sábado, 11 de junho de 2016

Corpo do meu corpo, corpo do teu corpo

A mostra que se dá corpo neste catálogo nasce de um projecto galerístico diferenciador e original. A Galeria InKlusa, sediada na cidade do Porto, é um espaço 'de convergência de diferentes tipos de Arte, desde a arte 'marginal' até à arte contemporânea'. A galeria pretende ser um 'catalizador de arte feita por pessoas com deficiência e com potencial artístico'. Um projecto democrático, democratizante e inclusivo que se deve aqui realçar.
A exposição de ZMB pretende contribuir para ultrapassar o confinamento geográfico que, tradicionalmente, delimita a arte bruta, a outsider art, a arte singular e os seus protagonistas.
A exposição individual agora patente na galeria Inklusa do artista ZMB reúne trabalhos executados entre os anos 1996 e 2016. As quinze obras expostas [nota do pintor e blogger: mais uma realizada nos ateliers do EspaçoT], de pequeno e médio formato, dividem-se em treze [catorze] óleos sobre tela, um trabalho em técnica mista, óleo e cera sobre tela, e um desenho a lápis e pastel sobre papel.
Os trabalhos expostos levam-nos numa viagem. Uma viagem sem ponto de partida nem retorno, vamos sim, graciosamente, de mão dada com o artista mergulhar no seu corpo, na sua mente, nas suas tormentas, no universo que o habita.
A arte é uma representação, é uma manifestação exterior da diversidade, a diversidade do homem e da sua relação com a vida. Todos estabelecemo esta relação, todos somos vozes do coro humano, todos somos a expressão da vivência humana, todos a representamos, todos temos uma voz nesta melodia, individual e original, todas as vozes devem ser ouvidas e expressas. A arte é a manifestação por excelência da individualidade da existência, da diferença. Toda a arte é Inklusa. Todo o corpo é um manifesto.
Somos aquilo que representamos, quer nos papéis que ocupamos no nosso quotidiano, em que imprimimos a nossa textura e espessura nas relações que estabelecemos, quer nas representações físicas que executamos, sejam textos, desenhos ou pinturas, ambos os momentos são traços de um mesmo giz, indissociáveis do nosso corpo, o corpo que habitamos, o corpo em que vivemos, o corpo que expomos, são socalcos da mesma ardósia em que escrevemos o pó da nossa existência.
Nesta exposição de ZMB, alter-ego de Rui Lourenço, uma das suas vozes, somos confrontados com o corpo, figurado ou literal, em composições intuitivas habitadas por ausências, o corpo sempre presente, interrogativo, exclamativo, inquisidor e acusador, carrasco e vítima. Em 'People think people say' ZMB mostra-nos um reflexo, o outro lado do espelho de MAI (I AM), uma acusação, um julgamento, o estereótipo vertido em cor, um plano redutor, um mundo estigmatizado em que a arte é uma janela, o pólo libertador e aglutinador, o veio de ligação da viagem.
Noutros trabalhos como em 'A natureza, Diotima e Herberto Hoelderlin' somos remetidos para Diotima de Mantineia filósofa e sacerdotisa grega que está na origem do conceito platónico do amor, Diotima no poema de Hölderlin, Hyperion, diz "Tu queres um mundo. É por isso que tens tudo e não tens nada", a ânsia e a vontade, a realização de um corpo, entre tudo querer e nada ter, todos tocar sem nunca alcançar. Os trabalhos expostos nesta mostra são plenos de originalidade, visões assertivas e audazes do inconsciente, numa linguagem crua e despida das normas que formatam a linguagem artística, são peças directas, no título e na representação, são um bilhete de ida para a mente, para os impulsos, são trabalhos feitos de um jorro, uma arte pura, crua, sem subterfúgios, que se encontra despida de preconceitos, que se expõe lívida na clareza da sua nudez.

Texto de
Hugo Andrade e José António Costa
no catálogo da exposição 'As pessoa dizem, nem sempre acertam'



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