quinta-feira, 31 de outubro de 2019
domingo, 27 de outubro de 2019
Willalee, o Cantor de Gospel e a menina Marybell
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Willalee soluçava de olhos fechados, baloiçando-se de um lado para o outro sobre os joelhos. O Cantor de Gospel, afligido pela crescente certeza de que era o responsável pela situação de Willalee, olhou fixamente para ele, incapaz de dizer nada. Por fim, agarrou Willalee pelos ombros e disse:
-- Sossega, vá. Sossega. Ouve, eles não te vão fazer nada. Estás a ouvir? Eu estou contigo. Agora pára com isso e levanta-te. Eu estou contigo.
Willalee levantou-se e sentou-se na beira da cama de ferro. O Cantor de Gospel foi até à janela e olhou para fora. Por baixo, ao longo de todo o comprimento de Enigma, a multidão redemoinhava agora, num marulhar de cor e som. Por detrás dele, Willalee continuava a falar, num tom uniforme e pesaroso.
-- Tu sempre tiveste comigo. Desque fui salvo, nem um instante tiveste longe de mim, nem um. E eu tou salvo, percebi logo isso quando foi que assucedeu. E sei que continuo a tar salvo, é o que diz no Evangelho. Mas tenho o sangue da menina Marybell nas mãos... no coração.
-- Ouve -- disse o Cantor de Gospel, voltando costas à janela e desejoso de reconfortar Willalee, de lhe contar a verdade, embora ciente de que a verdade causaria ainda mais dano do que aquela fantástica teia de mentiras. Mas o que viu ao virar-se tornou desnecessária qualquer palavra. Ali, sobre a cama de ferro, estava uma enrugada fotografia sua, cuidadosamente alisada, mas velha e a desfazer-se nos vincos. Willalee, cujos lábios se moviam, continuando a falar, estava a olhar não para o Cantor de Gospel, mas para a sua imagem.
O Cantor de Gospel atravessou devagar a cela até à cama.
-- Onde é que arranjaste isso?
Willalee não ergueu os olhos da fotografia.
-- ... ela que fez tudo. Se ela num tivesse vindo no bairro eu continuava a ser a pessoa que era. Um preto ruim, com cortes de navalha nas costas e que se deitava com mulatas. Ela mostrou-me o caminho. -- Enquanto falava, o dedo caloso, tremendo, de Willalee traçava o contorno da cara do Cantor de Gospel na capa da revista.
-- Ela ajudou um preto ruim a endireitar, e depois disso nunca mais cortei-me nas costas, parei de invocar o nome de Deus em vão e de dormir com mulatas. Ela falou-me do Cantor de Gospel. Falou-me como era. A menina Marybell, a menina Marybell. Ela que arranjou a igreja. Que preparou tudo. Que pôs tudo a andar. A menina Marybell. -- Olhou momentaneamente para as suas mãos, voltando as palmas para cima, enquanto abanava a cabeça, ainda a falar, numa voz sonolenta e monótona. -- Congregar. Vamos congregar na igreja quando ele voltar a casa. Arranjamos a igreja, temos tudo pronto e quando ele chegar vai entrar na igreja, vai olhar à volta e dizer tá muito bem. Sim, tamos preparado pra quando ele voltar a casa. Sim. A menina Marybell disse logo que souber quando ele chega vem avisar a gente. Veio a meio da noite. Um home nunca sabe o dia e a hora. Ela... -- Fez uma pausa, inclinando ligeiramente a cabeça, como para ouvir algo. Espetou um dedo no centro da testa e pressionou. -- Ela disse: vim pra te contar a verdade sobre o Cantor de Gospel. Eu disse: quando ele chega? Ela... -- Um cinzento de cor de cinzas humedecidas perpassou pelo rosto de Willalee. Uma veia inchou-lhe na fonte. -- Não -- disse, num sussurro. -- Eu sou pastor. Eu tou salvo. -- Voltou a olhar a flácida fotografia do Cantor de Gospel. -- Não, Senhor, não. Ela disse: Foste salvo com base em falsidade, a igreja é falsidade, o Cantor de Gospel é um falso. Disse: Deus é um home coas calças em baixo, Deus é uma braguilha desabotoada. Ela disse: o Cantor de Gospel... e eu cravei nela o picador de gelo. Agarrei-le pelo pescoço e espetei outra vez, espetei, espetei, espetei... -- Desatou a soluçar, com a cara enterrada na cama e os punhos cerrados.
