sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025
Notícias na rádio
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025
O marido foi enganado pelo patrão português em França
Sete da manhã. Daí a meia-hora termina o turno e passa as contas à dona Mari.
Entretanto, do quarto ao lado da recepção sai para o trabalho a dona Ana. Clemente pede-lhe desculpa pelo barulho.
-- Sim... foi por volta das duas e meia, o que aconteceu?
Clemente explica. Dona Ana diz: -- O diálogo eu não ouvi, ouvi só o estrondo da porta, foi aí que acordei, depois não dormi mais.
Clemente volta a pedir desculpa, diz que o hóspede indesejável forçou a entrada. Dona Ana diz que está com pressa para não perder o autocarro e sai.
Dona Mari chega, verifica as contas com Clemente e este sai do turno e dirige-se para a paragem do autocarro fumando um charro. Na pastelaria escreve a mensagem aos pais que não envia logo, come o habitual queque e bebe o habitual galão morno e vê outra Ana entrar na pastelaria.
Ana vem sem casaco. Clemente repara nisso. Pensa: «Olha, a Ana já não está a morar com o filho, também ele a pôs na rua, agora está sem casaco e está a chover, e se eu lhe pagasse a despesa aqui e agora?»
Mas Clemente vê que Ana paga logo com uma nota de cinco euros a meia-de-leite que pediu. Clemente sossega um pouco mas está preocupado. Ana vive na rua desde que a puseram fora de casa, ela antes entregava a sua pensão de viuvez como caução numa casa onde cuidava de um senhora diabética e em cadeira de rodas. Nunca Clemente percebeu como Ana parecia pagar para trabalhar em troca de um sofá para dormir. Depois, essa senhora e os filhos puseram-na a morar na rua porque, ao que parece uma mentira, a Ana deixou queimar com água escaldada os dedos dos pés da idosa diabética. Os diabéticos perdem a sensibilidade cutânea nos dedos inferiores.
«Agora, até o filho se desfez da mãe, miséria!», pensa Clemente saindo da pastelaria e esboçando um sorriso para Ana que está junto à porta de saída, olha para ele e não lhe responde, faz mesmo cara feia.
«Porque será que ela faz sempre trombas para mim? Deixá-la! Lá terá as suas razões.»
Pelo caminho, vem a pensar que a dona Ana do hotel não ficará muitos mais dias no Tijuana, ela hoje de manhã também lhe fez cara feia, até já se queixou à patroa do barulho na recepção à noite.
Clemente chega a casa, verifica se os pais estão a dormir, vai ao wc e deixa a camisa, deixa na cozinha o pão fresco para os pais e desce para o anexo junto ao quintal, onde ele dorme e tem os seus discos e livros. Fuma mais um charro e pensa em escrever esta história «eu devia escrevê-la senão esquecer-me-ei dela, é uma boa história, tem o seu quê de irreal, de inverosímil... mas não estou aflito nem sinto necessidade em escrevê-la já por não conseguir dormir a pensar nela, até acho que no final me saí bem e como me saí bem não tenho insónia hoje, afinal dói-me o corpo todo, tenho os joelhos em ferida, vou masé dormir, depois... um dia destes logo vejo se escrevo.
Clemente adormece. À uma e meia acorda e vai almoçar. Os pais não dizem nada. Pergunta à mãe se o pai lhe contou o sucedido e acaba a explicar tudo.
A mãe diz que vai usar água oxigenada nas nódoas da camisa. Clemente desconfia do resultado final e pensa em comprar outra camisa branca. A mãe pergunta-lhe como se sente e ele diz:
-- Sinto o corpo partido, estou como se tivesse jogado futebol na praceta depois de uma temporada sem pegar numa bola, tu sabes mãe que eu sou sedentário e também não vou ao ginásio, eu ontem em quatro ou cinco minutos fiz o esforço que o Rónaldo faria se falhasse o pontapé de bicicleta por não ter feito a pré-época, ele cairia no chão e partir-se-ia todo, quero dizer, não se assustem, não tenho ossos partidos, estou como quando fui de bicicleta a Ermesinde vender uns fanzines e voltei e fiquei sem fôlego e sem músculo nas pernas e tive de parar antes do fim da subida ainda longe do Pingo Doce.
