quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Re-escrevendo a história

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Por isso, digo-te irmão, esta foi uma relação frustrada que me ensinou a desistir perante um não e a dizer que. no fundo, tem de ser só quando a mulher quer. Por muito que custe à virilidade do homem, é assim que deve ser, devemos desistir da barbárie e regenerarmo-nos do erro e da pena.
Foi por isso que me apanharam, eu denunciei-me nos absurdos que fui praticando, escrevi um opúsculo gongórico que foi treslido e mal interpretado pelas autoridades e pelos paladinos que o leram, perguntaram-me nomes, apresentaram factos, perguntaram pelos meus pais, chamaram-nos às urgências da casa rosa, quem eram eles?, borrei a pintura, confundi tudo de propósito, mudei nomes, cometi excessos, mudei mesmo o género identitário dos nomes, vomitei alarvidades dada vividas por outros que orgulhosamente mas legaram, versos musicais, slogans publicitários, vozes de filmes, ama-me Ma, ama-me Jo, ama-me Ga, fui troglodita e quase violador, todas as ganzas me mandaram passsear ao verem no que me tornei ou quem eu era na realidade... e esta menina que imitava Portishead, esta Dina não era, na verdade, nada similar à primeira Dina. Essa ganza amara-me e expirara sobre mim o bafo da sabedoria e da segurança com que eu faria a Maria feliz quando ela me aparcesse, estava há muito escrito na pedra rupestre. Esta sucedânea da Maria que eu perdi, esta nova e desejada Dina não passou de rena, ganza marada a saber a acetona. Não, eu não amachadei cabeças como orgulhosamente assumi, não chutei cabeças sangrando pelos cantos mas ganhei inúmeras dores de cabeça, os sentimentos de culpa assolaram-me o miolo, a cebola como lhe chamo, a retrete, e o miolo apodreceu, a merda tornou-se carbono e depois diamante, primeiro melancólico, receoso do novo e sem vontade de conhecer o mundo real fora dos livros, depois uma abjecção cheia de desvios de personalidade, de desvios de identidade de género. Os funcionários fizeram-me a folha por fim. A universidade é uma prisão, a escola é um hospital, a prisão é um iq hospital, um wc hotel.
Dou-te a seguir um vislumbre do que foi a escola, as urgências da casa rosa:
Para se entrar no WC Hotel é necessária uma prova presencial de admissão. O ritual consiste em dizermos uma data de baboseiras e anedotas, muito alto até incomodar os restantes aspirantes e nos dizerem para falar mais baixo e nos acalmarmos.
A sala tem seis metros por três de largura. Num dos lados, existe uma janela com pequenos rectângulos de vidro e um sofá onde está pousado o jornal que leio todos os dias e o sobretudo azul que pertence a C. Na parede mais larga, estão várias estantes contendo os meus livros e frascos que poderiam ser soluções caseiras de nitroglicerina ou veneno, igualmente um aquário. Do outro lado, um quadro branco contendo uma tabela com vários nomes listados e onde a letra C aparece repetida aleatoriamente tanto como nome como apelido. Na coluna seguinte, às vezes, aparece a palavra Tribunal. A sala é alta e termina numa porta de madeira pintada de branco. Estou sentado no sofá e discurso, ou melhor, descrevo a sala e associo cada objecto a algo que conheço. Numa secretária, está sentada uma mulher atraente, de cabelos ruivos e calças pretas apertadas que ouve o que digo, às vezes noto-lhe um ar de aflição, às vezes estranheza. De pé, uma mulher de bata branca. É obviamente uma conspiração, o terrorismo psicológico que o sistema faz para, por meio de lavagem cerebral, obter a confissão da verdade. Não! Não estou interessado em confessar a verdade nem estou interessado em lavagem cerebral. Eu sei que estou a pequenos passos da cela. Só confessarei se me aplicarem o soro da verdade.
Levanto-me e continuo a descrever a sala, tentando com isto desconstruir a conspiração, aproximo-me do quadro e leio os nomes, pessoas ficcionadas eu sei e enfatizo o nome C que aparece em mais de metade das linhas. Mostro-lhes a evidência.
