terça-feira, 14 de abril de 2015

As aventuras laborais de Mr.Cool

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Hoje acordei às 06h30 da manhã. Regresso ao trabalho às 08h30. Todos os meus colegas apareceram. Chegou também o Júlio Tremidinho, o sócio-patrão. Disse-me que tinha umas folhas para eu assinar.
Da parte da tarde chamou-me ao escritório. Repetiu que tinha as folhas para eu assinar, as mesmas que queria que eu assinasse antes das férias. Perguntei-lhe pelo subsídio de férias. Ele respondeu: «Depois a A- paga-lhe.» As folhas para assinar eram da segurança social, para oficializar a minha inscrição pela C- na segurança social. Eu respondi-lhe que antes de assinar qualquer coisa que se referisse a uma transferência de posto de trabalho da empresa A- para a empresa C-, queria falar também com o senhor A., o sócio conjunto das duas empresas. O Júlio Tremidinho diz-me que só falarei com ele próprio e mais ninguém. Depois tentei dizer-lhe que precisava de uma declaração ou novo contrato de trabalho em que se especificasse que os meus direitos laborais, créditos e antiguidade na empresa A- fossem transferidos para a empresa C-, dado que era isso que se tratava, uma transferência de uma empresa para a outra tendo estas em comum o mesmo sócio, o senhor A.. Ele não me deixou acabar de dizer isto, disse apenas: «Ou assina ou faz a trouxa.» Eu como funcionário da empresa A- e tendo estado emprestado pelo sócio comum à empresa C- nos últimos meses, saí do armazém após esta conversa, virei à esquerda, caminhei trinta metros e entrei no armazém da empresa A-. Pedi para falar com os patrões. Telefonou-se para eles, expliquei o que se passava e eles disseram que os meus colegas não tinham pedido essa declaração (os três colegas que assinaram os papéis de transferência de empregador na segurança social), por fim disseram: «Ou termina o dia na C- ou venha cá amanhã às onze horas.» Vim-me embora e fui à loja do cidadão, ao Idict e eles disseram que não me podem despedir, o meu contrato actual é com a empresa A-, confirmam que tenho razão quando peço um novo contrato, quando me posso recusar a ser emprestado entre empresas. Dizem-me que eu posso tentar amanhã às onze dizer-lhes entre linhas: «Se chamo a inspecção das condições de trabalho vocês entram pela madeira dentro.»
Agora são oito horas da noite, estou no quarto da pensão, acabei de fazer o resumo do meu primeiro dia de trabalho após três semanas de férias, não recebi ainda o subsídio, querem mudar-me de empresa sem me pagarem os direitos laborais por ano e meio de trabalho na empresa A-. Mas a autoridade para as condições de trabalho dá-me razão. Ameaçam despedir-me se eu não assinar à força umas folhas que me prejudicam. Estou agora mais calmo, acabei de fumar um charro, já tomei café, decido começar a escrever neste caderno uma epístola (longe vão os tempos das cartas-bomba) à gerência da empresa A-:
«Dona A., antes de mais quero dizer que preciso deste trabalho, não quero ser despedido nem me quero despedir. Se estou bem tanto a nível psicológico como a nível económico (é claro que sou modesto) é devido a este trabalho, é devido à oportunidade que me deram. Dito isto, sempre fui, acho eu, um bom trabalhador, um trabalhador que suplantou a sua falta de experiência com motivação, entrega e perfeição, nunca causei problemas a ninguém, nem alinhei nos 'contos e ditos' que se praticam entre os colegas de trabalho e a secretária da direcção que depois lhe espeta a si todos esses contos e ditos nas suas orelhas quentes. Fui bem tratado por todos até ao momento de entrada em cena do tremidinho. Confio na sua palavra mas não confio na palavra do tremidinho. É preciso lembrar que quando me pagaram o salário de Julho, o sócio conjunto disse que a C- podia fechar ou então o tremidinho passar a ser o único sócio. Não vejo qualquer problema em ser transferido dado que um papel seja assinado em que me garantam os meus direitos, mas se o tremidinho não quer assinar esse papel é porque de algum modo me quer empurrar para a porta de saída sem nunca pagar nada. Junta-se a isso que os meus colegas que assinaram a transferência e a eles coisas de boca lhes foram prometidas e ainda nada obtiveram. Não vejo como comigo seria diferente. Peço por isso a minha integração, o meu regresso à empresa A- pois não acho que possa haver justa causa para rescisão nem motivo para processo disciplinar, peço portanto que me dêem o meu trabalho de volta.»
Termino a epístola. Agora vou fumar mais um charro, ler um pouco e adormecer. 
Amanhã às onze a guerra pelo emprego tem nova batalha no armazém A. 
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Claudio Mur

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