quinta-feira, 20 de novembro de 2014

'O meu filho há-de ser um senhor!', diz um esquecido de deus

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- Por que me perguntas isso? Vês ali o garoto? Vês o molho de trevo? Ele queria um carneiro para a festa. Disse-lhe que éramos pobres. começou a chorar. E então pensei: eis-me chegado ao fundo da miséria. Depois voltei a pensar no crime de Saadi. Torturava-me, agarrava-se ao meu corpo. Foi nesse momento que passou o guarda Gohloche e me contou a história dos varredores. A princípio, não percebi nada. Depois tentei compreender. Sentia-me arrancado do fundo da minha miséria pela acção desses homens, e a sua coragem dava-me forças, e sentia despertar em mim o gosto de viver. Nao sei como explicar-te. Já sou velho, e tudo isso nasceu em mim esta noite.
- Chaktour, meu irmão -, disse Haroussi, - acabo de sair da prisão e garanto-te que estou muito cansado. Já não compreendo nada. Mas apesar de tudo vou dizer-te uma coisa. Há pouco mostraste-me o rapaz e o molho de trevo para me atrair junto do teu coração doente. Agora repara no domador de macacos, lá adiante, ao lado da sua cabana. Estás a vê-lo? Não é meu filho: é um filho da puta,, mas cada vez que me acontecesse encontrá-lo desencadeia em mim sempre o mesmo pensamento: porque não há domadores de homens? Se houvesse, talvez fosse possível saber o que podem fazer os homens.
- Eu sei o que podem fazer -, disse Chaktour.
- Então diz-me.
- Só o sei desde esta noite.
- Não importa. Diz-me.
- Os homens podem envenenar as mulheres, e também podem revoltar-se e espancar o capataz.
- Isso não explica nada.
- Explica tudo. Agora vejo as coisas com clareza que chego a ter medo. A culpa é deste molho de trevo. Estava deitado na minha miséria, sufocado por ela, e não me passava pela cabeça rejeitá-la. Não entendia a vida sem a sua presença. E eis que a criança chega com um molho de trevo, e a miséria torna-se de repente insuportável. Sofro como um homem queimado e a quem arrancaram os olhos para que não possa ver nada à sua volta. Um molho de trevo e era-me revelado o sentido de uma outra vida.
- Que vida?
- Não sei. Há no ar coisas que se anunciam e me dizem que o nosso sangue ainda não arrefeceu por completo. Ainda dispomos de muito calor, de muita vida. Um calor capaz de milagres.
- Vais abrir banca de bruxo?
- Não, eu não. Olha para aquele garoto a chorar. Com certeza que tem frio. Não tem nada por baixo da túnica. E desde manhã que ainda não comeu nada. Mas é ele o fazedor de milagres. É ele o bruxo de amanhã. Há pouco, completamente abatido na minha oficina, perguntava: quem salvará o menino? Pois bem, o menino salvar-se-á sozinho. Não aceitará a pesada herança da nossa miséria. Terá braços suficientemente fortes para se defender. Eis o que o ar anuncia à nossa volta. Escuta, Haroussi...
Sobreveio um silêncio que se estendeu muito longe, até ao fundo das vielas lamacentas. O vento tinha deixado de soprar. A miséria do mundo chegava ao fim do seu destino.
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, página 80

'Os homens esquecidos de Deus'
Albert Cossery
edição Antígona

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