O tempo vai passando. A porta abre-se e vejo aqueles que colaboraram nesta conspiração. Ele olha confiante, quase cínico, agradado talvez com a minha reacção. Ela... não sei, só olho para ele. Outros aspirantes à prova de admissão, ou mesmo já caloiros de teatro, olham assustados e curiosos para dentro da sala. Quem são? Não sei dizer. Não são prisioneiros, pois senão não estariam aqui, estariam recolhidos na sua cela, serão talvez figurantes contratados pela autoridade que me interroga, serão actores para somar a tantos outros.
A certa altura, a mulher ruiva, sentada e quase chorando, diz que vou ter de levar uma injecção.
Ora aqui está! O soro, a evidência.
Grito que não tomo, querem porventura ver se tenho tatuagens no cu.
Ela e a mulher de bata branca olham-me, outra mulher mais velha aparece igualmente de bata branca. Peço um copo de água porque estou com a garganta seca de tanto falar. Esta última mulher sai e reaparece dois minutos depois produzindo um copo com água, pousa-o com cuidado na secretária enquanto eu leio o jornal.
Finalmente, pego no copo e bebo um gole. Descubro a evidência, a água tem sabor, olho e descubro na água bolhas de ar. O que puseram vocês na água?
Ouço uma voz dizendo baixinho foi por causa dos comprimidos que...
A minha voz, a minha raiva, eu acalmo-me subitamente, o que puseram no copo resulta. Decidem-se por uma injecção no ombro esquerdo e dizem-me para os acompanhar.
Entro numa sala mais ampla onde estão outros actores ou mesmo hóspedes ou mesmo prisioneiros não sei, sentados em mesas de madeira, jogam cartas.
Os hóspedes são muito interessantes!
Sento-me e olho para a televisão. Passa pouco das oito da noite, vejo no telejornal uma reportagem sobre uma greve e respectiva marcha sindical de protesto, todos vão alegres, um deles tropeça ou olha para o sapato desculpando-se por algo, assumindo algo ou tentando dizer que também tem dificuldades em comprar calçado. Não recordo a cor deste sapato.
Alguns minutos depois, dois homens de bata branca vêm ter comigo, dizendo-me para os acompanhar. No corredor longo, de um lado existem janelas, do outro lado portas pintadas de branco. Paramos numa que tem como epigrafe a palavra QI, ironizo: Coeficiente de Inteligência.
Entro, ou melhor, forçam a minha entrada. Esta sala é mais baixa e termina em duas portas, abrem uma e vê-se a escuridão. Nao quero entrar. Forcam-me, resisto, chamam reforços, serão agora talvez quatro os actores tentando segurar-me e, além disso, aquele copo de água e a dor provocada pelo torcer do braco esquerdo onde me picaram obrigam-me a entrar.
Colocam-me numa cama baixa, prendem-me os braços com algemas, vestem-me uma camisa de forças e injectam-me na veia da mão direita vários frascos de um líquido chamado Lagarctil. E afastam-se, fecham imediatamente a porta desta solitária, ironicamente chamada QI.
E esperei... senti o coração bater mais forte até me perguntar se aquele líquido venenoso me ia matar. Não sei quanto tempo aqui estive. Talvez uma noite ou uma noite dia noite. Sei que gritei e bati à porta para ir à casa de banho mas ninguém respondeu, mijei na parede como um cão.
Obviamente, este ritual destina-se a vencer o medo de morrer aprendendo a confiar nos superiores.
Quando novamente me abrem a porta para a luz do dia durante a manhã, sou convidado a sentar-me à mesa por Romeu que me apresenta o Sérgio. Romeu tem o cabelo preto e comprido, cor morena e está vestido como um guru oriental. Sérgio tem o cabelo curto e preto, piercings na orelha e no nariz, veste uma camisola vermelha. Romeu diz que Sérgio está connosco porque se tentou suicidar. Digo a Sérgio que ele deverá despejar, deitar fora toda a merda para aprender a viver.
Romeu passa os dias a escrever em folhas de papel, a desenhar com lápis de cor, a queimar as folhas com pontas de cigarro e a tentar oferecer-me estes trabalhos. Não aceito nenhum, não por não gostar mas porque ele nunca me disse o que pretende ou o que os textos pretendem significar, por isso não me mostro interessado em ler o que ele escreve.
