sexta-feira, 26 de outubro de 2018
Corolário meu sobre a utopia
Para quando uma utopia em que todas as pessoas, independentemente da sua religião, cor, sexo ou género, tenham uma função que gostem de praticar, sintam prazer em trabalhar nessa função e possam ser artistas no seu esforço, numa sociedade onde não haja hierarquia e as classes sejam horizontais e em que as pessoas não precisem de ser reclusas ou violentas para poder criar e viver o melhor possível entre os seus concidadãos com o pleno direito ao respeito pelas diferenças entre cada ser humano?
História das Utopias, de Lewis Mumford: duas transcrições
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Não devemos, no entanto, deixar de dar atenção a dois trechos significativos [na Cidade do Sol de Campanella]: um deles é sobre o reconhecimento do papel que a invenção pode desempenhar na commonwealth ideal. O povo da Cidade do Sol possui veículos movidos pela força do vento e barcos «que navegam sobre as águas sem remos e sem a força do vento, mas antes por meio de um engenho maravilhoso». Existe uma antecipação muito clara dos avanços da mecânica tão visíveis no século XVIII. Na parte final da narrativa do capitão, o Grão-Mestre exclama: «Ah, soubésseis o que os nossos astrólogos contam sobre a era que se avizinha, que terá mais história em cem anos do que o mundo inteiro viveu nos quatro mil anos já volvidos! O que nos dizem sobre a maravilhosa invenção da imprensa e sobre as armas e o uso do íman [...].» Estando as artes mecânicas muito desenvolvidas, o trabalho alcançou um estatuto de dignidade na Cidade do Sol: não há escravatura. Todos desempenham a sua quota-parte do trabalho comum, pelo que não são necessárias mais do que quatro horas de trabalho por dia. «São ricos porque não lhes falta nada, pobres porque nada possuem; e consequentemente, não são escravos das circunstâncias, as circunstâncias servem-nos a eles.»
O outro ponto sobre o qual a observação de Campanella se revela extremamente perspicaz é a sua análise da propriedade privada e do domicílio privado com a commonwealth. Ei-lo:
Dizem que toda a propriedade privada tem origem e se desenvolve porque cada um de nós possui casa, esposa e filhos. Isto leva ao amor-próprio, pois todos queremos deixar riquezas e honras aos nossos herdeiros. Então, ou somos tentados a deitar mão à propriedade pública -- quando somos poderosos e temidos; ou tornamo-nos avarentos, astuciosos e hipócritas -- quando somos débeis, de poucos recursos e origem humilde. Mas removido o amor-próprio, resta apenas amor pela comunidade.
Como evitar que a utopia comunitária seja neglicenciada devido ao investimento de cada indivíduo na sua pequena utopia privada?
Este é o problema crucial que todos os nossos utopistas têm de enfrentar, e Campanella segue os passos de Platão na solução proposta. Será talvez inevitável que a experiência de vida de cada um dos utopistas se reflicta na solução que apresenta, dando-lhe muito da sua cor. É aqui que as limitações dos nossos utopistas se tornam claras. More e Andreae, homens casados, defendem a família individual. Platão e Campanella, solteiros, propuseram que os homens vivessem a vida do monge ou do soldado. Talvez estes dois campos não estejam tão afastados como poderia parecer. Se adoptarmos a teoria de Edward Westermarrck, esse excelente antropólogo, facilmente aceitaremos que o casamento é uma instituição biológica, sendo a promiscuidade, no mínimo, uma forma pouco usual de acasalamento. Platão ter-se-á apercebido disto, deixando-nos em dúvida sobre se os seus artífices e lavradores paticavam de facto a comunidade de esposas -- porventura abrindo, assim, o caminho para uma solução segundo a qual a vida normal, para a maioria dos homens, seria o casamento, com os seus interesses e lealdades de natureza individual, enquanto os elementos mais activos da comunidade praticariam uma forma menos exclusiva de acasalamento. O pintor Van Gogh fornece uma pista ao afirmar que a vida sexual do artista terá que ser a do monge ou a do soldado, pois de outra forma perturba o trabalho criativo.
Podemos deixar esta questão em aberto, desde que compreendamos que todas as utopias dependem da nossa capacidade de chegar a uma solução.