-- Devias ir fazer um raio x, diz-lhe o pai.
-- Não, não é necessário. Se tivesse alguma coisa partida estaria aqui a gemer e nem a morfina me aguentaria, teria de ir a um hospital de urgência. Ainda assim, logo tenho de ir trabalhar.
Clemente diz isso e a mãe aponta-lhe uma laranja para sobremesa. A mãe está sempre preocupada com o filho. Se o filho comer, metade dos problemas da mãe cessam. Ele às vezes protesta de ser alvo de tanta protecção de uma mãe-galinha, diz:
-- Tanta gente a passar fome no mundo e tu aqui preocupada com eu comer a sobremesa!, olha, mais preocupante foi ter visto a Ana na pastelaria num dia de chuva e ela sem casaco, o filho pô-la fora de casa, foi?
-- Olha não sei, a última coisa que soube foi que ela fugiu do hospital para onde a levaram para a abrigar, parece que ela tinha sarna.
-- Mãe, ela não é doente mental, não tem de ir para um hospital, têm é de lhe arranjar um quarto. Por exemplo, lá no Tijuana, temos agora um casal com uma senhora grávida, o marido foi enganado pelo patrão português em França, este não lhe pagou, chegou o dia de pagar a renda e não havia dinheiro, o senhorio pô-los na rua, o patrão deu-lhe cem euros que nem para um bilhete de autocarro de regresso a Portugal dá, e eles, sei lá como, embarcaram os dois num autocarro em Galieni e desembarcaram na praça da igreja, dirigiram-se à igreja e pediram ajuda, a igreja tem estado a pagar-lhes a estadia no Tijuana. É isso que têm de fazer com a Ana, arranjar-lhe um quarto!
-- Tens razão, filho.
-- Bem, vou para baixo descansar.
Clemente desce para o anexo e pensa no bom que seria ficar hoje sem ir trabalhar. Amanhã de tarde tem consulta de psiquiatria e vai ser tudo a correr. Telefona ao patrão mas este diz-lhe que não pode ser.
Então, à noite, ao chegar ao hotel, a patroa diz-lhe:
-- Você quase que foi roubado ontem, eu hoje nos Correios deixei ficar lá o meu telemóvel e quem veio depois ficou com ele.
-- Peça para bloquear o número.
- Sim, já fiz, vou agora à loja pedir uma segunda via do cartão, Até amanhã, senhor Rogério.
-- Até amanhã, dona A.
sábado, 22 de fevereiro de 2025
Uma bengala feita de fios de cobre torcidos
A troca de palavras com o pai ocorreu umas horas antes de Clemente sair novamente para o trabalho. Nesse dia, Clemente não tinha lá muita vontade de ir vergar a mola. Acordara às duas da tarde com o corpo dorido da noite de trabalho que tinha sido problemática. Almoçou com os pais, e pediu à mãe para lhe tentar lavar a camisa branca de serviço que tinha salpicos de sangue nos braços e no bolso. Ainda bem que ele tem uma camisa branca suplente. Tomou café e voltou para o seu quarto. Pensou em ligar ao patrão, ligou:
-- Sr. A, acordei agora, dói-me o corpo todo...
Ele adivinhando interrompe: -- Ó sr. Rogério, veja lá. faça um esforço.
--Sr. A, doem-me as costas, eu ontem na bulha bati com as costas no paralelo, tenho o joelho todo esfolado, tenho uma grande nódoa negra no braço... não me pode dar folga hoje à noite?
-- Sr. Rogério, veja lá, tome um Benuron, eu não tenho quem o substitua...
-- Não pode chamar a dona Fábia?
-- Não, porque ela amanhã vai fazer a folga da dona Estrela, vá lá, faça um esforço.
Clemente pensou: «Apesar de ter o corpo dorido, tenho a cabeça limpa, enfim... lá se foi a minha tentativa, que ninguém diga que não era justa...» e assegurou ao patrão que iria trabalhar. Ficou a pensar: «Ele chamou-me Rogério, ora isso significa que eu só sou clemente na minha imaginação, e esta ei?»
Então, de que se tratava afinal a situação? O que se passara com Clemente para ele, sempre tão cumpridor do seu dever, querer fazer gazeta? Cheiro enxofre mas não será perfume? Canal número 9 ou Luís Vitinho?