Ao fim de alguns dias, digo-lhe que me não deve considerar nem como um professor nem como um aluno. Quanto a Sérgio, com a excepcao da primeira manhã, nunca mais o vejo.
Numa das primeiras noites, Romeu convida-me para fumar um charro e eu aceitando sigo-o até ao fundo do corredor, sentamo-nos e ele improvisa um cachimbo com prata de maço de tabaco.
Manuel está presente, é um tipo magro, alto, quase careca na casa dos trinta anos usando um bone de basebol. Está connosco porque também se tentou suicidar mas dizem as más linguas que ele o fez para poder receber um subsídio do estado. Manuel sai todas as tardes do hotel para comprar ganza e recebe com frequência a visita de duas amigas loiras, interessantes, boazonas que olham espantadas para nós, os hospedes.
O Cordeiro é um chato. Está sempre a pedir cigarros quando nem se importa de esconder o seu maço de SG Filtro. Além disso, parece um mentecapto que mente, um captomante, diz a espaços palavras que mal se compreendem e fuma cigarro atrás de cigarro. Numa das noites em que se fuma ganza, descobrimos que ele nunca experimentou. Então, Romeu e eu, concordamos em iniciá-lo nesta mesma hora nos mistérios de Eleusis. Fica romântico, profético, adivinha a desgraça de todos nós, diz que o diabo vem aí e que agora já sabe o que é ser drógado, acaba a glorificar o pai, um ex-tóxicodependente, hoje um iúpi admirado pelo seu percurso como terapeuta da fala na Sociedade Alfa Beto.
Um dia, surgem na sala de convívio três novos hóspedes. Dois deles caminham ao longo do corredor falando baixinho, enquanto que o terceiro passa duas ou três tardes a dormir. Quando este finalmente acorda, vem sentar-se a meu lado. Chama-se David e também fuma tabaco de enrolar mas tem uma técnica diferente: usa uma rede com goma para enrolar. Como tem duas, oferece-me uma delas e olha para o meu dicionário de símbolos, abre-o, lê e comenta qualquer coisa. David diz que trabalha à noite em roulotes ou vende em feiras peças da sua autoria onde utiliza peças recicladas de equipamentos mecânicos e electrónicos. Está connosco a fazer uma cura de desintoxicação de heroína. Comenta sobre um chavalo sentado atrás de nós com as mãos nos bolsos a tremer por todos os lados contra a parede.
David apresenta os seus dois amigos que também estão connosco a fazer curas de desintoxicação. João tem vinte e seis anos, é casado e pai de uma menina de seis meses com cabelos loiros como a mãe. João diz que quando sair nunca mais dará um bafo mas é interrompido pelo Paulo, desempregado, com trinta e oito anos e com aparência de gajo género relações-públicas, que ajudará Manuel a escrever um requerimento para o subsídio estatal.
Comenta ele irónico: Isso até ao momento em que pedires à mãezinha quinhentos paus para ir tomar café! Rimo-nos porque sabemos que é verdade. Todos dizem mal dos ressacados mas todos os ressacados fazem igual. David tem trinta e seis anos, está separado da terceira mulher, tem uma filha de catorze anos e diz que é descendente dos Heredia, uma família cigana de origem espanhola. Paulo é diferente, é alemão na cor da pele, tem cabelo curto, fala pouco, fuma filtro e, ao contrário de nós, não tem uma história para contar, gosta só de ouvir contar histórias. Além disso, não fuma ganza.
O clube dos fumadores é, então, composto por Romeu, Manuel, David, João, C, o noviço Cordeiro e o ouvinte Paulo. Diz-se que a ganza liberta as pessoas, é verdade, relaxa e faz dialogar.
Cordeiro expõe algumas das suas paranóias como ser virgem ao fim de quase quarenta anos, ter vontade de violar uma menina como se ela fosse uma puta. Obviamente, se assim fala, talvez se justifique a estadia neste hotel, estamos a tentar libertá-lo do fantasma, talvez nunca cometa nenhum acto violento, talvez seja só léria. Aliás, as más línguas dizem que a sua estadia aqui no WC Hotel será prolongada, uma vida inteira. Cordeiro é um menino impertinente com trinta e oito anos.