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, página 92-93
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Se Coketown, a Casa Senhorial e a utopia nacional tivessem permanecido no papel, seriam indiscutivelmente contribuições agradáveis e edificantes para a nossa literatura. Infelizmente, estes mitos sociais são muito poderosos. Moldaram as nossas vidas e deram origem a muitos males que, como ervas daninhas e malcheirosos, ameaçam sufocar a vida boa nas nossas comunidades. Não é por serem utopias que tenho vindo a criticar tão afincadamente estes mitos, mas por continuarem a provocar tantos danos. Pareceu-me, por isso, que valia a pena realçar que eles são tão reais como a República ou Christianopolis. Poderemos talvez abordar as nossas instituições nacionais com um pouco mais de ânimo se nos apercebermos até que ponto são criação nossa; e com plena consciência de que, sem o nosso eterno «desejo de acreditar», elas desapareceriam como fumo levado pelo vento.
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, página 195
'História das utopias'
Lewis Mumford
edição Antígona
tradução de Isabel Donas Botto
Não devemos, no entanto, deixar de dar atenção a dois trechos significativos [na Cidade do Sol de Campanella]: um deles é sobre o reconhecimento do papel que a invenção pode desempenhar na commonwealth ideal. O povo da Cidade do Sol possui veículos movidos pela força do vento e barcos «que navegam sobre as águas sem remos e sem a força do vento, mas antes por meio de um engenho maravilhoso». Existe uma antecipação muito clara dos avanços da mecânica tão visíveis no século XVIII. Na parte final da narrativa do capitão, o Grão-Mestre exclama: «Ah, soubésseis o que os nossos astrólogos contam sobre a era que se avizinha, que terá mais história em cem anos do que o mundo inteiro viveu nos quatro mil anos já volvidos! O que nos dizem sobre a maravilhosa invenção da imprensa e sobre as armas e o uso do íman [...].» Estando as artes mecânicas muito desenvolvidas, o trabalho alcançou um estatuto de dignidade na Cidade do Sol: não há escravatura. Todos desempenham a sua quota-parte do trabalho comum, pelo que não são necessárias mais do que quatro horas de trabalho por dia. «São ricos porque não lhes falta nada, pobres porque nada possuem; e consequentemente, não são escravos das circunstâncias, as circunstâncias servem-nos a eles.»
O outro ponto sobre o qual a observação de Campanella se revela extremamente perspicaz é a sua análise da propriedade privada e do domicílio privado com a commonwealth. Ei-lo:
Dizem que toda a propriedade privada tem origem e se desenvolve porque cada um de nós possui casa, esposa e filhos. Isto leva ao amor-próprio, pois todos queremos deixar riquezas e honras aos nossos herdeiros. Então, ou somos tentados a deitar mão à propriedade pública -- quando somos poderosos e temidos; ou tornamo-nos avarentos, astuciosos e hipócritas -- quando somos débeis, de poucos recursos e origem humilde. Mas removido o amor-próprio, resta apenas amor pela comunidade.
Como evitar que a utopia comunitária seja neglicenciada devido ao investimento de cada indivíduo na sua pequena utopia privada?
Este é o problema crucial que todos os nossos utopistas têm de enfrentar, e Campanella segue os passos de Platão na solução proposta. Será talvez inevitável que a experiência de vida de cada um dos utopistas se reflicta na solução que apresenta, dando-lhe muito da sua cor. É aqui que as limitações dos nossos utopistas se tornam claras. More e Andreae, homens casados, defendem a família individual. Platão e Campanella, solteiros, propuseram que os homens vivessem a vida do monge ou do soldado. Talvez estes dois campos não estejam tão afastados como poderia parecer. Se adoptarmos a teoria de Edward Westermarrck, esse excelente antropólogo, facilmente aceitaremos que o casamento é uma instituição biológica, sendo a promiscuidade, no mínimo, uma forma pouco usual de acasalamento. Platão ter-se-á apercebido disto, deixando-nos em dúvida sobre se os seus artífices e lavradores paticavam de facto a comunidade de esposas -- porventura abrindo, assim, o caminho para uma solução segundo a qual a vida normal, para a maioria dos homens, seria o casamento, com os seus interesses e lealdades de natureza individual, enquanto os elementos mais activos da comunidade praticariam uma forma menos exclusiva de acasalamento. O pintor Van Gogh fornece uma pista ao afirmar que a vida sexual do artista terá que ser a do monge ou a do soldado, pois de outra forma perturba o trabalho criativo.