Mais do que ajudar voluntariamente, o Cantor de Gospel caiu de joelhos. Colocou o braço em volta de Willalee.
-- Por favor -- pediu. -- Por favor.
Willalee ergueu os olhos. Parara de tremer. Já não chorava. Parecia até que ia sorrir.
-- Eu sabia -- disse. -- Eu sabia que contigo ia descobrir o porquê que matei a menina Marybell e fazer as paz co Senhor. Agora tou pronto. Agora já ninguém pode magoar-me porque agora sei o que fiz e sei que ofendi o Senhor. Vou pra casa.
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páginas 212 - 214
'O cantor de gospel'
Harry Crews
tradução de José Miguel Silva
edição Maldoror
Willalee soluçava de olhos fechados, baloiçando-se de um lado para o outro sobre os joelhos. O Cantor de Gospel, afligido pela crescente certeza de que era o responsável pela situação de Willalee, olhou fixamente para ele, incapaz de dizer nada. Por fim, agarrou Willalee pelos ombros e disse:
-- Sossega, vá. Sossega. Ouve, eles não te vão fazer nada. Estás a ouvir? Eu estou contigo. Agora pára com isso e levanta-te. Eu estou contigo.
Willalee levantou-se e sentou-se na beira da cama de ferro. O Cantor de Gospel foi até à janela e olhou para fora. Por baixo, ao longo de todo o comprimento de Enigma, a multidão redemoinhava agora, num marulhar de cor e som. Por detrás dele, Willalee continuava a falar, num tom uniforme e pesaroso.
-- Tu sempre tiveste comigo. Desque fui salvo, nem um instante tiveste longe de mim, nem um. E eu tou salvo, percebi logo isso quando foi que assucedeu. E sei que continuo a tar salvo, é o que diz no Evangelho. Mas tenho o sangue da menina Marybell nas mãos... no coração.
-- Ouve -- disse o Cantor de Gospel, voltando costas à janela e desejoso de reconfortar Willalee, de lhe contar a verdade, embora ciente de que a verdade causaria ainda mais dano do que aquela fantástica teia de mentiras. Mas o que viu ao virar-se tornou desnecessária qualquer palavra. Ali, sobre a cama de ferro, estava uma enrugada fotografia sua, cuidadosamente alisada, mas velha e a desfazer-se nos vincos. Willalee, cujos lábios se moviam, continuando a falar, estava a olhar não para o Cantor de Gospel, mas para a sua imagem.
O Cantor de Gospel atravessou devagar a cela até à cama.
-- Onde é que arranjaste isso?
Willalee não ergueu os olhos da fotografia.
-- ... ela que fez tudo. Se ela num tivesse vindo no bairro eu continuava a ser a pessoa que era. Um preto ruim, com cortes de navalha nas costas e que se deitava com mulatas. Ela mostrou-me o caminho. -- Enquanto falava, o dedo caloso, tremendo, de Willalee traçava o contorno da cara do Cantor de Gospel na capa da revista.
-- Ela ajudou um preto ruim a endireitar, e depois disso nunca mais cortei-me nas costas, parei de invocar o nome de Deus em vão e de dormir com mulatas. Ela falou-me do Cantor de Gospel. Falou-me como era. A menina Marybell, a menina Marybell. Ela que arranjou a igreja. Que preparou tudo. Que pôs tudo a andar. A menina Marybell. -- Olhou momentaneamente para as suas mãos, voltando as palmas para cima, enquanto abanava a cabeça, ainda a falar, numa voz sonolenta e monótona. -- Congregar. Vamos congregar na igreja quando ele voltar a casa. Arranjamos a igreja, temos tudo pronto e quando ele chegar vai entrar na igreja, vai olhar à volta e dizer tá muito bem. Sim, tamos preparado pra quando ele voltar a casa. Sim. A menina Marybell disse logo que souber quando ele chega vem avisar a gente. Veio a meio da noite. Um home nunca sabe o dia e a hora. Ela... -- Fez uma pausa, inclinando ligeiramente a cabeça, como para ouvir algo. Espetou um dedo no centro da testa e pressionou. -- Ela disse: vim pra te contar a verdade sobre o Cantor de Gospel. Eu disse: quando ele chega? Ela... -- Um cinzento de cor de cinzas humedecidas perpassou pelo rosto de Willalee. Uma veia inchou-lhe na fonte. -- Não -- disse, num sussurro. -- Eu sou pastor. Eu tou salvo. -- Voltou a olhar a flácida fotografia do Cantor de Gospel. -- Não, Senhor, não. Ela disse: Foste salvo com base em falsidade, a igreja é falsidade, o Cantor de Gospel é um falso. Disse: Deus é um home coas calças em baixo, Deus é uma braguilha desabotoada. Ela disse: o Cantor de Gospel... e eu cravei nela o picador de gelo. Agarrei-le pelo pescoço e espetei outra vez, espetei, espetei, espetei... -- Desatou a soluçar, com a cara enterrada na cama e os punhos cerrados.