Fernando aparece de fones nos ouvidos. Pede uma passa, diz que só quer sentir o sabor do berlinde mas, hoje à noite, diz que não me empresta o walkman com música espanhola, quer sentir o sabor do charro e continuar a curtir o som.
Dias depois, sou chamado ao escritório onde me dizem que vou entrar naquilo que pode ser descrito como terapia ocupacional.
Uma bata branca acompanha-me ao local, um pequeno barracão com duas salas. A mais interessante esta, apinhada de pinturas e trabalhos gráficos, tanto homens como mulheres pintam, fazem tapetes ou colagens. No entanto, esta sala está lotada. A segunda sala mais parece uma oficina. As pessoas fazem malha, lêem o jornal, discutem política e futebol, cosem livros, fazem pequenos sacos de papel ou caixas de cartão e vêem televisão.
Sento-me e trazem folhas, lápis, etc. Decido fazer um desenho descrevendo o que vejo, a janela à minha frente não tem gradeamento e, então, esta prisão torna-se menos real e mais humana.
Passado algum tempo, entra uma mulher com muitos cabelos grisalhos e algumas rugas. Senta-se a meu lado. Cumprimentamo-nos e ela começa a interessar-se por mim, pergunta-me o nome, ela chama-se Mónica e tem quarenta e dois anos, gosta do meu desenho e diz que também desenha, passara alguns anos em Belas Artes mas não tinha concluído. Mostra-me os seus desenhos: figurações muito simples de mulheres a caneta de feltro preta e, em geral, desenhos do tamanho de uma carta de poker.
Uma mulher na idade dos vinte e tal anos, de cabelos castanhos, bata azul clara, entra indo falar com o guineense, responsável pela sala, e os seus outros compinchas que lêem o jornal. Falam do bijou dela. Ela ri-se, eu tambem me rio e digo: Ah... eu tambem gosto do bijou!
Venho a descobrir que tem um anel no dedo e que o bijou é o marido. Obviamente, não fica bem querer foder uma mulher casada e, ainda por cima, uma elegante.
Ela ignora e diz que é hora do café. Dizem-me que se deve pedir ao chefe uma ficha vermelha de plástico para depois com ela pagar a cevada. Saio com Mónica em direcção ao café.
Os empregados são simpáticos, existem batas brancas, azuis, masculinos e femininas, uma mesa de ping pong, quatro ou cinco mesas, o café cevado é uma merda.
Sentamo-nos e começamos a falar enquanto fumamos. Aborda-se os livros e os melhores autores e, já nao sei porquê, digo-lhe que o meu escritor favorito é o Jean Genet. Ela responde instintivamente com uma expressao de espanto ou choque mas sem repulsa:
Sim, a prisão é uma grande escola!
É o suficiente para já a considerar uma amiga, afinal é a minha terceira amiga que conhece ou já leu Genet.
Fala-me que é dependente de um fármaco líquido chamado Haldol, que lhe resolve um problema de saúde relacionado com os seus ossos, rigidez, tremuras do corpo. Diz também que não se considera uma condenada pois apenas vem todos os dias voluntariamente à terapia ocupacional porque quer. Além disso, o estado paga-lhe as injecções uma ou duas vezes por semana mais uma pequena pensão para a renda.
À noite antes de adormecer, esta conversa suscita-me questões metafísicas: é claro que é uma condenada, ela disse a verdade mentindo, ela sabe-o. Afinal, está dependente para toda a vida de uma droga. Porque são as pessoas boas, humildes e interessantes, aquelas que mais fazem e aquelas que mais sofrem e vivem na miséria e morrem?, a gente olha para o mundo e só vê corruptos no poder ganhando bons salários, ajudas de custo e motorista do estado, falando merda ou respondendo evasivamente em talquechuis e etc, bem... vocês conhecem a historia.
O dia sem terapia ocupacional é uma rotina e todas as rotinas são maçadoras. Acorda-se às oito, toma-se banho, pequeno almoça-se, vai-se buscar o tabaco guardado no escritório, alguns tentam endrominar o hóspede ao lado na ânsia de lhe cravar a prisca fumada de bico amarelo, lê-se o jornal, dorme-se encostado ao radiador térmico, almoça-se, vai-se buscar lume para acender os cigarros, joga-se cartas ou dominó, vê-se televisao, fuma-se cigarros, fala-se, dorme-se, janta-se às seis e vai-se para a cama às nove apòs se entregar o tabaco e sermos interrogados sobre os isqueiros que são proibidos.