Bem, como ele escreveu numa mensagem por telemóvel ao pai logo às oito da manhã na padaria tomando o pequeno-almoço: «Tive uma bulha com um cliente indesejável esta noite. Tenho sangue na camisa. Pede à mãe se ela ma pode lavar. Eu estou bem. Vou dormir.»
Escreveu a mensagem na padaria mas só a enviou ao chegar a casa e depois de verificar que os pais estavam a dormir, para que eles não acordassem antes dele chegar a casa e ficassem alarmados ao ler a mensagem antes dele chegar. Foi à casa de banho, tirou a camisa e pôs no cesto da roupa suja. Saiu e desceu a escada para o anexo.
A coisa aconteceu deviam ser duas da manhã. Não estava a ter especial trabalho até aí. Tinha dois quartos livres que poderia alugar e estando tudo o mais feito e concluído igualmente o trabalho de secretaria, Clemente tinha-se posto a descansar. Às duas e pouco a campainha toca.
Era o Hélder, um cliente que já dera problemas. Clemente tinha ordens para não lhe alugar quarto.
Clemente disse: -- Estamos cheios.
-- Não acredito.
E forçou a entrada.
-- Estamos cheios.
-- Ora deixe-me ver a folha de serviço.
-- Estamos cheios, já lhe disse.
-- Sempre que eu venho aqui, você diz que estão cheios! Dê-me o livro de reclamações.
-- Já lhe disse que estamos cheios.
-- Quer que eu acorde toda a gente? Quer que eu o parta todo aqui?
-- Vou chamar a polícia.
Aqui, Clemente sai da porta de entrada e entra na sala da recepção onde está o telefone. Hélder vem atrás dele. Quando Clemente se aproxima do balcão onde está o telefone, Hélder que vinha atrás repara na mochila do Clemente ao lado do sofá de descanso e vê uma carteira lá dentro. Tira-a e sai a correr porta fora.
Clemente pousa o bocal do telefone e sai a correr atrás dele. Salta as escadas da entrada e acabam os dois no chão da rua, no meio da rua rebolam um em cima do outro.
Dez, vinte segundos depois está Clemente por baixo agarrando-se à camisola de Hélder para não o deixar fugir. Clemente está claramente derrotado mas firme. Puxa a camisola de Hélder e ameaçando: -- A minha carteira, a minha carteira?
-- Está ali. Diz o Hélder.
Clemente olha, situa a carteira no seu campo visual e quando a vê afrouxa as mãos, larga a camisola de Hélder, quer levantar-se e ir buscar a carteira. Aqu, Hélder é mais rápido e recupera a carteira e larga a correr. Clemente derrotado e desesperado grita para Hélder: -- A minha carteira, os meus documentos...
Aqui, Hélder ganha talvez consciência e pára no passeio, revista a carteira e não vendo dinheiro, devolve a carteira em mão a Clemente que entretanto tinha conseguido chegar perto dele. Clemente nada diz e volta para dentro do Tijuana.
Verifica que tem sangue na mão, apalpa o joelho, chupa o sangue da mão e deita-se no sofá a arfar, dói-lhe ao respirar. E adormece.
Às cinco e meia acorda, verifica a mão, vai lavá-la e a ferida mal cicatrizada começa a jorrar outra vez, é um pequeno arranhão, acaba a sujar de sangue o bolso da camisa onde guarda os cigarros. Fuma um cigarro coo se nada de anormal se tivesse passado mas no entanto pensa: «Se tivesse recebido ontem à noite como era para receber, teria sido roubado.»
Quando o patrão chega às seis e meia, Clemente conta tudo. Ele alarmado pergunta se ele já desinfectou a ferida e mostra-lhe o kit de primeiros-socorros, diz que a partir de hoje a porta de vidro vai estar sempre fechada para que Clemente possa controlar melhor quem chega, diz:
-- Ainda bem que você não teve medo...
-- Ó sr. A, eu tinha de ir atrás dele senão ele deitava a carteira num bueiro ou no lixo e depois eu iria ter de tirar novos documentos, era uma carga de trabalhos, fiz o que tinha a fazer. De qualquer modo, ele era vinte anos mais novo que eu, logo mais forte, se ele me quisesse bater ele tinha batido mas ele só queria dormir. Como eu lhe disse que desde a última vez em que foi necessário chamar a polícia para o tirar do quarto porque ele não tinha pago e se preparava para mais uma noite sem pagar: «desde essa noite que tenho ordens para não o deixar entrar», foi o que eu lhe disse, ele reagiu mal, quis-me roubar.