Mais do que ajudar voluntariamente, o Cantor de Gospel caiu de joelhos. Colocou o braço em volta de Willalee.
-- Por favor -- pediu. -- Por favor.
Willalee ergueu os olhos. Parara de tremer. Já não chorava. Parecia até que ia sorrir.
-- Eu sabia -- disse. -- Eu sabia que contigo ia descobrir o porquê que matei a menina Marybell e fazer as paz co Senhor. Agora tou pronto. Agora já ninguém pode magoar-me porque agora sei o que fiz e sei que ofendi o Senhor. Vou pra casa.
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páginas 212 - 214
'O cantor de gospel'
Harry Crews
tradução de José Miguel Silva
edição Maldoror
sábado, 26 de outubro de 2019
Propostas musicais neste fim de tarde
Na Rua Anselmo Braancamp 345
no Museu Vivo do Tasco Tripeiro
organizado pelo Bazar Esquisito
No Museu Vivo do Tasco Tripeiro
teremos uma dupla DJ
Exultanza Catatonica é Demetrio Castellucci de Black Fanfare,
a sua música move-se em duas linhas paralelas, uma é um som electro-acústico melódico e puramente orgânico, a outra é rítmica, evocando uma batalha de elementos percussivos.
E DJ One Erection é Pedro Augusto, músico e compositor nos projectos Ghuna X e Live Low, tem também conduzido um largo percurso na composição de bandas sonoras nas áreas de dança contemporânea, teatro e cinema
E DJ One Erection é Pedro Augusto, músico e compositor nos projectos Ghuna X e Live Low, tem também conduzido um largo percurso na composição de bandas sonoras nas áreas de dança contemporânea, teatro e cinema
terça-feira, 22 de outubro de 2019
domingo, 20 de outubro de 2019
Sincronicidade
eu não estava para partilhar isto mas o sr. xilre escreveu uma publicação, hoje Domingo,
e eu, como vejo em muitas palavras de bloggers que gosto de ler, pedaços daquilo que Jung chamou de
Sincronicidade,
decidi partilhar, em baixo, um texto que escrevi esta semana,
tem traços opostos ao do Xilre mas versa o mesmo tema.
não façam caso do protagonismo dado ao eu que fala, eu não sei escrever na terceira pessoa:
'
Caro público, vejo o brilho do sol e cores novas em cada olhar, tenho os meus seres como elementos, letras como eus e como amigos, falo com eles como se fosse comigo próprio,
não uso filtros nem símbolos de pontuação ortográfica como travessões que indiquem diálogo, tudo é solilóquio:
Eu sou como o psicanalista do livro do Boris Vian, sou um jovem cebola e não aparento a idade que tenho, sou autofágico. Sou muito mais velho, um píton, um mago, um
nigromante. Ando é disfarçado entre os pingos da chuva vestido com a personalidade dos meus amigos porque em mim a ela não lhe reconheço os traços. Adopto as amigas como irmãs primeiro,
mulheres depois e por fim mães. As cabeças de todos são parte de mim, são os meus seres. Com eles e elas falo, almoço-os a todos, fumo as suas calças de cânhamo acompanhando
o café com cheirinho e deito fora as suas cuecas de flanela, varro as cinzas do churrasco dos seus ossos e depois discurso mesmo que ninguém ligue puto, digo urso em estado alterado perante uma plateia de uanabís
como eu, todos temos um futuro ainda.