Podemos deixar esta questão em aberto, desde que compreendamos que todas as utopias dependem da nossa capacidade de chegar a uma solução.
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, página 92-93
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Se Coketown, a Casa Senhorial e a utopia nacional tivessem permanecido no papel, seriam indiscutivelmente contribuições agradáveis e edificantes para a nossa literatura. Infelizmente, estes mitos sociais são muito poderosos. Moldaram as nossas vidas e deram origem a muitos males que, como ervas daninhas e malcheirosos, ameaçam sufocar a vida boa nas nossas comunidades. Não é por serem utopias que tenho vindo a criticar tão afincadamente estes mitos, mas por continuarem a provocar tantos danos. Pareceu-me, por isso, que valia a pena realçar que eles são tão reais como a República ou Christianopolis. Poderemos talvez abordar as nossas instituições nacionais com um pouco mais de ânimo se nos apercebermos até que ponto são criação nossa; e com plena consciência de que, sem o nosso eterno «desejo de acreditar», elas desapareceriam como fumo levado pelo vento.
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, página 195
'História das utopias'
Lewis Mumford
edição Antígona
tradução de Isabel Donas Botto
quinta-feira, 25 de outubro de 2018
Sobre a utopia
No livro ‘História das Utopias’ de Lewis Mumford, escrito em 1922 e publicado pela Antígona em 2007, é dada a definição de utopia como um escape à má realidade vivida num momento presente ou como uma tentativa de criar ou reconstruir um local (geralmente uma cidade ou Estado) onde se pode viver aquilo que se chama de ‘a vida boa’.
Mumford parte da análise do livro ‘A república’ de Platão, passa por ‘Utopia’ de Thomas More, por Christianopolis de Andrea e A cidade do sol de Campanella, entre outras utopias mais recentes como as utopias de Fourier, Proudhon, Marx e alguns utópicos americanos do século XIX e também H.G.Wells com A máquina do tempo. Mumford analisa as diferentes classes sociais da sociedade utópica, o seu modo de vida, de trabalho e lazer. Esclarece que elas tentam criar uma ordem social nova, com pessoas inseridas numa comunidade ideal -- em que todos trabalham para o bem comum, tem direitos e regalias e lazeres comuns. Descreve como as utopias clássicas levaram à criação de dois conceitos como A casa senhorial (ou seja, a classe dirigente que manda e seu domicílio), Coketown (ou seja, a classe que trabalha e a cidade que os acolhe) e O Estado (sociedade império ultra-nacionalista que deve administrar o território).
Mumford faz a crítica que cada utopia foi imaginada, idealizada e escrita por um único homem, que foram utilizadas posteriormente ao longo dos tempos por grupos de pessoas que as tentaram aplicar, mas que na realidade não se conseguiram realizar por não terem em conta muitos factores: um deles é o ego de quem escreve a utopia (este tenta impor a sua ideia aos demais sem pensar que é exequível eles a aceitarem ou pensarem do mesmo modo), outro factor é o atrito entre pessoas humanas que podem não se dar bem uns com os outros e portanto dinamitar a sociedade comum, a burocracia de todos viverem regulados pelas leis da sociedade utópica, e também o papel dado a quem não adere ao ideal comum.
Assim, por exemplo, em Thomas More há escravatura, em H.G.Wells há os seres brutos que trabalham no subsolo para proporcionar a vida boa dos ‘seres escolhidos’, em Platão não há artistas.
Ou seja, eu pergunto-me o que acontece a quem não encaixa nos preceitos da sociedade utópica, quem não tem o trabalho comum ou o lazer comum, quem pensa que pode ter interesses ou gostos ou pensares diferentes do bem comum? As utopias nada falam destes tipo de pessoas mas assumo que não têm lugar na sociedade utópica, estão condenados à prisão ou a ser escravos.