-- A droga... sabe, a droga faz destas coisas.
Eu não respondi mas não tinha nada a ver com droga ou álcool. Hélder estava perfeitamente sóbrio, foi mais aquele sentimento que eu próprio já tinha escrito como um desabafo: «às vezes, a gente rouba quem não aceita a nossa moeda.»
O patrão acaba por dizer antes de se ir embora: -- Olhe aqui esta bengala, é feita de fios de cobre torcidos.
Clemente olha e vê e mal pensa em usar aquilo para se defender.
Sete da manhã. Daí a meia-hora termina o turno e passa as contas à dona Mari.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025
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A troca de palavras com o pai ocorreu umas horas antes de Clemente sair novamente para o trabalho. Nesse dia, Clemente não tinha lá muita vontade de ir vergar a mola. Acordara às duas da tarde com o corpo dorido da noite de trabalho que tinha sido problemática. Almoçou com os pais, e pediu à mãe para lhe tentar lavar a camisa branca de serviço que tinha salpicos de sangue nos braços e no bolso. Ainda bem que ele tem uma camisa branca suplente. Tomou café e voltou para o seu quarto. Pensou em ligar ao patrão, ligou:
-- Sr. A, acordei agora, dói-me o corpo todo...
Ele adivinhando interrompe: -- Ó sr. Rogério, veja lá. faça um esforço.
--Sr. A, doem-me as costas, eu ontem na bulha bati com as costas no paralelo, tenho o joelho todo esfolado, tenho uma grande nódoa negra no braço... não me pode dar folga hoje à noite?
-- Sr. Rogério, veja lá, tome um Benuron, eu não tenho quem o substitua...
-- Não pode chamar a dona Fábia?
-- Não, porque ela amanhã vai fazer a folga da dona Estrela, vá lá, faça um esforço.
Clemente pensou: «Apesar de ter o corpo dorido, tenho a cabeça limpa, enfim... lá se foi a minha tentativa, que ninguém diga que não era justa...» e assegurou ao patrão que iria trabalhar. Ficou a pensar: «Ele chamou-me Rogério, ora isso significa que eu só sou clemente na minha imaginação, e esta ei?»
Então, de que se tratava afinal a situação? O que se passara com Clemente para ele, sempre tão cumpridor do seu dever, querer fazer gazeta? Cheiro enxofre mas não será perfume? Canal número 9 ou Luís Vitinho?
Bem, como ele escreveu numa mensagem por telemóvel ao pai logo às oito da manhã na padaria tomando o pequeno-almoço: «Tive uma bulha com um cliente indesejável esta noite. Tenho sangue na camisa. Pede à mãe se ela ma pode lavar. Eu estou bem. Vou dormir.»
Escreveu a mensagem na padaria mas só a enviou ao chegar a casa e depois de verificar que os pais estavam a dormir, para que eles não acordassem antes dele chegar a casa e ficassem alarmados ao ler a mensagem antes dele chegar. Foi à casa de banho, tirou a camisa e pôs no cesto da roupa suja. Saiu e desceu a escada para o anexo.
A coisa aconteceu deviam ser duas da manhã.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025
Im losing my mind
Rogério gosta de se mitificar e inventar personagens e desdobrar a sua identidade, falar de si na terceira pessoa. Rogério acaba de decretar que neste texto ele se chama Clemente, o mafioso don Clemente.
Clemente anda feliz da vida. Nunca soube porquê mas ele parece ser um barómetro da sociedade, um reflexo, mesmo uma balança: se anda deprimido o mundo entra em recessão económica e a pobreza abunda, o crime alastra, vêem-se lágrimas de aflição nas mães, as famílias são postas no olho da rua; se anda alegre a corrupção instala-se ao mais alto nível e toda a gente ganha o seu pedaço, cervejas e bombons são oferecidos e todas as amantes inauguram o apartamento, Clemente vê toda a gente rir da palhaçada.