Um dia, um senhor distinto por volta dos cinquenta anos aparece bem vestido com um relógio de ouro, senta-se, puxa de um cigarro, fala calmamente parecendo reflectir as palavras.
Dias mais tarde, tenta pegar fogo a si próprio na cama. Noutro dia, oferece o relógio de ouro.
Um dia, durante a tarde na terapia ocupacional, faço um desenho do qual não gosto e que Mónica acha interessante. Resolvo ir fumar um cigarro à porta do barracão. Senta-se a meu lado um rapaz da minha idade que se identifica como António.
Ele começa a falar do tio que está preso por tráfico, diz que tem um esquema para arranjar ganza, é-lhe permitido sair durante uma hora todos os dias. Não sei porque aborda este tema, talvez por eu fumar tabaco de enrolar, todas as pessoas acreditam que todas as pessoas que enrolam cigarros enrolam ganzas ou pior. E depois ele não é da minha ala, não está hospedado na mesma ala de urgência desta casa rosa, logo não pode saber do clube dos fumadores. Mesmo sabendo que é um risco, e intuindo que em cada ala deste hospital hotel rosa há um clube de fumadores, entrego-lhe quinhentos paus para a minha dose. Ele diz que às seis da tarde me dará a prenda.
É óbvio que tudo o que sei sobre o sistema prisional se torna claro quando ele só aparece no dia seguinte, parecendo ignorar o facto de eu lhe ter passado para as mãos quinhentos paus, aqui a ética não existe e nem se deve abordar o assunto.
Mais tarde, numa ida ao café a troco de uma ficha vermelha, ele aparece com um colega que despeja a sua razão em poucas palavras: Estou aqui porque atrofiei com o teatro.
António produz um charro, ou melhor, uma quase prisca, dou duas passas que não me batem, é obviamente mais um truque psicológico, primeiro roubei-te, agora faço passar-te por lorpa. Digo que me bateu.
Uma certa altura, os gerentes, contentes connosco, decidem organizar uma festa de Natal, que se revela uma verdadeira seca mas com a verídica excepcão de Sandra -- uma bailarina empregada nos serviços de limpeza do hotel, que é escultural dentro das calças de licra e que me surpreendera ao me oferecer um isqueiro com o nome terreno da minha princesa.
Durante a festa, volto a encontrar Mónica que vem acompanhada de uma amiga com boné da polícia de segurança bíblica, casaco preto de cabedal, calças de fazenda em xadrez preto e branco, botas altas e falando com autoridade.
Pergunto como lhe correm os dias e ela responde que vai melhor, acrescentando que conseguiu fazer uma exposicão breve, há quinze dias, numa associação de dissidentes sociais. Fico contente. Digo-lhe que a ruiva da secretaria me deixou ler a revista quinzenal do jornal Escândalo ontem, tento partilhar uma frase alegre, ela gosta do Saramago.
Olha, lí uma coisa que vais gostar, o Saramago foi traduzido para inglês, até vão adaptar um filme, vai-se chamar Blindness,
Sim, gostei desse mas gosto mais de O homem duplicado e de As intermitências da morte.
Ao fim de três semanas na Quinta-feira, chamam-me à secretaria e a oficial ruiva diz-me, confiante e com um sorriso nos lábios, que vou sair em precária no fim de semana para ir à casa familiar em Triza e que, depois na Segunda-feira, terei de me apresentar num novo centro de estudos vigiados, o CREeA. Apresenta-me um formulário. A partir de agora, tenho um tutor que me gerirá o dinheiro e a responsabilidade, é a ele que eu deverei imediatamente reportar quando me apear do comboio de volta a Derza.
