quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Scuascraamo


'Scuascraamo'
óleo sobre tela
40cm por 40cm
2000 - 2014
ZMB 

Este quadro faz parte da exposição actualmente a decorrer 
na Casa da Horta.
Estou a colocar aqui nesta etiqueta os onze quadros expostos:

Este quadro é uma representação visual de um poema com o mesmo título.
Escrevi este poema por alturas de 1993/1994 debaixo do meu primeiro pseudónimo: Zombie,
foi publicado originalmente num folhetim em papel chamado Airf Auga 
lançado em Aveiro pelas Produções Ganza.
Viria mais tarde a ser incorporado num capítulo do livro Kcoillapso de Claudio Mur, 
eu próprio as Edições Cassiber.

'
Senta-te em cima de um penhasco
e pensa
Convolui-te com a tua mente
Ultrapassa a fronteira
Atira-te
e recorda
Sente os teus conhecidos
Chorando por ti rezando pela tua alma
Recorda o teu passado
pensa nas boas e más acções
Admira os teus momentos de felicidade
e chora
A sorte não te premiou como devia
Mas não te esqueças
Os mortos também dançam
'

É sempre fácil a posteriori arranjar explicações para os factos ocorridos.
São às vezes estas construções da mente que ordenam causas e eventos numa lógica que faz sentido ou aonde às vezes o mínimo grão de impureza na realidade, na verdade dos factos ocorridos, reforça a lógica. Mesmo que esta seja absurda faz sentido.

Facto 1: escrevi este poema ao ouvir as primeiras três faixas do álbum 'Spleen and Ideal' dos Dead Can Dance.
Interpretação: 'tás a cometer um homicídio por incitares ao suicídio. é como te dizerem 'então mata-te'

Facto 2: nunca tive atitudes homicidas, sou mais de prevenir qualquer probabilidade de luta, às vezes calando-me às vezes vindo-me embora para ficar sozinho. quando estou sozinho imagino-me em cima do penhasco a gritar o seu nome.
Interpretação: o que te falta é foderes a tromba ao próximo palhaço que se aproximar de ti!

Facto 3: escrevi a imaginação de um suicídio por interpretação textual do som vindo dos headphones.
Interpretação: as palavras anunciavam que iam deixar de ter valor, era preciso agir, passar das palavras aos actos, não é isso a revolução?

 Facto 4: a minha psiquiatra diz que as causas da minha esquizofrenia são um mix e que é sem dúvida uma construção a posteriori o facto de pensar que me matei para ter matéria para escrever,
Interpretação: então eu disse-lhe que antes de me atirar já eu escrevia sobre loucura e suicidío e causas sociais, estudantis, amorosas, familiares... é como se houvesse uma maldição tornada real, como se eu prevesse o destino.

Facto 4: eu sobrevivi a atirar-me de um comboio em andamento em plena noite de janeiro, cai na escuridão de um monte de silvas e poucas pedras, foi a minha sorte. não sei quantos segundos estive de olhos fechados, quero dizer que houve um blackout momentâneo, depois abri os olhos e vi as estrelas e fui introduzido lentamente ao longo dos anos no sistema.
Interpretação: ao teres ganho coragem para te atirares para um escuro aleatório, ao desejares a morte até esta te foi negada, foi preciso lidar com o supremo falhanço.

Os dias de hoje: estou vivo, sobre vivo ou morto vivo eu sangro todos os dias lentamente mas não morro hei-de morrer um dia mas não amanhã e enquanto estiver vivo hei-de viver o melhor de todos os possíveis que conseguir atrasando o sangrar, apressando a cura acredito que quando o dia chegar hei-de estar vermelho que nem um cravo, até lá estarei curado porque sei o que não quero para mim.

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