segunda-feira, 4 de maio de 2015

Ah, ser jovem como Rober Walser e dizer sem medo:
«Não quero ter um futuro, quero ter um presente.»

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«Quer que lhe escreva uma carta de recomendação, ainda que na verdade o senhor não a mereça?»
«Uma carta de recomendação? Não, não me escreva nenhuma carta de recomendação. Se só mereço uma carta de recomendação pouco abonatória, então prefiro não ter nenhuma. Eu próprio me recomendarei a partir de agora. A partir de agora contarei apenas comigo mesmo, quando alguém perguntar pelas minhas credenciais, e isso só poderá suscitar a melhor impressão junto de um empregador sensato e lúcido. Fico contente por me despedir de si sem uma carta de recomendação, pois uma carta de recomendação sua apenas me lembraria do meu medo e da minha cobardia, de um estado de inércia e desfalecimento, de dias vividos sem proveito, de tardes cheias de tentativas furiosas de libertação, de noites de uma nostalgia bonita mas inconsequente. Agradeço a sua intenção de me despedir de maneira amigável, isso mostra que estou diante de um homem que talvez tenha compreendido qualquer coisa daquilo que eu dsse.»
«Meu rapaz, você é demasiado violento», disse o director. «Está a enterrar o seu futuro!»
«Não quero ter um futuro, quero ter um presente. Isso parece-me ter mais valor. Só se tem um futuro quando não se tem um presente, e quem tem um presente não se lembra sequer de pensar num futuro.»
«Despeço-me de si. Receio que a sua vida venha a ser difícil. Você interessou-me, e foi por isso que ouvi o que tinha a dizer. Caso contrário, não teria perdido tanto tempo consigo. Talvez se tenha enganado no ofício que escolheu, talvez ainda venha a ser alguém. Em todo o caso, espero que as coisas lhe corram bem.»
Com um pequeno aceno de cabeça, Simon foi dispensado e depressa se encontrou lá fora, na rua.
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, página 31
"Os irmãos Tanner"
Robert Walser
Tradução de Isabel Castro Silva
Edição Relógio d'Água

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