Não li muitos livros durante a adolescência porque poucos os havia interessantes em casa. Os meus pais também não liam muito mas esforçavam-se e encomendavam
livros do Círculo de Leitores e das Selecções Readers Digest. Foi assim que não sei como caíram lá em casa obras como A laranja mecânica, A servidão humana do Maugham que jurei nunca ler por causa do título. Eu não queria ler coisas tristes com esta idade, queria livros que me provocassem a excitação dos sentidos e finalmente a desejada
consumação sexual, queria livros com amor e sexo, com palavras úteis que me ensinassem. Livros fúteis talvez para um adulto mas livros importantes para a definição e acção
emocional e sexual de um adolescente. Havia outros livros que mais tarde surripiaria mas de Anthony Burgess ganhei a ideia que palavras como ultraviolência degeneram em loucura e culpa em encarceramento e reclusão
em religião e partido em sacrifício e morte, tudo isto porque o amor, já alguém o cantou, o amor é uma doença.
Mas eu quero começar por algum lado e dizer que, há quatro anos, desisti da religião porque não cria no dogma que aprendi na catequese. Andei lá até
aos dezasseis anos para ver se arranjava amigos e namoradas mas os rapazes gozavam-me e as raparigas estavam apaixonadas pelo rapaz da moto. Era isso ou a rua e os meus pais não me deixavam sair para outro lado. No
dia do crisma na Sé em Derza os meus pais estiveram ausentes e a madrinha que me levou ao altar para receber a bênção do bispo foi a Irmã Belinda, uma missionária idosa da paróquia
que fez esta caridade a mim e aos pobres sem pais. Senti-me um pobre e tão pobre como eles, senti-me condenado. Nesse dia mesmo, mandei foder toda a gente em pensamento e assim apostasiei a água benta do bispo
e decidi que era mau, que sou mau e que vou para o inferno. Irei com todo o gosto para o inferno.
Carimbei a heresia na festa de finalistas, oferecendo para o sorteio de prendas uma lingerie em couro vermelho e com um fecho de latão à frente que um tio, que nunca casou
com a minha tia, me dera uma noite na feira popular da cidade vermelha onde ele trabalhava. Despachei assim este emplastro familiar indo ele calhar a um santo paroquiano pretendente a caloiro de filosofia. Logo nos rimos uns
dos outros, eu ri-me sem saber que me estavam a riscar do mapa e a chamar-me de pervertido, estúpido e louco. Ainda consegui ao fim da noite dar uns beijos numa colega na discoteca mas o encontro marcado para uma tarde,
dois dias depois, correu mal, ela rechachara-me com medo e eu sem perceber o porquê dela, fiz cara de patrão mau, fechei a porta e saí para a rua. Nunca mais a vi e não recordo o seu nome. Para me
saciar, decidi seguir uma prostituta até à hospedaria, dei-lhe dois contos e subi, ela foi lavar-se e voltou sem a saia, deitou-se, e eu tirei as calças e puz-me em cima dela a beijar-lhe o pescoço
para que a tesão me viesse. Ela disse despacha-te e eu bloqueei. Parei. A tesão não veio e eu vesti-me sem dizer nada. Ela disse: se tiveres problemas
volta cá. Voltaria ao longo da vida mais duas vezes, a uma dei-lhe dinheiro para a calar, a outra tratei-a com carinho filial, convidei-a para tomar café mas o sucesso não veio nunca. As prostitutas não
me seduziram, nunca me servirão, penso que as respeito demais.
'
Claudio Mur
sexta-feira, 18 de outubro de 2019
Ik ben a zombie
'
São aproximadamente cinco horas da manhã. Deixei o Armenia em plena paz, hoje diverti-me sozinho, outra vez Muslimgauze e os grilos na cabine de DJ. A chuva continua a cair
miúdinha e os poucos candeeiros intactos reflectem-se nas poças de água existentes no passeio. Sei que estou sem rumo definido mas estou cansado, vou-me sentar num banco do jardim. Vou enrolar um cigarro.
Tenho, no entanto, a sensação de que alguém me espia, alguém que poderão ser muitos, três mil pessoas a apontar o dedo ao consumo de fumantes no local de trabalho. É melhor ter
cuidado.