No mundo real, sabendo que muito foi aproveitado de todas estas utopias para a sociedade em que vivemos, sabemos todos que quem não está encaixado em alguma nomenclatura ou classe de interesses ou associação é considerado um fora-da-lei. Uma pessoa assim por fugir à regra, à norma é considerada perigosa para a sociedade, alguém com quem deve ser dificultada a comunicação e votada se possível à indiferença e solidão.
Para quando uma utopia em que o artista não precise de ser um recluso para poder criar e viver o melhor possível entre os seus concidadãos com o pleno direito ao respeito pelas diferenças entre cada ser humano?
quarta-feira, 24 de outubro de 2018
segunda-feira, 22 de outubro de 2018
quarta-feira, 17 de outubro de 2018
Crazy
I remember when
I remember, I remember when I lost my mind
There was something so pleasant about that place
Even your emotions have an echo in so much space
And when you're out there, without care
Yeah I was out of touch
But it wasn't because I didn't know enough
I just knew too much
Does that make me crazy?
Does that make me crazy?
Does that make me crazy?
Possibly
And now that you are having the time of your life
Well think twice
That's my only advice
Come on now, who do you
Who do you, who do you
Who do you think you are?
Ha ha ha, bless your soul
You really think you're in control?
Well
I think you're crazy
I think you're crazy
I think you're crazy
Just like me
My heroes had the heart
To lose their lives out on a limb
And all I remember, is thinking
I wanna be like them
Mm hmm ever since I was little
Ever since I was little it looked like fun
And it's no coincidence I've come
And I can die when I'm done
Maybe I'm crazy
Maybe you're crazy
Maybe we're crazy
Probably ooh hmm
I remember, I remember when I lost my mind
There was something so pleasant about that place
Even your emotions have an echo in so much space
And when you're out there, without care
Yeah I was out of touch
But it wasn't because I didn't know enough
I just knew too much
Does that make me crazy?
Does that make me crazy?
Does that make me crazy?
Possibly
And now that you are having the time of your life
Well think twice
That's my only advice
Come on now, who do you
Who do you, who do you
Who do you think you are?
Ha ha ha, bless your soul
You really think you're in control?
Well
I think you're crazy
I think you're crazy
I think you're crazy
Just like me
My heroes had the heart
To lose their lives out on a limb
And all I remember, is thinking
I wanna be like them
Mm hmm ever since I was little
Ever since I was little it looked like fun
And it's no coincidence I've come
And I can die when I'm done
Maybe I'm crazy
Maybe you're crazy
Maybe we're crazy
Probably ooh hmm
As interpretações dos ouvintes aqui dentro do link:
https://songmeanings.com/songs/view/3530822107858579738/
Skeletal Famine
"Skeletal Famine"
lápis de grafite, caneta preta e tinta acrílica sobre papel
45,5cm por 37cm (com moldura)
2015
ZMB
Do mesmo caderno que contém o 'Kalashnikov Flute'
apresento-vos este trabalho terminado há poucos dias.
Este foi começado em 2002, eu estava a ler um livro
sobre a história e mitos da alquimia e tive uma imagem mental
muito vívida que resolvi ilustrar com um desenho
-- rascunho para um futuro quadro em tela ---
o mito que estava a ler.
Não me recordo agora com exactidão e
teria que passar uma semana a reler o livro para encontrar o pormenor,
mas pensemos nesta narrativa:
"No dia em que o sol e a lua se unir lado-a-lado no céu
e quando a um homem (Sísifo talvez) é-lhe eternamente devorado o fígado por um abutre
ou um doente é operado por um médico usando a máscara da peste,
aparecerá um herói ou alquimista ou Sísifo (ele-próprio) que
conseguirá quebrar a maldição do eterno retorno
simbolizado pelo fígado
eternamente regenerado eternamente consumido.
A revolução em suma."
O título deste trabalho é retirado duma frase de Peter J. Carroll:
"Contrast cordon bleu gluttony and skeletal famine"
Adenda 13 de Setembro 2015:
sempre confundi o mito de Sísifo com o de Prometeu
mas é a Prometeu que é comido o fígado:
(fotografia de época)
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