Na Sexta-feira, o último dia da minha breve estadia no hotel, David que também conhece Mónica pergunta-me se eu sabia que ela é lésbica. Eu respondo que já desconfiava mas escondo a minha fantasia, o meu flerte com esta causa. Lá no fundo concluo: então, se ela gosta igualmente de mulheres, será sempre o melhor lado, o lado feminino da relação. Digo-lhe que vou sair depois de almoço e despeço-me com um abraço. Ele pede-me para trocarmos os contactos telefónicos e sentencia que, logo que saia, irá ao Bairro das Lagartas buscar qualquer coisa e que depois me liga para irmos à bouça fumar.
Não te preocupes, xau.
À tarde na sala da terapia ocupacional, despeço-me de Mónica, ela dá-me um dos seus desenhos esculturais e eu tento dar-lhe o meu melhor desenho, aquele que tinha feito no primeiro dia, mas o responsável impede-me e diz que tudo o que eu fiz durante a terapia ocupacional ficará arquivado para futura análise por parte dos psicólogos da instituição.
Vamos fumar um cigarro à porta do barracão. Ela menciona algo saído da boca de Mario de Sá-Carneiro como se quiseres podes vir as quintas-feiras, sinto-me perto dela, ternamente perto dela, beijamo-nos na cara e dizemos adeus.
Regresso a Triza ao fim de três semanas nesta precária de dois dias, na Segunda irei directamente para Derza e para o CREeA, onde passarei o resto do tempo de reclusão, ainda sem me terem dito o porquê de estar dentro.
No Sábado, saio de casa para ir ao café. Pensando em reler algo que escrevi, sou interrompido ao subir a rua por David que aparece num automóvel. Confia-me que saiu umas horas depois de mim, ou melhor, desistira do tratamento, talvez por não conseguir mijar para o copo de análise de urina. Resolveu logo vir procurar-me tendo entrado no meu cafe habitual e perguntado sobre a minha morada.
Decido ir com ele a um café que não costumo frequentar, conversamos durante alguns minutos e, após pagar os cafés, David convida-me a ir até sua casa. Entramos e vamos em direcção ao seu quarto.
Olho para os discos e peço para ouvir Kashmir dos Led Zeppelin, e ele, um pouco contrariado, tem um trabalho enorme para ligar os fios à tomada de electricidade por detras da estante. Diz para passarmos a outro quarto. Abre a porta e vejo dois tipos em cima da cama preparando-se para fumar pó, viram-se para David e resmungam que não querem ser incomodados. Vou sentar-me na outra cama, de costas para eles a folhear um livro do Lucky Luke, olho de relance e vejo-os a dar uma passagem muito rápida do isqueiro e algo distante da prata para queimar efectivamente a castanha.
David pergunta-me se eu vi a sua filha que acabara aparentemente de sair.
Paulo bate nesse momento à porta de entrada, conversamos um pouco na garagem e saímos na direcção de minha casa com Paulo ao volante de um Renault 19.
David pergunta-me se memorizei o caminho e eu digo que não. Além de ser muito sinuoso, não me interessa lá voltar.
Chegamos a casa e resolvo dizer a David para fazer um charro para os dois, ficando com um pico para fumar à noite.
Então, surge a evidência, um sino toca dentro da minha cabeça, David pergunta-me com um sorriso nos lábios acompanhado do sorriso de Paulo, aonde comprei eu aquele pedaço de droga, eles riem-se para tentar serem informais, amigáveis como se fôssemos amigos. Um gajo que fuma pó em casa, além de a ganza ser talvez uma coisa de chavalos e não combinar muito bem com a poeira dos grandes e este David é um grande, deve certamente saber onde se arranja a ganza. Além disso, nunca se pergunta aonde se comprou, quando muito pergunta-se se lhe podemos fazer o favor de lhe arranjar.
Então, respondo: Tenho um colega que sabe quem tem e que, às vezes, me arranja alguma.
É tempo de ir tomar o último café da reunião e, desta vez, dirigimo-nos ao meu local habitual. Paulo, antes de se levantar para pagar a despesa, sai-se com uma frase algo enigmática: tambem nós fizemos algo pelos hóspedes daquele hotel.
Despedimo-nos.
Na tarde de Domingo, lembro-me de algo que com ele queria comentar e telefono a David, Alguém atende a chamada e eu digo que sou o C, aquele que esteve com o David no hotel. Desliga-me o telemovel na cara.
Compreendo tudo, as dúvidas desfazem-se.