C deita-se ao comprido enrolando-se na sua longa camisola cinzenta. Quando em estado de sonolência, o sino comeca a tocar a Sexta sinfonia, segundo movimento de Glenn Branca. Quando adormece entra num cenário artificial. Está num leito de madeira usando uma camisa fina, branca com folhas
à caubói e umas calças pretas de flanela. Está descalço. Numa fracção de segundo, uma pequena luz branca toca-lhe nas virilhas mas logo se esvai para longe. Então, C
acorda sobressaltado olhando para todos os lados, para as seis barreiras que o separam do espaço real. Nem uma só janela. Ao longe, nos cantos dessas barreiras minúsculas fosforênciais, formas que
sugerem pirilampos comecam a luzir. Ao princípio inofensivas, depois começando a agitar-se. Alongam as suas espadas de laser em várias direcções mas sempre aproximando-se, os tentáculos
chegando perto. Nao sabe o que fazer. Nem uma só janela. Uma luz verde atinge-o no ombro, é a sua cor favorita, a marca fica registada, torna-se o símbolo de uma primeira acção. Um olho verde.
Um risco verde imiscui-se na cor branca da camisola que transparece a cor vermelha do seu corpo. Uma voz de igreja diz-lhe: eu perdoo-te C, eu perdoo-te, eis a minha benção. Não sabe o que fazer. Sente
calores frios pelas costas abaixo. Nem uma só janela. Agora é a serio. As luzes lançam-se de frente para ele e sem lhe tocar, vão-lhe tirando as medidas exactas, esquadrinhando ângulos, amplitudes.
Já não está deitado, sentou-se na borda do leito de madeira. Puxa de um cigarro mas uma luz vermelha tira-lho da boca. Compreende então que está perdido. Nem uma só janela. Repara
que, do seu lado direito, um fusil de Napoleão espera que ele lhe toque com carinho. Os calores frios então invertem o sentido da sua marcha, encontrando-se agora ao nível do pescoço. Dentro de
breves momentos estarão já a subir pelas faces albinas em direcção às poucas madeixas que ainda possui. Surgem então os tambores. Vêm do lado daqueles poderosos lasers. Começa
a limpar o fusil. Repara que só tem um cartuxo, tem ainda, para o caso de precisar, a baioneta Justincase. A luzes continuam a fazer-se notar em movimentos tipo tiro e fuga. Faz tenção de colocar o velho
fusil no ombro direito e olhar pela mira telescópica uma rua calcetada ao fim da tarde e ou a fachada de uma casa de pedra. Desce a rua sempre com os olhos na mira, apontando às luzes que continuam a surgir.
Pára numa fonte. Do outro lado a casa acabou e tu e ou ele pode ver uma cerejeira com pequenos gémeos idênticos, idênticos e violeta e púrpura, um menino e uma menina. Então, uma luz
surge uma vez mais, uma luz púrpura e ele não resiste mais. Foca o alvo e bang... um pequeno melro cai em espiral a seus pés junto aos cantos da fonte. Continua a olhar pela mira e vê esse melro
transformar-se num gato bebé com um pequeno ponto cruz no seu peito, o ponto de mira verifico eu. Quando a ferida sara, levanta-se e ronronando vai beber um cálice de Porto e desfrutar deitando-se a seus pés,
pedindo alimento enquanto C olha de pé o fusil, que sendo comprido é o seu terceiro membro. Após uma breve interrupção, as luzes voltam, surgem agora aos milhares. Começa agora a suar
de verdade. O fusil roda no ar e na ultima extensão do seu corpo, as luzes atingem-no em todas direcções, electrochoques cegam-no momentaneamente, destroem-lhe os nervos. No entanto, não desiste
e continua a apontar o mais que pode, consegue até que as luzes se extingam por momentos, sendo substituídas por tambores em compasso de espera. Agora, tambem ele espera, ouve, está sentado numa sanita
imunda. Tem o fusil em pé, é o seu terceiro membro, ele espera a descarga, pressiona o esfíncter. Os tambores deixam de tocar e ela surge, a luz negra, o eclipse total. Então, C levanta o fusil,
vira-o de encontro a si próprio com a baioneta mesmo à frente do rosto. Ela, esta luz é agora parte constituinte do fusil e pretende engolí-lo. Um ultimo compasso, um ultimo tambor. R puxa para
dentro de si a baioneta, a luz apaga-se e tudo termina.
C acorda do banco de jardim todo encharcado e cheirando mal. A seu lado, vê no chão estilhaços de um candeeiro preto. Passa o coveiro com a sua lamparina antiga a óleo.