Mas
isso mudou, Clemente continua feliz da vida desde que voltou como filho pródigo para Tintus Rius, mas a sua relação com a sociedade começou a desfasar e a entrar em contraciclo. Expliquemos Clemente.
Clemente mantém um emprego, fez a semana passada doze meses. Deixou de ter preocupações económicas pois não paga renda e a comida é-lhe oferecida pela arte da mãe ou mesmo do pai, pode mandar vir três e quatro discos através da net e pagar vinte euros de portes, ele não se importa, nem se importa de pagar dez euros aos ctt pelo serviço de apresentação do disco na alfândega nem o iva a 23% sobre o serviço de apresentação, serviço que é um eufemismo para quando os funcionários da alfândega escolhem a nossa encomenda para pagar no meio de tantas outras, não se importa, porque diz que o dinheiro é para se gastar. Por isso, é que digo que ele está em contraciclo, há quem fique sem-abrigo ou seja obrigado a ficar no sítio onde está, forçado e a contragosto porque não tem alternativa. Clemente está bem instalado em casa dos pais.
O pai está na cozinha a fazer uma sopa com batata vermelha, corgete, alho francês, nabo, chuchu, cenoura e feijão, uma sopa tão boa que equivale a duas pints num bar irlandês. O pai vira-se para o filho e diz:
-- Clemente, fui há bocado à garagem como me viste tu do anexo porque deixas a cortina aberta e não pude deixar de ouvir aquele barulho... Clemente, desculpa lá, mas aquilo não é música!
Clemente ri-se e responde: -- Pai, a música não é só cantada. Também há o que se chama de música instrumental.
-- Ninguém me convence, aquilo é ruído, é uns trum trum pp tinoni tinoni, aquilo dá cabo da cabeça!
Clemente ri-se e diz filial: -- E depois, dentro da música instrumental temos de ver os instrumentos: é uma guitarra é um piano, ora há outros instrumentos além de uma guitarra e de um piano.
-- Não sei porque compras tantos discos, é para dares connosco em maluco.
Clemente tem a resposta na ponta da língua:
-- Ó pai, ainda ontem estive a ouvir um disco com poesia para meninos de poetas portugueses, poemas ditos pelo Mário Viegas e por uma senhora, a Manuela de Freitas que parece que é a esposa do José Mário Branco, custou seis euros vê lá, e é assim: já me ouviste a ouvir fado também.
-- É discos é livros...
-- Eheh, agora, estou à espera de livros que vêm de Lisboa amanhã ou depois, pensa lá, eu tenho de dissipar algum dinheiro, não posso poupá-lo todo, então vê lá... depositando uma média de cinquenta euros por semana mais o dinheiro da reforma no qual não toco, imagina o que eu não poupo, imagina se alguém investiga, ainda virão a dizer que eu ando a vender droga...
-- Como se fosse crime trabalhar, diz o pai.
Ora, Clemente não vende droga e desde que voltou de Timbuktu nunca mais traficou tecno, comprou aliás duas cópias repetidas do tecno do Green Velvet onde este diz que está a perder a cabeça e a dizer à namorada que não havia rosas na florista e por isso tingiu com o seu próprio sangue as camélias que comprou em substituição na Conceição Florista para lhe oferecer, como é óbvio ele está a perder a cabeça porque a namorada não aceitou as camélias, e se Clemente está em risco de se tornar milionário não é porque transaccionou camelos na candonga, é porque, tirando os cinquenta euros que dá à mãe todos os meses, ele só gasta dinheiro em café, faustosos pequenos-almoços, tabaco, mortalhas e ganza. E acumulando a reforma com o salário semanal do seu trabalho, gasta-o nos seus luxos: livros e discos. Clemente encarna perfeitamente a ovelha personagem da frase Trabalha Compra Consome Morre que se torna paranóica quando diz: «imagina pai se investigam, há por aí cada invejoso.»
Pelo menos, Clemente lê metade dos livros que compra e não faz mais mal nenhum nem a uma mosca nem mesmo à abelha rainha que acaba de sobrevoar o interior do anexo neste momento e ciranda por aqui à volta das minhas orelhas enquanto conto a história do Rogério fazendo-se passar pelo don Clemente.
