segunda-feira, 23 de julho de 2018

-- O rei de espadas quere-me matar!

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Pouco antes das visitas chegarem, Peredonov passou revista à casa de jantar, à sala e aos quartos... Tudo se encontrava a seu gosto. Nada havia que pudesse provocar suspeitas. A maior parte dos livros estava escondida na chaminé; nas paredes viam-se quadros patrióticos e o retrato do czar. Diante das imagens ardiam lamparinas de azeite.
-- Muito bem; nem os mais desconfiados...
Depois, a sua atenção fixou-se nas cartas, postas sobre a mesa para a habitual partida. Então apanhou-as e pôs-se a examiná-las uma a uma. Os rostos das figuras contariaram-no; pareceu-lhe que o olhavam com maldade, que o escarneciam, como se estivessem no segredo de não sabia o quê. Um dos valetes sorria com a mesma insolência de Várvara.
Peredonov disse para si: «Já lhe ensinarei a meter-se onde não é chamado!»
E com uma tesoura perfurou-lhe os olhos. Depois fez o mesmo às demais figuras, ao mesmo tempo que pensava:
«Ao menos assim não poderão espiar!»
Entretanto, os convidados iam chegando. O espectro deslizava, veloz, por entre as suas pernas.
(...)
-- Quando os senhores quiserem, começaremos a partida -- disse Peredonov.
E o jogo começou imediatamente.
-- Que é isto? -- perguntou Gruchina ao reparar nas suas cartas. -- Tirarram os olhos ao meu rei!
-- E ao meu valete! -- exclamou a senhora Prepokovenskaya.
Todos os convidados celebraram com grandes risadas -- ao repararem nas suas damas, nos seus reis, nos seus valetes -- o que supunham ser uma brincadeira. Mas Peredonov permaneceu sisudo e severo.
-- Ardalion Borisovich -- comentou Várvara, sorrindo -- faz de vez em quando as suas travessuras.
-- Como te ocorreu cegar toda esta gente? -- perguntou Rutilov.
O professor respondeu:
-- As cartas não precisam de olhos. Não têm que ver...
O jogo prosseguiu.
(...)
Quando Várvara e Peredonov ficaram sós e se dispunham a deitar-se, ele imaginou que a amante o olhava de uma forma suspeita.
(...)
Seu sono foi muito agitado. Sonhou que os reis e os valetes o rodeavam, brandindo as suas espadas. Segredaram ao ouvido uns dos outros e começavam a deslizar debaixo da cama. A princípio, a sua acção não foi excessivamente atrevida; pouco a pouco, porém, tornaram-se mais insolentes, chegando a subir ao leito. Troçavam dele, piscavam-lhe os olhos, mostravam-lhe a língua.
Possuído de terror e de angústia, ele tentava afugentá-los, mascando salmos sagrados que sabia eficazes contra as forças diabólicas, agitando as mãos, ameaçando-os com gritos.
-- Que estás a falar? Porque gritas? -- perguntou Várvara encolerizada. -- Não me deixas dormir!
Ele gemeu:
-- O rei de espadas quere-me matar!
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, páginas 101-104

'A loucura de Peredonov'
Fedor Sologub
tradução de Artur Fernandes
Edição Editorial Inquérito, 1940

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