C olha para o relógio. Seis horas da manhã. Decide segui-lo, ele vai completamente nas nuvens, nem parece reparar. Entretanto, C recuperou os velhos sapatos e a camisola cinzenta. Faz agora planos de enrolar
um cigarro enquanto sobe a rua atrás do coveiro. Com uma medalha de cem metros olímpicos do fundista Bolt na lapela, este entra já numa álea em terra batida rodeada por árvores enormes, que
não consigo identificar e que dão acesso ao cemitério. Do outro lado da rua, vê-se a silhueta de um megaempreendimento de alojamento local com piscina privativa. Quando finalmente C o apanha, o coveiro
começa a falar:
Ontem, o meu filho contou-me uma história que ouvira sobre o malogrado regresso de um homem após uma longa estadia no éter. Aterrara no mesmo lugar de onde tinha partido
trinta anos antes mas agora nada de pompa ou circunstância. Tudo vazio. À saida, apenas viu uma pessoa velha de bengala. Pensou em chamar um táxi mas desistiu. Comprou a bengala ao velho. Seguiu a pé
decidido a encontrar alguém que lhe explicasse o suicídio. Nem sem sequer um ramo de flores. Finalmente, entrou na cidade às dez da manhã, a coelhinha da páscoa vinha na sua direcção,
ouviam-se os pássaros saindo dos ninhos numa palmeira, fugiu dela atravessando a estrada fora da passadeira, encaminhou-se por um carreiro em terra, que cortava o caminho, evitando o semáforo. Ao virar a esquina
à direita, viu um vulto de cavanhaque e careca mas não o reconheceu logo, ficou com a impressão que o conhecia de algum lado. Foi uma visão de milisegundos. Viu-lhe a t-shirt preta que nas costas
parecia dizer Polícia, estava acompanhado de outro homem. A visão foi momentânea e aterradora, fez por não ver mais nada, imaginou uma rusga, que andariam eles cuscando? Passou por eles e, à
sua frente, outro elemento os tinha deixado, pensou nele como um paisano indo averiguar as redondezas. Segundo o que o meu filho me disse, o homem, o cientista que voltara do éter, durante trinta anos não tomara
a medicação simplesmente porque não havia farmácias no éter. Atacado por delírios paranóicos de perseguição e tendo um flashback ao ver os três agentes de
autoridade, ficou petrificado por momentos quando ouviu um deles chamar, viu o terceiro olhar para trás para os seus colegas e também para ele. Foi como se também o homem de cavanhaque o conhecesse. O
nome pareceu-lhe um som familiar mas antigo e distorcido, seria eu quem ele queria interrogar? Diz o meu filho que o homem escreveu umas frases assim e meteu-as num envelope que mais tarde foi encontrado. Ficou paralisado
mentalmente mas isso não o impediu de ignorar o chamamento e seguir caminho. Não se podia denunciar, não podia denunciar ninguém. Caminhou pela rua apoiado pela bengala e tropeçou numa velha
vigorosa que se dirigia para a igreja, de olhos cegos falando-lhe em modos incompreensíveis. Dizem que era a sua única mãe, diz o coveiro fazendo uma pausa. Então, continuou a andar estupefacto,
viu três sombras verdes saindo das lojas de conveniência. Resolveu ignorar. À sua frente, viu três velhos vestidos de fato e gravata, mostrando cartões a meninos e dirigindo-se igualmente para
a igreja. Pensou em igreja e pensou em pedofilia. Parou nos semáforos dando prioridade aos táxis amarelos e laranjas surgindo desgovernados. Quando finalmente a sua prioridade verde surgiu e atravessou aquela
rua, parou numa montra para ver uma serie de quadros com o nome de Cenas de um covil. A princípio, não quis querer mas os seus olhos não o podiam enganar com tanta certeza. O homem, continua o coveiro, ainda não pronunciara uma unica palavra. Mesmo na compra da bengala,
avaliara primeiro e oferecera um valor generoso, limitara-se a apontar para a bengala com uma mão e a colocar as notas no bolso do velho. Não dissera uma única palavra, não lhe saíra sequer
um ai, um pio que fosse, um insulto contra a desolação, nada. Foi esse o erro. Quando gritou de espanto ao ver aqueles quadros, não reconheceu a sua própria voz, aquela voz doce que a sua mulher,
de cabelos ligeiramente pretos, lhe dissera que ele possuira. Então, acreditou que era mesmo ele, aquilo que via no vidro quebrado da montra era ele. Não havia um pingo de dúvida, não havia um moks
para fumar, não havia escape para a angústia, nunca mais dormiria oito horas seguidas, nem mesmo recorrendo aos mesmos narcóticos que assassinaram o Prince. Uma cópia, uma imagem, um ser disforme
e retorcido, sem dentes, sem cabelo e verde, muito verde. Destroçado, continua o coveiro, decidiu largar a bengala, já não precisava dela, ultrapassou a ponte e chegou a estátua de Cristo, subiu
a custo lá cima, observou com calma, com toda a calma possível do momento o espaço, tão diferente de tudo aquilo que deixara para trás em prole da descoberta cientifica, e atirou-se. Morreu
na cidade vermelha. Foi transladado para este cemitério.
