em alta promoção na reciclagem — mais um alto vale de desconto passado pelo empresário do grande produto nacional — venho por este meio concluir o relato da última garrafa do dia. Irei de seguida descer da torre de rádio e jantar, tentarei ver as notícias da guerra do dia-a-dia, depois um banho rápido e fazer a barba porque lá para as onze será tempo de ir nanar, amanhã lá para as sete da morningue terei de me fazer à bida. Foi isto que tentei explicar ao empresário quando este ainda agora me queria convocar finalmente para o jantar de celebração. Recusei até a dedicada moça saindo do bolo. Dado que durante a semana estou empenhado em ser um profissional competente e reunir mais do que o necessário para conseguir garantir alegria dentro em breve e por não querer misturar o pessoal com o profissional com o comunitário, abster-me-ei de abordar a estória durante a semana mas… para que a estória continue em registo coloquial e, na melhor tradição de encher chouriços para o esfomeado leitor no talho da dona Maria, e roubando alguma da técnica burroughsiana, será inserido a seguir um triálogo real e nada inventado. Existe até filmagem em vídeo digital mas irreproduzível a imagem devido a questões jurídicas.

Ainda antes de transcrever parte deste áudio, posso deixar em última mão a minha convocatória por parte do grande secretário a ser efectivada após o toque habitual de passagem diante da porta. Serão outros joviais velórios.

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Claudio Mur

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Ficar sem pilinha


Algumas pessoas poderão pensar que eu estrago o efeito surpresa ao mostrar trabalhos que ainda não estão finalizados, mas eu gosto de mostrar os passos intermédios numa pintura, frequentemente acho que a partir de um certo ponto a mão do pintor acaba por estragar o trabalho, o rascunho é muitas vezes mais verdadeiro do que a obra final.