O Sérgio nunca se tinha tentado suicidar; o Romeu era um informador; David, Paulo e João são agentes infiltrados no hotel que permite que se fume abertamente lá dentro, apesar dos sinais para não fumadores nos corredores; David nunca foi cigano, nem tem uma filha de catorze anos. Os gajos que moram com ele não fumaram realmente castanha. Paulo, o desempregado, não apareceu por acaso no seu Renault 19. Provavelmente, a casa era um disfarce de conveniência. Andavam, isso sim, à procura de provas, à procura de uma evidência comprometedora, de uma denúncia. No entanto, como bom hedonista que aprendi a ser digo que, para o futuro, aprendi uma nova maneira de fumar um charro, recorrendo a uma vulgar maçã.
Na Segunda-feira, cansado da viagem de comboio, sou recebido pelo funcionário no CREeA, diz-me por palavras científicas que me vão estudar e que se tinham cansado de procurar debaixo da cama. Enviaram-te, rapazinho céptico e escritor desviante, para aqui. Isto já não é uma urgência de agudos. Isto é uma autêntica ilha em Derza, a verdadeira baixa da cidade, um oásis no deserto, aqui vais ser recuperado socialmente, vamos aproveitar os teus estudos académicos e vais passar mais três semestres sabáticos, vamos-te ensinar a profissão de sociólogo cibernético, não te devia dizer mas... temos uma parceria com o reactor quântico da cidade vermelha, de vez em quando irás até lá trabalhar no openspace e no gestor de conteúdos, ficarás hospedado com todas as despesas pagas, aprenderás com a nata da nata, todos os nossos professores são superiormente certificados e prepara-te para ser avaliado periodicamente em referendos internos no que toca à higiene e limpeza do alojamento, isso é indispensável ao processo de requisição da Bolsa de Sobrevivência.... mas será igualmente avaliada a tua miséria existêncial, cognitiva e sexual, a tua capacidade de desenrasca, de desengenhocas. Diz ele, depois, apresentando-me a minha nova identidade, agora sou o I com o número de identificação Id 8267. Boa merda, o mesmo é dizer, já o sabes, boa sorte, agora andamento, some-te da minha vista.
É isto irmão, termino dizendo o que depois, ao recolher ao alojamento que o tutor contratualizou com o senhorio, escrevi numa folha posteriormente rasgada com medo do cão grande: o mundo será sempre feio enquanto for habitado por humanos e as utopias foram escritas por extraterrestres. O Id, sendo aquilo que o pai Freud descreveu, é naturalmente uma besta, mal começa a gatinhar agarra-se ao varão do parque para se pôr de pé. Quer ser grande. Quer viver como os grandes. Depois, se não se consumir nas chamas do inferno que criou, envelhece facilmente em seis meses, caem-lhe os dentes todos, fica careca e político. É aí que aparece o ego que lhe diz: meu crápula ignorante, ora bamos lá a ver se tu tens um restolho de tino e me deixas pintar o teu retrato de modo a que todos te possam admirar como o mais otário ou como o mais sublime dos cônsules-do-nadistão. Por fim, vem o super-ego, que pode ser o funcionário da repartição de finanças do museu que fuma às escondidas ou a rainha de latão que anseia pelo mar enquanto manda beijinhos e mostra as nails ou esfaqueia mortos-vivos e os mete na arca congeladora, dizer: Sim, continua, tens aí material interessante, a tua vida parece um filme europeu dos bons, mereces ser divulgado, até te vou levar comigo para Vlad Moro, ocê gosta de mi não gosta? O pobre do Id, que até poupa nas telhas e as retira para que as pedras lhe caiam bem lá no fundo da consciência, perante os factos lembra-se da anedota e diz: deixa-os pousar, aprendi a fazer churrasco de urubu-vigilante-de-cabeça-preta, nome científico Coragyps atratus.
Agora, o rapazinho que eu fui está marcado para sempre, acabaram por me dizer: você é esquizofrénico e se tomar a medicação pode viver uma vida perfeitamente normal. Mas para mim, estou rotulado e marcado para sempre. Se desejei o cartão do partido PDSC agora sou membro vitalício. Irmão, vota em mim no referendo.


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