A troca de palavras com o pai ocorreu umas horas antes de Clemente sair para o trabalho. Nesse dia, Clemente não tinha lá muita vontade de ir vergar a mola. Acordara às duas da tarde com o corpo dorido da noite de trabalho que tinha sido problemática. Almoçou com os pais, e pediu à mãe para lhe tentar lavar a camisa branca de serviço que tinha salpicos de sangue nos braços e no bolso. Tomou café e voltou para o seu quarto.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2025
Folga na 6f
-- Eu só vou poder ir aí sexta-feira porque vou ter uma folga
-- Vais ter folga na 6f? Que bom!
-- Si, eu ensinei dona A fazer higiene na mãe dela para ela me dar uma folga, ela faz mal mais faz
-- És a maior gata! Eheheh ensinaste a patroa a trabalhar
-- kkk
Tem que ser
Tive quase para puxar orelha dela, mas lembrei que ela é minha patroa e ela vira para mim e diz, tem calma Shivana
-- kkkkk
-- Depois na cozinha ela perguntou se eu ia mesmo puxar a orelha dela, acabámos a rir as duas
Anónim@s do século xxiii
domingo, 16 de fevereiro de 2025
Não posso esperar que aceitem falar comigo
sábado, 15 de fevereiro de 2025
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025
Tuíte Europeu
Crescemos a odiar o Estaline por ter morto milhões à fome e os ter deportado para a Sibéria.
domingo, 9 de fevereiro de 2025
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025
terça-feira, 4 de fevereiro de 2025
Toda a verdade
Com o pleno funcionamento dos mecanismos da alternância de poder, a jovem democracia pluralista portuguesa dá provas de se achar firmemente consolidada. Os riscos de derrapagem são agora remotos. Edições Mortas acham que é chegada a altura de os portugueses se confrontarem com algumas das mais cruas e extremas realidades do seu recente passado totalitário. Os documentos que aqui publicamos são devastadores, pertencem a uma história das mais sombrias, do período mais negro das relações luso-estadounidenses. E todavia, são também testemunho da singeleza e do tocante desamparo de dois destinos famosos, face ao poder dessa louca e imoderada esperança que se chama, porque não dizê-lo, amor.
Estas cartas foram recentemente desclassificadas do arquivo "top AA" da CIA, o que nos permitiu, através de um agente infiltrado em "cunha", microfilmá-las e introduzi-las finalmente em Portugal. A história em si, porém, embora de acesso reservado, é há muito conhecida nos seus traços gerais entre sobreviventes do círculo mais íntimo de colaboradores do ditador, altas figuras do Estado e alguns historiadores. Esbarrou até aqui, é certo, na falta de suporte documental (presume-se que a PIDE destruiu toda esta documentação na madrugada do dia 25 de Abril de 1974) e, sobretudo, na sua injustifcável mas persistente aura de tabu nacional.
(...)
Sucede que, paralelamente a estes eventos políticos, e à própria actividade dos dois aparatos de espionagem, desenvolvia-se nos dois protagonistas epistolares o lento processo de amadurecimento de uma poderosa afinidade electiva. Salazar enternece-se profundamente pela feminilidade grácil e inocente da actriz, a ponto de esquecer perigosamente Angola e as Lajes. Marylin sonha com o abraço protector daquele homem severo e asceta.
(...)
À ironia perversa da História juntou-se pois, neste complexo episódio, a sempre imprevisível natureza humana, com a sua tocante fragilidade. E é por isso que estes documentos, pertencendo por direito próprio aos anais da espionagem e da política internacional do século XX, são simultaneamente uma obra maior da literatura amorosa, onde ombreia facilmente com Catulo, Shakespear ou as cartas de Mariana Alcoforado. Por estas razões, e só por elas, nos abalançamos a esta edição que sabemos sujeita a variados e perigosos equívocos. Do sensacionalismo malsão dos media ao voyeurismo doentio das massas, vários serão os chacais à espreita de semelhante presa. Quando toda a poeira assentar, porém, estamos convictos, restará um documento humano ímpar e, também, a obra literária de fino recorte e elevada valia que (seja-nos permitida a fraqueza) justamente nos orgulhará por a termos revelado em primeira mão.
Porto, 2 de Fevereiro de 1996
página 7-9 de «Correspondênica amorosa entre Salazar e Marilyn Monroe»
Copyright A. da Silva O.
Edição Edições Mortas