domingo, 19 de outubro de 2014

A família esotérica de mr. cool


Chet Zar’s “All Hallows’ Eve”


 Kent Williams’s “How Human of You”

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Nada sei de ti,
não sei onde moras
nem com quem conversas e bebes,
não sei de que falas
nem sei se tens blog e foto oficial,
talvez bebas água das pedras,
talvez ainda fumes tabaco e tabaco de boa qualidade,
talvez... tantos talvez e eu não sei,
tudo o que sei é aquilo que guardo,
tenho o teu coração guardado num cofre sem chave,
mas nada sei de ti,
tenho uma memória do que foi,
e tenho uma ideia do que se poderia ter tornado,
tenho esta memória e esta ideia e às vezes parece que tu me olhas
mas já foi há tanto tempo...
tento muita vez fazer sentido da minha vida e digo:
o passado fostes tu mas
mentiria se dissesse que não houve outras mulheres.
hoje não tenho nenhuma e contento-me com olhar,
não recuso um sorriso
mas não tenho feice e às vezes pesquiso nomes verdadeiros no google
para ver o que fizeram depois de mim,
eu vejo que fui quase sempre o vosso segundo homem,
'um homem que vocês amaram e com quem foderam'
eu fui aquele que tinha uma chave de saída
de um primeiro amor que vos correu mal,
uma chave para onde se prometeria numa porta um paraíso,
na realidade ao fundo do corredor estavam duas portas
e uma era a porta do meu quarto e das minhas ideias, 
a porta do inferno:
'mostrei o inferno amámo-nos e iludimo-nos com paraísos coisas e momentos belos'
tudo numa mesma frase,
eu fiz da nossa vida um livro com muitas clareiras,
como foi a vida com todas vós:
uma frase que começa com um momento de redenção e amplexo sexual
e termina com ciúme e maus olhados,
com livros que só fizeram sentido quando a história se cumpriu,
eu primeiro deixei-te como deixei as outras,
algumas das vezes eu voltava ou vocês vinham de novo à procura
e de novo acreditávamos que seria possível,
e a vós voltei porque vi que vocês não desistiam de mim,
'não deve ser só necessidade, deve ser desejo, amor'
e aceitei-vos de volta,
fazendo concessões, aceitando compromissos, anulando a própria vontade,
fazíamos amor tomávamos notas na agenda daquilo que teria de ser feito
e sempre ao fundo do corredor aquela porta que estava sempre aberta,
era a porta do inferno,
eu às vezes entrava e via através dos livros de livre vontade,
outras vezes vocês com os vossos olhos com as ideias pelas quais lutavam...
outras vezes vocês me levavam lá,
era o meu refúgio,
era com a solidão do meu inferno que eu vos traía com sucesso,
quase nunca vos traí com o desejo por outras mulheres
e o meu inferno era vocês não acreditarem 
ser possível trair-vos por um desejo de ficar sozinho,
o meu inferno teve vários nomes ao longo das décadas,
chamou-se casa, covil, castelo, anexo e 
nunca foi debaixo da ponte, por estranho que pareça.
sei que houve quem o desejou,
sei que houve quem foi à bruxa saber do futuro,
eu próprio ofereci de vez em quando
livros e bonecas vudu como presente de aniversário,
até que vocês se fartaram das minhas ideias e de mim, 
deixaram de insistir
e eu notei o vosso sentimento e abdiquei,
eu próprio senti pontadas agudas e quase sufoquei sozinho sem ar,
eu próprio recusei e fui recusado quando tentei voltar,
sofri e fiz sofrer, eu próprio abdiquei,
eu fui o segundo, o vosso segundo foi um náufrago,
o vosso terceiro deu-vos talvez conforto, estabilidade no futuro,
o meu futuro foi ficar para trás, só com frases como:
cada um em instantes diferentes ao longo destes anos mandou o outro embora.
quero agora não branquear e dizer que a culpa foi sempre dos dois,
mas quem quebrou? eu quebrei, explodi, tornei-me incómodo.
todas vocês sofreram mas ficaram bem no fim, depois de mim
abriram uma outra porta,
construíram carreira, construíram famílias.
devo estar em poucos álbuns de fotografias.
talvez algumas de vós leiam as mentiras que escrevo 
e não gostem por saberem que certas vezes não foi bem assim
ou foi assim com uma outra que não tu.
talvez gostem ao menos de olhar no que me tornei hoje: a minha pintura,
talvez queiram voltar,
mas eu do passado até o vosso rosto esqueci,
duvido quando vejo alguém parecido com 'aquela com quem eu um dia estive'
e talvez até nem valha a pena voltar a insistir com o passado,
não só por duvidar se és mesmo tu mas
há cicatrizes e rugas e há um amor que já não tem a inocência dos vinte anos,
o passado talvez se tenha esgotado,
a única coisa que continuo a ter para vos oferecer sou eu
e eu sou pouco para o que vocês desejaram que eu pudesse ser,
convosco.
em certas alturas 
fui verdadeiro na forma como tentei viver e representar os bons momentos,
é tudo o que tenho, 
saber enfim que também fui uma espécie de professor,
apesar da nula educação prática que recebi em casa e na escola,
saber que tentei explicar-vos o meu mundo,
saber que vos mostrei o que também em vós não era saudável,
saber que vos tornei água potável ao beber a vossa doença,
saber que vos ensinei a mudar para uma vida melhor,
saber que também tive rosas no meu mar,
saber que tento hoje pintar o mundo em que vivo,
o melhor que posso. é esse o futuro,
o meu futuro é pintar
este absurdo de estar plantado como curiosidade nesta sociedade,
a minha técnica é não ter técnica e apenas uma vontade de tentar,
a cada momento existir
e voltar para o quarto com ideias para quadros bonitos. 
e quem sabe talvez encontre alguém que me queira de novo.

'A família esotérica de mr. Cool'
desenho de ZMB

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