C interrompeu perguntando: essa historia foi inventada ou está escrita?, que idade tem o seu filho, é albino?
O coveiro respondeu que todos o somos um pouco mas que isso não passa de um pormenor que em nada pode alterar os propósitos pelos quais você me seguiu.
Havendo dito isto, parou num túmulo e disse: aqui pode ver com os seus próprios olhos a campa desse homem que nunca foi reconhecido, pode ver também que, por ele, velam
dia e noite, consegue ver não consegue?, um anjo com sombra e um pote de flores albinas.
Sim, vejo um anjo azul, lindo como nunca tinha visto antes. Obrigado.
O coveiro sorriu da crendice e da humildade presente neste agradecimento, esteve uns momentos olhando para C avaliando o seu coeficiente de inteligência e pensou que Lombroso estava
definitivamente errado. Sacou, então, de um charuto havano, deu dois bafos profundos, osculou ao som dos pássaros madrugadores porque sofre de doença pulmonar obstrutiva crónica e resolveu-se finalmente,
abriu o jogo de modo paternalista.
O homem, sabe, passara uma temporada na Holanda, a única frase que conseguiu aprender foi esta que está no epitáfio, ora veja, veja se consegue ler, o musgo enferrujou
as letras, e sabe que mais, quem contou a história ao meu filho foi um amigo numa noite de borracheira, foi o filho do homem e de uma dama evangélica, o filho nunca assumido pelo pai, este homem que morreu nunca
soube que foi pai duas vezes. Este homem era violento em casa, na realidade não era nada um cientista, era um mero transportador de malas com dinheiro e sabe-se lá que mais, bares de alterne em Sta onde grupos
de espanhóis pedissem para trocar as pesetas... ele saberia que as pesetas e os escudos lá ficariam, fumadas e bebidas, acordariam na tarde do dia seguinte dentro da sua mala. Ele, na realidade, fugiu para a
Bósnia, ofereceu-se como enfermeiro numa milícia de ciganos. E fugiu porquê? Porque a mulher baptizara a primeira filha sem lho dizer, sem ele próprio saber o dia. Pois, quando soube nesse mesmo
Domingo de baptizado, desfez os cunhados com as próprias mãos. E fugiu, já estava a apresentações semanais por violência dioméstica, um dia faltaram-lhe trinta contos da mala
e verificando os passos do dia, lembrara-se de perguntar à mulher, a mulher cuspiu-lhe na cara: sim fui eu, aliás não precisas de tanto graveto. Ele raivoso, deu-lhe uma chapada tão violenta que
a deixou com um hematoma, depois bateu no próprio irmão que acudira aos gritos da cunhada, o homem... era um mastodonte, desfizera com um cepo de carvalho um grupo de vizinhos que jurara vingança e lhe
fizera uma espera na linha de comboio, quem os fodeu foi ele. Depois fugiu. E não voltou do éter coisa nenhuma, voltou simplesmente num avião repatriando os refugiados de guerra, o seu advogado dissera-lhe
que seria amnistiado, o consulado pagou as despesas. Sem cheta e deprimido e sem notícias de familiares vivos, a filha morrera num acidente de viação, o homem, quando soube, saltou da janela do terceiro
piso do miradouro sobre o rio. A mãe contou finalmente ao filho a verdade sobre a identidade do seu pai e este filho recolheu os pertences e mandou escrever o epitáfio, este que vê aqui: Ik ben a zombie.
'Claudio Mur
Hare, hunter, field : music from the misfit generation for your pleasurable moments
Bel Canto Orchestra : Ti Amo
Muslimgauze & Hesskhe Yadalanah : Zarm
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